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As Influências, as bandas e a máquina do tempo

Já é um lugar-comum, quando se entrevista uma banda, perguntar-lhe “quais são suas influências?”. Existe por trás dessa pergunta a hipótese – muito adequada, na minha maneira de enxergar – de que todo e qualquer artista, para criar sua obra, não o fez do nada, não a extraiu da sua pura e mera “genialidade” ou inspiração. Acreditamos que há, para dizer o mínimo, uma espécie de tradição que passa de ancestrais para atuais compositores e que esse diálogo pode ocorrer para confirmar ou rejeitar os antepassados, seus temas e preocupações. Daí alguns juízos de valor, do tipo “eles não fizeram nada de novo, só retomaram o que outros já tinham feito”, ou “eles recuperaram as preocupações e os temas do passado e os renovaram”.

Oquei, concordo: essa é uma maneira de avaliar as canções de uma banda. Só fico preocupado com outras duas hipóteses. Primeira: a de que fiquemos presos ao passado, sempre dizendo que quem criou tudo foram, sei lá, por exemplo, os Beatles, banda a que se costuma atribuir a origem de toda música pop. Não exageremos: embora seja verdade que os Beatles eram uma verdadeira máquina de criação e exploração da parafernália tecnológica disponível na época, há contribuições significativas de outras bandas – e de outros gêneros musicais – para a música pop. Parece-me verdade que está neles, por exemplo, a gênese do rock pesado, mas o heavy metal pertence mesmo ao Black Sabath, ao Led Zeppelin e ao Deep Purple.

A segunda hipótese que me apavora é a de que pensemos na história da música pop como uma evolução, do mais simples ao mais complexo, do primário ao elaborado, ou do pior ao melhor. Nada disso: o punk rock nasceu em meio à complexidade e ao virtuosismo do rock progressivo, e tenho pra mim que isso não foi uma regressão, no pior sentido que pode ter essa palavra. Tratava-se, acredito, de uma necessidade de ordem material – como é que se faz rock progressivo quando não se tem grana pra comprar a aparelhagem? – e, sobretudo, musical – nem todos queremos sempre, ainda que respeitemos, solos de guitarra durante quinze minutos.

Em resumo: nem tudo que está no passado é melhor do que o que está no presente; nem todas as canções do presente são obrigatoriamente boas ou ruins porque dialogam ou não com o passado. Tudo é questão de avaliar cada canção segundo seus próprios elementos, de letra e música. Isso se considerarmos que é necessário avaliar uma canção. Às vezes, não queremos avaliá-la. Queremos ouvi-la porque ela nos dá prazer, porque nos transporta para mundos nossos, que não contamos para ninguém. 

Gosto de pensar, então, que a canção é uma espécie de máquina do tempo, porque pode nos transferir para outras épocas, lugares e estados, afinal um estudioso da canção brasileira, Luiz Tatit, já avisava em seu livro O cancionista: composição de canções no Brasil, publicado pela Edusp, que “Cada vez que se repete uma canção, recorda-se um fragmento de tempo (basta lembrarmos quantas circunstâncias em nossa vida estão ligadas a uma canção ou, em sentido inverso, quantas canções estão impregnadas de circunstâncias)”. 

Um exemplo, para me explicar. No último sábado ouvi um disco dos Mutantes que meu pai me deixou e que sempre me causou forte impressão: Mutantes e seus Cometas no País dos Baurets. Lembro-me da primeira vez que encontrei aquele LP, perdido no meio de muitos do Chico Buarque e do Roberto Carlos. A capa destoava da coleção MPB/Jovem Guarda, e não preciso descrever a estranheza que me causou o título interminável da primeira faixa, Posso perder minha mulher, minha mãe, desde que eu tenha o rock and roll.

Ouvi-la mudou minha vida: desde então, preferi Mutantes a Chico ou Roberto Carlos – embora, até hoje, goste muito destes últimos. (Um dia vou escrever uma coluna em defesa de algumas canções do Roberto Carlos, por mais que isso possa causar a antipatia de alguns leitores. Que vou fazer? O “Rei” tem coisas belíssimas...).

Pois bem, está pintado o quadro das circunstâncias de minha vida que o LP dos Mutantes carrega. Na segunda faixa, encontramos as circunstâncias da época gravadas no vinil: em Vida de Cachorro, pode-se ouvir, talvez, a primeira canção brasileira em defesa dos animas, na esteira dos movimentos que estão, hoje, tão ativos.

Dá pra voar na interpretação dos três primeiros versos: “Vamos embora, companheiro, vamos / Eles estão por fora / do que eu sinto por você”. O “companheiro” pode ser, de cara, considerado uma alusão ao modo de tratamento entre participantes dos movimentos de esquerda, todos quase já dizimados, desaparecidos ou exilados no ano de lançamento do disco, 1972. A gíria “estão por fora”, hoje de cabelos brancos, é fotografia fiel da linguagem jovem da época. Depois de pedir ao companheiro a “pata peluda” e muitas lambidas, além de propor-lhe um passeio e um diálogo, o eu que canta propõe: “Vamos ficar sem coleiras”. Não sei o que o leitor acha, mas a impressão que tenho é a de que Vida de Cachorro, além de demarcar os primeiros efeitos das lutas pelos direitos dos animais na canção brasileira, é uma manifestação das bandeiras de liberdade da década de 70, para além das ideologias.

Por mais que pareça vaga ou inconsistente, eis uma das metas deste blog: identificar, nas mais diversas canções brasileiras, atuais ou passadas, consagradas ou alternativas, elementos que fazem delas máquinas do tempo.

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