Ninguém vai se esquecer da noite de abertura do + Massa, seja por tudo que ela representa na história das bandas e das pessoas envolvidas no projeto, seja pela pela qualidade dos espetáculos. Tudo conspirou para que a noite fosse perfeita, como de fato foi: os convidados e os amigos compareceram e tiveram participação mais que especial; o som tinha qualidade; os shows foram intensos – shows que, em todos os sentidos, fizeram o barulho necessário para mostrar a que vieram e o que pretendem as bandas envolvidas no Projeto + Massa.
Talvez não seja vão, portanto, redigir este post tentando reproduzir em palavras a energia criativa que irradiava da Livraria da Esquina na noite de quarta-feira. Arrisco dizer, em primeiro lugar, que a força que ardia no palco era tão poderosa que as vozes e os versos de Diogo Soares e Daniel Groove, bem como os arranjos dos Los Porongas e do Sonso, acabaram acordando o fantasma do escritor Mário de Andrade, que vaga solitário até hoje pelas bandas da Barra Funda, mais especificamente na Rua Lopes Chaves. Ele ouviu a bateria de Jorge Anzol, a guitarra de João, o baixo de Magrão e ficou se perguntando que canção era aquela, que vinha de uma livraria, mas que lembrava a amazônia e era tão urbana e paulista, tudo a um só tempo:
Pude ver o fantasma do poeta de relance, no espelhamento das portas de vidro, na entrada da Livraria da Esquina, em que se misturam grandes autores (como o próprio Mário de Andrade e Fernando Pessoa) outros fantasmas famosos (como Freddy Krueger), os integrantes das bandas do + Massa e o público que fuma do lado de fora:

Tentei pedir à fotógrafa Ezyê Moleda, colaboradora do projeto, que faz a cobertura fotográfica dos eventos, que tentasse registrar a visagem e a presença do poeta modernista. Em vão. Ele apagara o cigarro – estava apressado para entrar – e fora assistir ao show dos Los Porongas. Mário de Andrade não pôde acreditar, inicialmente, que um conjunto do Acre poderia fazer música urbana. Perdoei o escritor, porque ele não conhecia o conceito de urbanidade amazônica, explicado pelos Los Porongas no encarte do primeiro CD. Mais do que isso: Mário de Andrade ficou meio pirado quando descobriu (depois de perguntar a Ícaro, do Madame Saatan) que o moço de cabelo desarrumado que cantava com os Porongas não era paulistano. Mário de Andrade encantou-se com “Nada Além” – porque achou que aquela canção falava sobre São Paulo – e se deslumbrou com a participação de Hélio Flanders, do Vanguart:
E o poeta paulistano pensou assim: ao escrever Macunaíma, imaginou que as viagens desse herói pelo Brasil eram, no contexto do livro, uma forma de integrar e unificar a nossa “pátria tão despatriada”. Na obra prima de Mário de Andrade, Macunaíma voa pelo país com a ajuda de um tuiuiu, correndo distâncias enormes num bater de asas, numa geografia lendária que liberta o Brasil das contigências regionais e o integra de fato (interpretação que roubei da estudiosa Gilda de Mello e Souza). E o escritor ficou um pouco enciumado, porque percebeu que as bandas e os convidados do Projeto + Massa faziam exatamente isso, naquele momento: integravam o Brasil todo, em todas sonoridades e sotaques, na geografia lendária da canção, que está em todos os lugares.
Mas os ciúmes de Mário de Andrade não duraram nem num átimo de segundo, porque logo depois entrou O Sonso no palco, e Daniel Groove foi logo abrindo o jogo:
O Projeto + Massa é um bate-centro, aprendeu Mário de Andrade. Não é um projeto fechado, nem limita os participantes a proposta estéticas ou mercadológicas: a diversidade é o núcleo do + Massa. E o fantasma do poeta modernista ficou feliz, porque ele sempre soube que a vocação de São Paulo foi fazer fluir – vocação que estava perdida com as máquinas fordes chevrolés dodges, que deveriam fazer circular, mas que faziam a cidade parar. Mas brilhou a estrela de Daniel Groove, e o fantasma do poeta dançou e se emocionou com os “Retalhos de Cetim”, de Benito di Paula, na versão do Sonso, com Luka Schwab na guitarra, Klaus Sena no baixo, Felipe Maia na bateria e a participação de Marcelo Vourakis, tudo no vídeo acima.
O fantasma de Mário de Andrade cantou, riu, saiu pra fumar lá fora, bebeu, riu muito mais com as tiradas de Daniel Groove, e dançou animado com a participação de Saulo Duarte no show do Sonso:
E finalmente o fantasma do modernista se impressionou com o número coletivo, ao final, com Bruno Souto, do Volver, O Sonso e Los Porongas, no palco, na geografia lendária da canção:
Posso jurar que vi o fantasma de Mário de Andrade subir no palco e entoar, junto com Diogo Soares e Bruno Souto, os versos “Nada / Vai fazer com que eu / me desfaça de tudo…” – mas nossa tecnologia e nossa ciência ainda não conseguem captar de forma completa as vibrações e encontros dessa magnitude. Era preciso estar lá para ver.
Mário de Andrade abraçou os músicos e, antes de ir embora, acenou para Tiago Barizon, que lhe pediu que voltasse. O poeta sorriu e afirmou que numa noite como aquela, cada uma daquelas pessoas era uma estrela no céu, como ele e Macunaíma. O que se confirmou, quando vimos a nota que saiu no site do Cesar Giobbi:

Os registros e a divulgação da primeira noite do Projeto + Massa seriam impossíveis sem a contribuição inestimável de Aline Ridolfi, da Punksaravá, Camila Comte, Gigi Grasso, Fábio Cardelli, do Escárnio e Osso, e todos os funcionários da Livraria da Esquina, além da já citada fotógrafa Ezyê Moleda. As seis bandas e a Identidade Musical agradecem a todas essas pessoas, pois somente com elas o sonho do Projeto + Massa pode decolar.