No dia 18 de março, quinta-feira, a partir das 22h, na Livraria da Esquina, acontece mais uma edição do Projeto Mais Massa, em que a banda Volver recebe a Anacrônica, de Curitiba.
Volver (www.myspace.com/volverbrasil)
A pernambucana Volver, que a partir de junho passou a residir em São Paulo, já vem conseguindo espaços importantes na capital paulista e no Brasil. Formada por Bruno Souto (vocal e guitarras), Fernando Barreto (baixo e vocais), Zeca Viana (bateria e vocais) e Kleber Croccia (guitarra e vocais), a banda vem viajando o país, viabilizando melhor a carreira e também conquistando a simpatia de um novo público.
O grupo, que lançou no ano em 2008 o seu segundo disco, o elogiado “Acima da Chuva” (Senhor F Discos), consolidou sua carreira no Recife, tendo participado de importantes festivais na cidade como Abril pro Rock e No Ar: Coquetel Molotov. Lançado virtualmente através do MySpace, o disco atingiu a marca de 60 mil downloads no período de 30 dias, em que ficou disponível integralmente. Hoje essa marca se aproxima dos 100 mil downloads.
Anacrônica (www.myspace.com/bandaanacronica)
O cineasta François Truffaut (1932-1984) esperava duas coisas de um diretor: que fosse, de fato, um artista, e que tivesse ambição. “Deus e os loucos” (Independente, 2009), álbum de estréia do Anacrônica, cumpre as duas expectativas. Morda ou assopre, o rock muitíssimo bem tocado – e nunca diluído – pelo quarteto curitibano ainda vai além. O fim da década tem, enfim, sua trilha sonora urbana, graças a Sandra Piola (voz), Bruno Sguissardi (guitarra e voz), Marcelinho (baixo) e Marcelo Bezerra “Gordo” (bateria).
Em setembro passado, o primeiro single “Eles me querem assim” foi indicado pela Revista Rolling Stone na sessão “Ouça Também”, que decretou: “A faixa é guiada pela voz marcante de Sandra Piola em uma levada meio blues e cheia de camadas instrumentais. No meio vira uma bossinha maliciosa que logo desemboca numa catarse sonora.” A música entrou no Hotlist do site da revista e vem sendo executada em várias rádios do país. O videoclipe do single já está sendo veiculado na MTV Brasil. As viagens para Sul e Sudeste são rotina para a Anacrônica. “Está acontecendo como a gente sempre imaginou, aos poucos, e em função do empenho da banda e da força dos nossos sonhos”, comenta Sandra. Os sonhos têm nomes. São as canções de “Deus e os loucos”, como “O que será”, “Um Adeus” e “Vestígios”, além da já clássica faixa-título.
Serviço Projeto Mais Massa: bandas Volver e Anacrônica
Quinta-feira, 18/03/10
Livraria da Esquina – Rua do Bosque, 1254 – Barra Funda, São Paulo
Abertura da casa às 22h – Shows depois das 23h
Entrada: R$ 15 ou R$ 10 com nome na lista (lista@maismassa.com.br)
No dia 04 de março, quinta-feira, a partir das 22h, na Livraria da Esquina, acontece mais uma edição do Projeto Mais Massa (www.maismassa.com.br), em que Saulo Duarte e a Unidade recebem a banda Assoma, de Santo André.
Saulo Duarte e a Unidade (www.myspace.com/sauloduarte)
Ainda bem que é difícil rotular as canções de Saulo Duarte e a Unidade: com arranjos e letras simples, o compositor nascido no Pará e radicado por aí, hoje morando em São Paulo, não se preocupa com classificações – preocupa-se com a sinceridade de sua expressão musical e poética e com a consistência de sua proposta, todas elas amplificadas e sintetizadas pela banda A Unidade. Com Klaus Sena, no baixo, João Leão, nos teclados e Beto Gibbs, na bateria, além do próprio Saulo, na voz e nas guitarras, a banda potencializa nos arranjos o universo subjetivo de Saulo Duarte.
