O álbum Que país é este – 1978/1987, da Legião Urbana, é dos meus preferidos por muitos motivos. É interessante, por exemplo, investigar o encarte do disco, em que há algumas explicações a respeito das canções registradas. Descobrimos, ali, que algumas delas datam do período de atividade do Aborto Elétrico – espécie de nascedouro das bandas de Brasília – e que a canção que dá título ao trabalho havia ficado de fora dos dois primeiros LPs porque a banda acreditava que “aquele país” poderia mudar; anos depois, como quase nada acontecera, os integrantes julgaram pertinente gravar a canção, que não tinha envelhecido.
Essa sensação contraditória de que o Brasil pode mudar – para melhor – e de que ele nunca o faz parece permear muitas de nossas canções populares. Para experimentar desse sentimento, atualmente, basta ouvir “Angra dos Reis”, do mesmo LP, espécie de protesto contra o recrudescimento de usinas militares no litoral carioca.
Recentemente, vinte anos depois da gravação do disco, os jornais noticiaram que o presidente Lula decidiu tirar da gaveta o projeto de construção da Usina Nuclear Angra 3. Vivemos tempos diferentes dos anos oitenta: a inflação foi debelada, a economia prospera, a bolsa bate recordes há cinco anos; são necessários para a manutenção do crescimento – dizem os analistas econômicos – investimentos em energia. Daí, surge a pergunta que me parece, no mínimo, perigosa: por que não investir em Angra 3?
Sem querer fugir ao debate a respeito da construção da usina, impressiona-me que pouca ou nenhuma reação a essa notícia tenha surgido com a mesma força que surgiram os elogios a ela; mas me impressiona ainda mais a condição de quase-profetas em que, cada vez mais, figuram nossos letristas – eles adivinham o futuro? Acho que não. Acredito que vivemos, no Brasil, num presente quase imutável, no qual trocamos nossa condição anterior pela “bola da vez”, pelo novo, pelo “moderno”, sem que ocorram, entretanto, mudanças fundamentais, que rompam com nosso atraso. Isso está registrado em muitas canções e parece revelar que o Brasil é assim mesmo: a nação em que hoje, tentando superar nosso ontem, projetamos nossa modernização, nosso amanhã, que pretendemos diferente, mas que acaba sendo sempre igual ao passado e ao presente.
Não é por acaso que Que país é este – 1978/1987 tenha sido um grande sucesso do rock da década de oitenta e que ainda siga sensibilizando o público. No título do disco, observa-se um intervalo de tempo, durante o qual a maquilagem do Brasil pode ter mudado, mas em que seu rosto e suas rugas continuaram essencialmente os mesmos, afinal, na primeira canção, “Que país é este”, afirma-se que há sujeira no Senado (Alô, Renan!) e que não há respeito à Constituição.
A despeito da simplicidade juvenil desses versos, mantém-se a sensação asquerosa de imobilidade, repudiada com a frase-título sem interrogação, sugerindo que não estamos diante de pergunta, mas de constatação seguida de indignação, que precisa explodir em refrão de três acordes. Aliás, num lugar em que tudo se reforma, mas nada muda, a única sensação possível é o “Tédio (com um T bem grande pra você)”.
A seguir, em “Depois do começo”, uma seqüência de ações surreais culmina na mesma ausência de temporalidade (“E depois do começo / o que vier vai começar a ser o fim”), bem ao gosto de quem vive num país que é moderno e arcaico, em que o começo é o fim, a campa é o berço, o defunto é o autor. Em “Faroeste Caboclo”, ouvimos, estarrecidos, a história de um cristo cheio de ódio no coração. Esse herói abandona a fazenda – supostamente arcaica, associada ao passado do Brasil – para pedir ao presidente que ajude as pessoas que sofrem; ele não o faz porque, na cidade – espaço símbolo da pretensa modernidade –, repetem-se, de maneiras diversas, os preconceitos de classe e de cor que sofrera no meio rural. Não me parece, na canção, que o Brasil da fazenda seja muito diferente do Brasil da cidade, salvo pela roupagem exterior – a arquitetura de Brasília, as coisas da televisão e a festa de rock.
Em “Angra do Reis”, prevalece a sensação de que “os dias são iguais”, de que “nunca fui o mesmo”, num final apocalíptico, com estrelas caindo, luz queimando ao redor, “o fim chegando cedo”, anulando tudo, porque, por trás daquela troca interminável, talvez só reste o vazio. Só “Mais do mesmo” – cujo título sintetiza a sensação de que, no Brasil, nada muda – pode encerrar a fatura: nessa canção, sob a perspectiva do menino do morro, descobrimos que, no fim do túnel, não há luz, mas tiroteio, e que o filme do retrato do país está queimado. Mais: “na enfermaria / Todos os doentes estão cantando sucessos populares / (e todos os índios foram mortos)”, como a sugerir que as canções populares podem aliviar aquela sensação de vazio exatamente porque, nelas, fala-se da ginga que temos de ter para acomodar as contradições nacionais. (Não parece ser à toa que, em nosso vocabulário, a palavra “ginga” esteja associada a gêneros musicais tipicamente nacionais e, ao mesmo tempo, à capacidade de lidar com as adversidades). Como já dizia uma canção do mesmo Renato Russo, no disco anterior, a respeito de extermínio de índios, “Nos deram espelhos e vimos um mundo doente”: acho que é porque estamos doentes de Brasil. E a canção popular brasileira é uma espécie de vacina (remédio que é veneno), por meio da qual tentamos sublimar aquelas contradições todas. Nossa enfermaria? O carnaval, espécie de celebração da inversão, em que se derrama toda angústia contida ao longo do ano.
Nossos cancionistas não são profetas porque prevêem o futuro, mas porque o futuro, infelizmente, no Brasil, é o passado, que é agora. Curiosamente, uma canção do mesmo período – marcado pelo sonho de que o Brasil poderia, de fato, ser diferente – aponta para um futuro radicalmente diverso desse a que já parecemos estar fadados: Vai passar, de Chico Buarque, assunto da próxima coluna.

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