A primeira temporada do Projeto Mais Massa na Livraria da Esquina terminou ontem, com o esperado Show Coletivo: Volver, Madame Saatan, O Sonso, Saulo Duarte e a Unidade, O Jardim das Horas e Los Porongas, nessa ordem, seguidos pelo projeto Oldcats, fizeram a festa, partilharam palco e canções, homenagens e lágrimas.
O curioso foi que, na segunda-feira, recebi um email com o endereço eletrônico fantasmadomario@gmail.com e com o título “Carta pros Mais Massas” que dizia o seguinte:
“Ao mui querido cronista do Projeto Mais Massa:
Não lhe terá surpreendido pouco receber esta mensagem – por este meio que os homens de seu tempo chamam de virtual – de um autor já defunto. Tenho certeza de que hei de surpreendê-lo ainda mais quando afirmar que lhe escrevo para confirmar presença nesse seu evento Mais Massa.
Chamei Manu Bandeira, mas ele acostumou-se à pensãozinha burguesa do céu e não quer ir. Chamei Machado, mas ele disse que tinha medo de se deixar tomar pelas canções e perder a compostura. Chamei Alencar, mas ele já tinha ido visitar Iracema, em Mecejana, inspirado pelas canções d’O Jardim das Horas. Chamei Oswaldo, mas ele disse que deixava pra uma próxima.
Ora, a falta de companhia não me arranha as convicções do espírito não. Vou nesse show coletivo e, se eu não fosse ectoplasma, gravava tudo que acontece nesses espetáculos e incluía nos registros da Missão de Pesquisas Folclóricas. Ou não. Na verdade, nunca pesquisei canções que não fossem folclóricas – e esses Mais Massas é que foram me acordar lá céu, com essas melodias, essas letras, esses arranjos, essas canções, toda essa arte. E esses Mais Massas demostraram um troço que eu já tinha escrito no Ensaio sobre a Música Brasileira: música brasileira – me corrijo, e escrevo canção brasileira - não precisa ser exótica pra ser boa e brasileira.
Aviso já: prepara os Mais Massas para um poema que vou ler, no palco, dedicado a esse Tiago Barizon, que dizem que entende mais de música do que eu. Aqui no além os manda-chuvas nos deixam aparecer entre os vivos umas poucas vezes ao longo de toda a eternidade. Vou gastar meu tempo aí com vocês. Não vão me decepcionar.
Ci, a Mãe do Mato, protege todos vocês!
O Ectoplasma Literário, Mário de Andrade“
Os organizadores do Projeto Mais Massa não puderam dizer não, e abriram espaço para o fantasma, que apareceu antes do show dos Los Porongas. Algumas imagens da noite e o poema escrito pelo ectoplasma seguem abaixo:


Na foto à esquerda: Laya Lopes, (O Jardim das Horas), Sammliz (Madame Saatan), Diogo Soares (Los Porongas) e Gigi Grasso, de volta aos palcos. À direita: nem o gesso consegue fazer Daniel Groove parar de compor e de emocionar o público

Daniel Groove e Saulo Duarte são dupla garantida nos palcos do Projeto Mais Massa.

Bruno, do Volver, toca com Los Porongas. Abaixo, o poema declamado pelo fantasma de Mário de Andrade.
Canção daqui
É o comportamento físico que materializa as contradições entre indivíduo e massa. E é claro que o indivíduo só pode ser alcançado por meio da massa.
Adaptado do primeiro texto do livro Introdução ao teatro dialético – experimentos da Companhia do Latão, de Sérgio de Carvalho
Para Tiago Barizon
Na geografia lendária da canção
não há Rio Branco, Belém do Pará,
Recife ou Fortaleza
Há beleza
Gosto do sabor adocicado das areias, das ondas do mar sagrado,
de onde quer que seja,
e me recuso à procura aqui ou acolá – eu sei lá! –
do exílio exuberante de quem está de fora.
Aqui não tem exílio, bizarria gritante ou
luneta européia que inverte o cruzeiro
numa bandeira às avessas.
Na geografia lendária da canção
nada precisa dar certo –
aqui é o bate-centro do igarapé
Tietê, Amazonas, Capibaribe, São Francisco
Rio Vermelho ou azul, rio escuro,
que me importa?
O fumacê da marginal e do poeta marginal recendem a poesia
Sintonia fina em que iracemas
Vivam todas elas!
Assumem formas disformes de etnia obscura
tarjada de povos que já não são senão estes aqui!
A geografia lendária da canção
faz curvas melódicas na estrada de Santos
porque não precisa dar em lugar nenhum
e aí alcança todos os lugares, de trem ou de avião.
Mas não tem luz mais aqui – onde?
– eu nunca fui sócio da light – eu pago não pago minhas contas –
E as estrelas ficam querendo brilhar
– bruxuleia um céu vermelho no ABC, é o que dizem os desesperados,
e vibra musical o horizonte do João em Jundiaí, é o que me noticia o pai –
E aqui as estrelas insistem em brilhar – só eu vejo?
Não apareceu na Veja?
(E o Rio Tietê, onde me leva?
Sarcástico, ele me proíbe as praias e o mar,
me leva pra Itaipu e Furnas mortas, desligadas
é insistente turrão paulista que me leva pras tempestades humanas.
Na geografia lendária da canção, onde vai desaguar esse rio?
Eu não sei
Talvez na fremente celebração do Universal?
Talvez leve à breca o destino do poeta?
Talvez aos tempos de antes de eu nascer?
Talvez num tiquinho de fatalidade do progresso?
Talvez num sentimento pachorrento de ganhar dinheiro, de comer e de dormir?)
Eu não sei, ninguém não sabe.
E o futuro talvez seja mesmo o refrigerante plástico com gosto de cola
que nos deixa a todos melancólicos histéricos.
É mentira!
Não faltam aqui os estimulantes afetivos de ordem moral
Nem os de atividade mental.
Na geografia lendária da canção não tem guerra ou paz
Tem amor – e o amor aconteceu
Não tem tempo, tudo está escuro
porque existe um ser sensível por trás de toda voz que entoa, querida
– e eu preciso te contar da minha vida, do meu amor de piração –
aqui tem ebós, matintas, cruzes.
A cidade – que cidade é esta? – que
só dança quando passa a última vela
e no aqui completo, escuro, vejo a claridade do que é real
Eu sei lá!
Tão perto, por onde for tão certo
Sigo rumo ao Cruzeiro.


À esquerda: Mário de Andrade, na época em que ainda não tinha virado estrelinha lá no céu. À direita: o fantasma do escritor, declamando a “Canção daqui”, escrita especialmente para o Projeto Mais Massa.
Todas as fotos de Bernie Walbenny, exceto a de Mário de Andrade, à esquerda. Veja outras fotos da noite clicando aqui. Logo mais, a fotógrafa Ezyê Moleda publicará outras fotos no blog de fotos do Projeto Mais Massa: www.maismassa.wordpress.com