Assoma (www.myspace.com/assomarock)
Assomar, segundo o dicionário, faz menção à elevação. Talvez para os integrantes, Assoma seja a junção pura e simples de criatividade, estilo, intensidade e profissionalismo. Formada em 2008 em Santo André, com ex-integrantes de bandas expressivas da cena rock do ABC, a banda traz como conceito a sonoridade densa e objetiva somada às letras cotidianas. Influenciado pelo rock alternativo, clássicos do rock e até por moda de viola, o quarteto tem como vantagem maior a mistura de informações e raízes, o que traz novas experimentações e alternativas para as composições referentes a temas comuns e de fácil identificação. Tudo com uma ponta de inconformismo.
Serviço
Show do Projeto Mais Massa com Saulo Duarte e a Unidade
Banda convidada: Assoma
Dia 04/03, a partir das 22h
Livraria da Esquina – Rua do Bosque, 1254 – Barra Funda – São Paulo
Estacionamento conveniado ao lado da casa
Entrada: R$ 15
Com nome na lista: R$ 10 lista@maismassa.com.br
O ponto de partida para a criação do Projeto Mais Massa foi a união de seis bandas de fora de São Paulo, morando na capital paulista. Em conversas informais, em encontros planejados nas casas de uns e outros, de passagem pelos camarins das casas noturnas e até nos backstages dos festivais independentes pelo Brasil, os integrantes de Los Porongas, Madame Saatan, O Jardim das Horas, O Sonso, Saulo Duarte e a Unidade e Volver perceberam que tinham em comum a residência recente em Sampa, com todas as maravilhas e agruras de morar nessa cidade.
Na primeira temporada do Projeto, em 2009, duas das seis bandas se apresentaram na mesma noite, ao longo de três semanas, apresentando as canções que compuseram ao longo de suas carreiras e parcerias recentes, criadas no contexto do projeto e das amizades que cresceram. Essa interação se completou com participações de compositores e músicos paulistanos especialmente convidados e com uma quarta e última apresentação, em que integrantes das seis bandas fizeram um show coletivo.
Agora, ao longo de 2010, quinzenalmente, na Livraria da Esquina, o Projeto Mais Massa terá shows de uma banda convidada e de uma banda do Projeto. É o que vai rolar na próxima quinta-feira, dia 04 de fevereiro, a partir das 22h.
Serviço
Projeto Mais Massa – Temporada 2010 – 04 de fevereiro, quinta à noite
Nosotros e O Sonso na Livraria da Esquina
Rua do Bosque, 1254 – Estacionamento conveniado ao lado da casa. Clique aqui para ver o mapa
Abertura da casa: 22h. Primeiro show: 23h. Segundo show: 00h30
R$ 10,00 – Nome na lista: R$ 5,00 – garanta seu nome na lista enviando email para lista@maismassa.com.br
O Projeto Mais Massa chega ao final de sua primeira temporada mais embalado do que nunca. As seis bandas que participam do projeto consagram o início de um sonho, na próxima quarta-feira, dia 11 de novembro, com um show coletivo, cheio de surpresas para o público que vem acompanhando fielmente as apresentações, além do agendamento de novos shows.
Uma característica marcante do Mais Massa são as participações especiais, em que as bandas que tocam na noite recebem convidados, integrantes de outros conjuntos, do projeto ou de fora dele. Afinal, o objetivo é muito claro: fazer mais barulho, formar público em São Paulo e acentuar o potencial criativo das bandas.
Na primeira noite, que aconteceu em 21 de outubro, na Livraria da Esquina, tocaram os acreanos dos Los Porongas e os cearenses da banda O Sonso – e a noite foi do conceito de urbanidade amazônica, proposto pelos Porongas, às fusões de MPB, rock e música brega do Sonso. O clima foi de festa inaugural, que prometia e já conseguiu continuidade: a agenda de novembro e dezembro já está cheia (veja calendário no fim deste texto) e a de 2010 já começa a ser preenchida.
