O que não é a canção brasileira
Este post é continuação da análise da reportagem publicada no dia 21 de fevereiro, na Folha de São Paulo, em texto de Bruna Bittencourt. Para ler a primeira parte da análise, clique aqui. Para ler a segunda parte da análise, clique aqui.
Segue abaixo a conclusão do texto:
Nesse cenário, artistas estrangeiros já consagrados se beneficiam. "Boa parte do que você tem que fazer vem pronto, o custo é menor", diz Affonso sobre gastos como gravação de disco e divulgação.
"Infelizmente, vai voltar a ser como na década de 70, 80, quando o mercado era 25% de música brasileira e 75% de internacional", arrisca ele. O que mudou esse quadro foi um incentivo que o governo criou para gravação nacional. As companhias podiam abater do ICM (imposto sobre circulação de mercadoria) a ser pago o que investiam em artistas nacionais, explica Éboli. "Mas o incentivo foi retirado há cinco anos. O produto nacional passou a competir em igualdade com o internacional por investimento. É como comparar o "Avatar" a um filme nacional."
Apesar da redução, Rosa é otimista em relação à venda de música brasileira, 70% do total. "É uma taxa muito alta de repertório local, superada apenas pelo mercado americano." Marcelo Castello Branco, da EMI, concorda: "É uma posição diferenciada".
Vamos ver se entendi o raciocínio: com a isenção do ICMS, o público brasileiro passou a consumir mais música brasileira, já que as gravadoras passaram a investir mais nela do que na estrangeira. Mais uma vez, segundo a lógica do texto: o público consumirá aquilo que a gravadora lhe apresenta. Consideremos, entretanto, alguns outros dados:
a) existem "demandas de mercado" que partem do público, não das campanhas de marketing das gravadoras. Se elas soubessem reconhecer que trabalham com música popular, não com geladeiras ou televisores, já teriam percebido que, embora seja verdade que muita gente só consome o que toca na rádio ou na trilha da novela, há conteúdos e sonoridades que partem do público, não daquilo que os executivos consideram ser um bom produto. A história da canção brasileira está cheia de exemplos disso. Talvez, nos processos seletivos das grandes gravadoras, fosse uma boa exigir, além de MBAs, leituras básicas, como o já citado Música, Ídolos e Poder — do Vinil ao Download, de André Midani, ou O Século da Canção, de Luiz Tatit, em que se lê o seguinte:
Acontece que as leis do mercado só são leis de fato quando analisadas retrospectivamente. Sua capacidade de previsão, ao menos com produto de natureza artística, é de curto alcance. O êxito dos produtores e executivos que parecem se orientar por essas leis depende bem mais da flexibilidade com que desenvolvem suas estratégias do que da determinação infalível de seus métodos. Contracenando com o encaminhamento do produto, há as flutuações no âmbito do gosto e das necessidades emocionais que singularizam os mais variados setores da sociedade e se manifestam diferentemente em cada fase de sua evolução histórica. Os produtores foram aprendendo a auscultar assiduamente a opinião dos ouvintes e a refazer incansavelmente seus projetos de acordo com as variações registradas.
Em poucas palavras: para trabalhar com música, é preciso um mínimo de sensibilidade à arte, à crítica e ao público. Planilhas de Excel não podem resolver tudo;
b) a tal isenção do ICMS não teve apenas os efeitos benéficos descritos na reportagem da Folha. No livro Dias de Luta: o rock e o Brasil dos anos 80, o jornalista Ricardo Alexandre, num trecho sobre a virada do mercado fonográfico brasileiro da década de 70 para a de 80, afirma que
"Uma perversão da lei permitia que as gravadoras multinacionais ficassem isentas do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM) apresentando contratos com músicos brasileiros. Ou seja, quanto mais discos do Led Zeppelin (as tais "mercadorias") vendessem no Brasil, tanto mais Gilberto Gil (o "músico brasileiro") enriqueceria - e não faltaram nesse período baluartes que, graças à isenção fiscal, trocaram de gravadora e ganharam apartamentos ou adiantamentos faraônicos, mesmo com suas vendas modestas"
Assim fica mais fácil de entender por que alguns compositores insistem em ficar ao lado da indústria fonográfica. Trata-se exatamente daqueles muito poucos (e terão todo esse talento? ou são apenas técnicos, grandes especialistas em fazer sempre o mesmo produto, com que uma grande parcela do público ainda está habituada?) que se beneficiam das margens de lucro das grandes gravadoras.
Alguns leitores poderão argumentar que o trecho de Ricardo Alexandre se refere a um período já distante. Verdade, mas a lógica parece continuar a mesma: privilégio de uns poucos músicos alinhados com a indústria fonográfica. Outros leitores poderão ter ficado injuriados com a referência a Gilberto Gil, um dos nomes quase intocáveis da MPB. Também fico, porque Gil é dos grandes talentos que temos. Mas insisto: a verdade é que uns poucos deles se beneficiam da estrutura das gravadoras.
c) há uma constatação que permeia o texto: a de que o mercado brasileiro de música é diferenciado, porque 70% das canções consumidas por aqui são de compositores brasileiros. A cifra é impressionante e talvez soe falsa para alguns leitores. Mas não nos iludamos: a música brasileira vai muito além das bandas, duplas e intérpretes das novelas da Globo e das rádios FM. Aqueles 70% são compostos também por uma imensidão de compositores renegados pelo público elitizado e pelos grandes jornais. O texto publicado na Folha, destinado exatamente aos setores dominantes e à classe média, advoga em favor da "música brasileira", que está supostamente com "a corda no pescoço", mas talvez a autora tenha se esquecido de que a maioria dos músicos que compõem os tais 70% seriam classificados pelos leitores da Folha como "de mau gosto".
d) não gosto nem de imaginar possíveis consequências nefastas da publicação de uma reportagem como essa: repete-se o discurso cômodo de que "não se faz música brasileira como antigamente", de que "a música brasileira não tem novos talentos", ou de que "estamos sofrendo a invasão da música estrangeira". O tom da reportagem é o de que a pobre indústria fonográfica, que tanto investiu na cultura brasileira, agora está abandonada às traças pelo governo, sem isenção fiscal, e pelo público.
O que tentei fazer neste texto foi examinar a fundo a reportagem publicada na Folha de domingo, em que o discurso da indústria fonográfica é reproduzido à risca, com o tom alarmista de que "a música brasileira está com a corda no pescoço", sem levar em consideração o recrudescimento do mercado independente de música e os compositores que o público leitor elitizado não escuta. A canção brasileira não são apenas os sucessos emplacados pelas cinco grandes gravadoras.
Comentários