Sammliz (Madame Saatan) e Laya (O Jardim das Horas): as vocalistas fizeram “Summertime”, de Gershwin, na terceira noite do Projeto Mais Massa
Na segunda noite, em 28 de outubro, apresentaram-se O Jardim das Horas e Saulo Duarte e a Unidade. Mais uma vez, sonoridades e propostas diversas – mas que não se excluem, ao contrário, se completam – dialogaram no palco: o público dançou com a fusão da moderna música eletrônica com as raízes musicais brasileiras, proposta pelos cearenses d’O Jardim das Horas, e com as canções do paraense Saulo Duarte e a banda A Unidade.
Daniel Groove (O Sonso), Bruno Souto (Volver), Diogo Soares (Los Porongas) e Saulo Duarte (Saulo Duarte e a Unidade): os vocalistas compõem e se divertem juntos. É a integração proposta no Projeto Mais Massa
Na terceira noite, em 04 de novembro, os pernambucanos do Volver arrepiaram a platéia com as canções do álbum Acima da chuva, de 2008, sucesso de público e de crítica. O projeto foi concluído com a sonoridade pesada dos paraenses do Madame Saatan, banda também consagrada no cenário da atual música independente brasileira. Mais uma vez, o clima foi de confraternização: as bandas, a Livraria da Esquina e a Identidade Musical apostam no sucesso do projeto, pela qualidade das propostas e pelo empenho de todos os envolvidos.
Foto histórica: a proposta do Mais Massa é integrar, circular, compor e fazer barulho em São Paulo.
Em pé: Bernie Walbenny (produtor do Madame Saatan), Zeca Viana (Volver), Laya Lopes (O Jardim das Horas), Klaus Sena (O Sonso e Saulo Duarte e a Unidade), Heitor (da Livraria da Esquina, entusiasta do projeto; sem ele, tudo seria mais difícil), Sammliz (Madame Saatan), Ivan Vanzar (Madame Saatan), Jorge Anzol (Los Porongas), Tiago Barizon (Identidade Musical), Tatá Muniz e Jully Pop (da banda Julia Car, que marcou presença na última quarta).
Sentados: Ícaro Suzuki (Madame Saatan), Bruno Souto (Volver), Ed Guerreiro (Madame Saatan), Rogério Duarte (Identidade Musical) e Fernando Barreto (Volver)
Assim, a quarta e última noite, que acontecerá em 11 de novembro, promete ser uma grande festa, com o palco recebendo ectoplasmas literários (autores-defuntos?) que prometem aparecer e declamar seus trabalhos, encontros inusitados e inesquecíveis e o repertório surpreendendo e arrepiando, como aconteceu em todas as noites do Projeto Mais Massa.
Em pé: Bernie Walbenny (produtor do Madame Saatan), Ivan Vanzar (Madame Saatan), Zeca Viana (Volver), Diogo Soares (Los Porongas), Laya Lopes (O Jardim das Horas), Klaus Sena (O Sonso e Saulo Duarte e a Unidade), Daniel Groove (O Sonso), Bruno Souto (Volver), João Leão (Saulo Duarte e a Unidade), Saulo Duarte e Jorge Anzol (Los Porongas)
Sentados: Ed Guerreiro, Sammliz, Ícaro Suzuki (Madame Saatan), Tiago Barizon, Rogério Duarte (Identidade Musical), Fernando Barreto (Volver), Fábio Cardelli (da banda paulistana Visitantes, que ruma neste momento para uma tour pelo nordeste) e João Eduardo (Los Porongas)
A grande novidade é que o Projeto Mais Massa, com poucos meses de existência, já deu frutos: temos datas marcadas para apresentações no Cidadão do Mundo, no centro de São Caetano do Sul, e no Zé Presidente, na Vila Madalena, em São Paulo. Além disso, a equipe de produção também conta agora com o pessoal da Punksaravá, que engrossa o caldo da geografia lendária da canção brasileira: o Projeto deve a eles as datas no Zé Presidente.
Calendário do Projeto Mais Massa: Novembro e Dezembro
Cidadão do Mundo – Rua Rio Grande do Sul, 73 - centro de São Caetano do Sul 14/11 – Volver + Los Porongas
21/11 – O Sonso + Saulo Duarte e a Unidade
28/11 – Madame Saatan + O Jardim das Horas
Zé Presidente – Rua Cardeal Arcoverde, 1545, Vila Madalena, São Paulo 19/11 – Madame Saatan + Saulo Duarte e a Unidade
26/11 – Sonso + Volver
03/12 – O Jardim das Horas + Los Porongas
Se pesquisarmos os significados do verbo “volver” no Dicionário Houais, encontraremos várias acepções, quase todas elas relacionadas à ideia de movimento. Gosto de “revolver-se, revirar-se, rolar, voltar-se”, porque mostra exatamente o que a banda Volver fez com o público na última quarta: todos se reviraram, envolvidos pelas melodias e letras da banda.
Acontece que se nos deixarmos envolver a partir de um determinado ponto, assumiremos que Volver é “dirigir-se para outra direção, virar-se, voltar-se”, e perceberemos que a banda nos faz olhar além da vida cotidiana e medíocre, além da sina vulgar do trabalho: “Vamos em frente que a sorte ainda está por vir / Se era pra sempre / Sempre mais”. Sempre Mais Massa, devem ter pensado os participantes do projeto, que também estavam presentes – todos com o mesmo sentido, orientados pela mesma finalidade e pela finalidade mesma de ir em frente, de carona no trem e no avião.
E quanto mais ouvimos, mais mergulhamos em nós mesmos, verificamos que Volver também é “mexer ou cavoucar repetidas vezes; remexer, voltar”. Trata-se dos efeitos das canções da banda sobre o público, que dançava, e se emocionava, e mergulhava em si, revolvendo as sensações que as melodias acordavam e irradivam pela casa.
Quando o público se deu conta, era hora de acabar. Uma pena! Já sabemos que as noites do Projeto + Massa na Livraria da Esquina são o espaço lendário da canção, cujo tempo é permanente e suspenso. O que nos leva ao verbo latino que deu origem a Volver, em português: volvo,is,vólvi,volútum,ère que significava, entre outras coisas “fazer decorrer o tempo”; “meditar, refletir”.
Fomos para casa todos espantados e meditativos, porque na última quarta-feira parecia não haver mais tempo, ou parecia que ele enlouquecera, às vezes acelerado, outras suspenso nas melodias. Hora de Volver.
Acontece que não dá pra fazer canção no Brasil sem dialogar com as estrelinhas que hoje moram lá no céu, mas que já foram gente que nem nós. E o projeto + Massa tem mesmo essa capacidade de ficar retomando, e despertando, e ressignificando a música e a literatura brasileira. Foi assim na primeira noite e foi assim também na segunda, cada uma à sua maneira, mas ambas fazendo correrem livremente os tempos e as épocas, as regiões e as geografias. Quem esteve na Livraria da Esquina na quarta à noite teve a chance de sentir o clima encantado que se estabeleceu por lá. Não é à toa: as seis bandas estão realizando sonhos e vivendo a arte naquele palco.
O Jardim das Horas: Beto Gibbs (bateria), Laya Lopes (voz), Carlos Gadelha (guitarra e programação) e Raphael Haluli (baixo)
Tudo começou com a apresentação d’O Jardim das Horas, com a presença do mais novo integrante – e o único que não saiu do palco ao longo dos dois espetáculos da noite: Beto Gibbs. Quem conhece as composições e os espetáculos da banda sabe que O Jardim das Horas chama aos sentidos do público: além da música, que ocupa energeticamente o ambiente inteiro, recheando-o das vibrações positivas das letras e das sonoridades, as luzes incidem sobre os integrantes, fazendo que a energia que arde no palco irradie longe. E a expressão o show ferve pode ser tomada no sentido literal, sem metáforas. Audição, visão, tato: O Jardim das Horas faz um dos mais sensíveis espetáculos do + Massa.
E as vibrações vão tão longe, e as canções dialogam com tantas referências – rock, trip-hop, reggae, música popular brasileira, música para meditação -, que O Jardim das Horas, banda cearense, acabou acordando o espectro de seu conterrâneo literário mais célebre: José de Alencar, que vagou um pouco tenso pela Livraria da Esquina, sem entender bem, no início, o que se passava por ali.
A sorte - sorte mesmo – é que o fastasma de Mário de Andrade também apareceu e explicou a Alencar o que acontecia, dispensando Tiago Barizon da tarefa. Todo mundo sabe que Barizon conhece tudo de música – mas daí a explicar a um fantasma do século XIX o que aconteceu desde a ópera O Guarani, de Carlos Gomes, até O Quarto das Cinzas d’O Jardim das Horas ia ser meio trabalhoso. Tarefa de escritor para escritor, de crítico musical e ex-diretor de departamento de cultura para ex-Ministro da Justiça. Alencar e Mário sentaram no canto, pediram uma cachaça cada e o modernista atualizou o romântico.
Ícaro Suzuki, baixista do Madame Saatan, banda que se apresentará na próxima quarta-feira, e Tiago Barizon, DJ e produtor musical, se livraram da árdua tarefa de explicar o que é um metaleiro ao fantasma do escritor José de Alencar
E Mário de Andrade explicou assim a José de Alencar: que a palavra “Barizon” não significa “metaleiro maltrapilho e embriagado”, como explicara Daniel Groove na porta da Livraria da Esquina. José de Alencar não acreditou. Depois: o poeta paulista explicou ao romancista cearense que o livro Iracema tinha, de certa forma, envelhecido, porque, nessa obra, o país e o povo novo que surgem são filhos da dor. E que naquele Projeto Mais Massa não tinha nem sangue, nem dor, nem dominação de um povo sobre outro, muito menos animosidades entre o sudeste e os estados do norte e do nordeste. Nada disso nem não havia, falou desse jeito, com essas tantas exatas palavras, o espectro de Mário de Andrade. E como Alencar ficou assim muito sarapantado, o paulistano disse a ele que prestasse atenção ao espetáculo:
Diogo Soares, dos Los Porongas, e Laya Lopes, d’O Jardim das Horas, fazem a Livraria da Esquina recender a poesia e a Brasil. “É um espetáculo sinestésico”, declarou o fantasma de Mário de Andrade. No + Massa cabe o Brasil inteiro, porque é espaço lendário da canção brasileira.
E Alencar perguntou como era isso, que história era essa de um moço se chamando Diogo Soares cantar nos shows de todas as bandas, se ele era de um lugar que o próprio Alencar sequer imaginava que existia. E Mário de Andrade respondeu que o estado do Acre praticamente brigara para ser brasileiro – mais ou menos o que todos os artistas estavam fazendo ali, naquele exato momento.
E nessa hora Alencar começou a acreditar em tudo que o paulistano dizia, porque as vibrações que vinham do palco começaram a tomá-lo de assalto – e ele se lembrou dos “verdes mares bravios” de sua terra natal, mas percebeu que não precisava chamá-los de uma forma assim tão empolada, bastava que fosse respeitosa, como “Ondas do mar sagrado”, que ele estava doido pra visitar.
Quando senão quando o fantasma de Mário de Andrade deu uma grande gargalhada: e era porque José de Alencar, todo na estica, de terno e gravata, estava dançando, no mei0 das pessoas do século XXI. Alencar estava nostálgico, lembrando do mar sagrado, dos ares e do sol quente do Ceará, cujo hálito ele poderia sentir ali. E Mário lhe explicou que era porque o show d’O Jardim das Horas era sinestésico. Mário de Andrade era feiticeiro.
O público da Livraria da Esquina e o fantasma de José de Alencar dançam no ritmo d’O Jardim das Horas. O espectro do escritor está à direita, de terno, gravata e barba longa.
Mas não foi só isso. Alencar se divertiu com O Jardim das Horas, com a participação de Bruno Souto, que cantou “Viciante”, e se impressionou.
E era porque ele Alencar, estrelinha já brilhante no céu, Bruno Souto e Daniel Groove, de certa forma, se pareciam. E era como se os meninos do Volver e d’O Sonso prestassem uma homenagem a um dos pais da identidade brasileira, que o + Massa também quer ajudar a construir:
José de Alencar, Daniel Groove, d’O Sonso, e Bruno Souto, que fez “Viciante” com O Jardim das Horas: barbas austeras de quem fez e faz a história da cultura brasileira
Alencar já estava embriagado de cachaça e de Brasil do século XXI, quando Saulo Duarte e a Unidade subiram no palco. E aí foi aquela festa: Alencar dançou com as meninas que estavam lá, ao som da banda, tomou uma câmera das mãos de Diogo Soares, que por sua vez a havia tomado de Gigi Grasso e descobriu que o amor do século XXI não era de perdição, mas de piração:
E foi bonito ver aquele fantasma pular, e cantar, e se empolgar. Alencar disse a Tiago Barizon que tinha gostado da letra da canção de Saulo Duarte porque via nela um traço dos sonhos amorosos que ele próprio, ectoplasma literário, havia sonhado na época do Romantismo. Alencar aprendeu que “Amor de piração é veneno / corre na veia solto e quando foi já viu / nem percebeu” e concluiu, todo pensamentoso: que no século XXI o amor era veneno, mas que não era nocivo, e que uma das capacidades estéticas do moço jovem que cantava era a ressignificação do amor.
E o fantasma cearense perguntou ao poeta tinhoso e jornalista gonzo Pedro Pracchia, do coletivo Escárnio e Osso, se o Brasil e o mundo tinham mudado pra melhor, se dava pra contar às estrelinhas lá do céu que havia esperança. Pedro respondeu que Saulo já tinha respondido: “apesar da crise do mal-estar e do momento / não podemos esquecer que ainda há muito o que correr / e que sonhar acalma o peito e me faz ver você sorrindo”, versos em que as imagens da mulher amada estão amalgamadas às da ressignificação do Brasil e do mundo.
Nessa hora, Alencar deu uma grande gargalhada e percebeu, então, que o amor continua inspirando os sonhos das ações concretas na realidade, que continuam inspirando mais amor. E que, portanto, Iracema e ele próprio não tinham envelhecido tanto assim. Porque as letras e as composições de Saulo Duarte e a Unidade são todas iluminadas pelo amor, que orienta os mares, os ares – e principalmente o sol: ”De que lado que o sol nasce / na praça do pôr do sol? / Não me pergunto mais / Ele vem quando você começa a sorrir”.
E na parte do ”chalalalaialailaiá”, no final, os ectoplasmas literários, agora mais visíveis devido ao calor que emanava das pingas que haviam tomado e das vibrações sonoras que haviam absorvido, cantaram junto com o público, porque haviam percebido que mais uma paisagem, antes paulistana, depois cearense e paraense, agora brasileira, se inscrevia na geografia lendária da nossa canção: a Praça do Pôr do Sol, que nasce de todos os lados, pra todas as gentes, percorrendo as curvas da estrada de Santos:
E como Alencar estava assim muito marupiara, afogado num porre mãe, o paulistano Mário apontou Fábio Cardelli, também catimbozeiro, paulista e vocalista dos Visitantes, que fazia participação histórica: ela significava que, da mesma forma que nas canções sinestésicas d’O Jardim das Horas e nas canções de amor de Saulo Duarte, havia espaço para todos os sotaques brasileiros no Projeto + Massa.
Todas as imagens de Ezyê Moleda; todos os vídeos de Gigi Grasso, um deles com a contribuição de Diogo Soares e do fantasma de José de Alencar.
Ninguém vai se esquecer da noite de abertura do + Massa, seja por tudo que ela representa na história das bandas e das pessoas envolvidas no projeto, seja pela pela qualidade dos espetáculos. Tudo conspirou para que a noite fosse perfeita, como de fato foi: os convidados e os amigos compareceram e tiveram participação mais que especial; o som tinha qualidade; os shows foram intensos – shows que, em todos os sentidos, fizeram o barulho necessário para mostrar a que vieram e o que pretendem as bandas envolvidas no Projeto + Massa.
Talvez não seja vão, portanto, redigir este post tentando reproduzir em palavras a energia criativa que irradiava da Livraria da Esquina na noite de quarta-feira. Arrisco dizer, em primeiro lugar, que a força que ardia no palco era tão poderosa que as vozes e os versos de Diogo Soares e Daniel Groove, bem como os arranjos dos Los Porongas e do Sonso, acabaram acordando o fantasma do escritor Mário de Andrade, que vaga solitário até hoje pelas bandas da Barra Funda, mais especificamente na Rua Lopes Chaves. Ele ouviu a bateria de Jorge Anzol, a guitarra de João, o baixo de Magrão e ficou se perguntando que canção era aquela, que vinha de uma livraria, mas que lembrava a amazônia e era tão urbana e paulista, tudo a um só tempo:
Pude ver o fantasma do poeta de relance, no espelhamento das portas de vidro, na entrada da Livraria da Esquina, em que se misturam grandes autores (como o próprio Mário de Andrade e Fernando Pessoa) outros fantasmas famosos (como Freddy Krueger), os integrantes das bandas do + Massa e o público que fuma do lado de fora:
Tentei pedir à fotógrafa Ezyê Moleda, colaboradora do projeto, que faz a cobertura fotográfica dos eventos, que tentasse registrar a visagem e a presença do poeta modernista. Em vão. Ele apagara o cigarro – estava apressado para entrar – e fora assistir ao show dos Los Porongas. Mário de Andrade não pôde acreditar, inicialmente, que um conjunto do Acre poderia fazer música urbana. Perdoei o escritor, porque ele não conhecia o conceito de urbanidade amazônica, explicado pelos Los Porongas no encarte do primeiro CD. Mais do que isso: Mário de Andrade ficou meio pirado quando descobriu (depois de perguntar a Ícaro, do Madame Saatan) que o moço de cabelo desarrumado que cantava com os Porongas não era paulistano. Mário de Andrade encantou-se com “Nada Além” – porque achou que aquela canção falava sobre São Paulo – e se deslumbrou com a participação de Hélio Flanders, do Vanguart:
E o poeta paulistano pensou assim: ao escrever Macunaíma, imaginou que as viagens desse herói pelo Brasil eram, no contexto do livro, uma forma de integrar e unificar a nossa “pátria tão despatriada”. Na obra prima de Mário de Andrade, Macunaíma voa pelo país com a ajuda de um tuiuiu, correndo distâncias enormes num bater de asas, numa geografia lendária que liberta o Brasil das contigências regionais e o integra de fato (interpretação que roubei da estudiosa Gilda de Mello e Souza). E o escritor ficou um pouco enciumado, porque percebeu que as bandas e os convidados do Projeto + Massa faziam exatamente isso, naquele momento: integravam o Brasil todo, em todas sonoridades e sotaques, na geografia lendária da canção, que está em todos os lugares.
Mas os ciúmes de Mário de Andrade não duraram nem num átimo de segundo, porque logo depois entrou O Sonso no palco, e Daniel Groove foi logo abrindo o jogo:
O Projeto + Massa é um bate-centro, aprendeu Mário de Andrade. Não é um projeto fechado, nem limita os participantes a proposta estéticas ou mercadológicas: a diversidade é o núcleo do + Massa. E o fantasma do poeta modernista ficou feliz, porque ele sempre soube que a vocação de São Paulo foi fazer fluir – vocação que estava perdida com as máquinas fordes chevrolés dodges, que deveriam fazer circular, mas que faziam a cidade parar. Mas brilhou a estrela de Daniel Groove, e o fantasma do poeta dançou e se emocionou com os “Retalhos de Cetim”, de Benito di Paula, na versão do Sonso, com Luka Schwab na guitarra, Klaus Sena no baixo, Felipe Maia na bateria e a participação de Marcelo Vourakis, tudo no vídeo acima.
O fantasma de Mário de Andrade cantou, riu, saiu pra fumar lá fora, bebeu, riu muito mais com as tiradas de Daniel Groove, e dançou animado com a participação de Saulo Duarte no show do Sonso:
E finalmente o fantasma do modernista se impressionou com o número coletivo, ao final, com Bruno Souto, do Volver, O Sonso e Los Porongas, no palco, na geografia lendária da canção:
Posso jurar que vi o fantasma de Mário de Andrade subir no palco e entoar, junto com Diogo Soares e Bruno Souto, os versos “Nada / Vai fazer com que eu / me desfaça de tudo…” – mas nossa tecnologia e nossa ciência ainda não conseguem captar de forma completa as vibrações e encontros dessa magnitude. Era preciso estar lá para ver.
Mário de Andrade abraçou os músicos e, antes de ir embora, acenou para Tiago Barizon, que lhe pediu que voltasse. O poeta sorriu e afirmou que numa noite como aquela, cada uma daquelas pessoas era uma estrela no céu, como ele e Macunaíma. O que se confirmou, quando vimos a nota que saiu no site do Cesar Giobbi:
Os registros e a divulgação da primeira noite do Projeto + Massa seriam impossíveis sem a contribuição inestimável de Aline Ridolfi, da Punksaravá, Camila Comte, Gigi Grasso, Fábio Cardelli, do Escárnio e Osso, e todos os funcionários da Livraria da Esquina, além da já citada fotógrafa Ezyê Moleda. As seis bandas e a Identidade Musical agradecem a todas essas pessoas, pois somente com elas o sonho do Projeto + Massa pode decolar.
Seis bandas de fora de São Paulo, morando na capital paulista: esse foi o ponto de partida para a criação do Projeto Mais Massa. Em conversas informais, em encontros planejados nas casas de uns e outros, de passagem pelos camarins das casas noturnas e até nos backstages dos festivais independentes pelo Brasil, os integrantes de Los Porongas, Madame Saatan, O Jardim das Horas, O Sonso, Saulo Duarte e a Unidade e Volver perceberam que tinham em comum a residência recente em Sampa, com todas as maravilhas e agruras de morar nessa cidade.
A ideia do Projeto Mais Massa é ambiciosa e simples, ao mesmo tempo: duas das seis bandas se apresentam na mesma noite, ao longo de três semanas, apresentando as canções que compuseram ao longo de suas carreiras. Nessas apresentações, o público paulistano também terá a chance de perceber o diálogo entre as obras desses artistas, que contribuirão uns nos shows dos outros. Essa interação se completa com as participações de compositores e músicos paulistanos especialmente convidados e com uma quarta e última apresentação, em que integrantes das seis bandas fazem um show coletivo.
As noites do Projeto Mais Massa acontecem nas duas últimas quartas-feiras de outubro (21/10 e 28/10) e nas duas primeiras de novembro (04/11 e 11/11), na Livraria da Esquina, espaço que já tem se consagrado na noite paulistana por incentivar apresentações de bandas independentes. Localizada na Barra Funda, a casa fica a poucos minutos da estação de metrô – o que facilita o acesso a todos que quiserem assistir aos espetáculos do Projeto Mais Massa. Abaixo, o mapa do Google com a rota a pé, da Estação de Metrô até a Livraria da Esquina: Exibir mapa ampliado
O primeiro show da noite vai começar sempre às 21h30, para que o último termine pouco depois da meia-noite: assim, todo mundo que precisar trabalhar cedinho na quinta pode ir para casa tranquilo. Quem puder esticar a noite com a gente pode ficar à vontade: toda noite depois dos shows, um DJ convidado agita a pista até um pouco mais tarde.
A seguir, o calendário do Projeto Mais Massa
21/10 – Los Porongas + O Sonso
28/10 – Jardim das Horas + Madame Saatan
04/11 – Saulo Duarte e a Unidade + Volver
11/11 – Show coletivo