O último trabalho de Ney Matogrosso, Inclassificáveis, tem sido considerado um retorno desse intérprete ao gênero pop rock. Não ouvi antes pela internet, não esperei tocar nas rádios, não deixei para copiar o cd de algum amigo que o comprasse: adquiri-o de primeira, sem saber se ia gostar ou não, por muitos motivos.
Primeiro: Ney Matogrosso, como todo bom intérprete, sabe escolher muito bem o repertório, vide CDs anteriores, como Ney Matogrosso interpreta Cartola e Um brasileiro, este com canções de Chico Buarque que me agradaram demais. Imaginei que, associada à seleção acertada das canções, a voz aguda faria um espetáculo de rock arrasador. Dito e feito: bastariam “O tempo não pára”, de Cazuza, e “Por que a gente é assim”, dele e de Frejat, com arranjos pesados, para me fazer feliz, eu roqueiro adicto; some-se aí a canção do título, de Arnaldo Antunes, em que é debatida a identidade nacional para que o cd se tornasse minha rotina diária por várias semanas.
Mas tem mais. No encarte (e certamente no show, a que não vou faltar), Ney Matogrosso retoma o visual andrógino que povoa as memórias de todas as pessoas nascidas em meados da década de 70, como eu. Toda vez que aquele personagem incompreensível surgia na tela da TV, eu me surpreendia, ainda criança: voz e expressão corporal de mulher, corpo e nome de homem, vestido e maquiado de forma exuberante, Ney Matogrosso certamente contribuiu muito para que nossa sociedade deixasse de ser tão conservadora quanto ainda é.
Não era só isso, entretanto. Havia ainda minha esperança de que o novo trabalho lembrasse, em alguma medida, o dos Secos e Molhados, banda efêmera na existência, mas imortal na tradição que deixou, pela qual qualquer fã de música brasileira tem de passar, sobretudo os roqueiros: as performances, as maquiagens que o Kiss roubou, o lirismo (O patrão nosso de cada dia e Amor), a diversão (O vira), o psicodelismo (Flores Astrais, que o RPM regravou), as letras político-literárias (Rosa de Hiroshima) e o sangue latino fizeram história no rock nacional – e continuam fazendo.
Acontece que minhas expectativas estavam descalibradas em relação à qualidade do trabalho que encontrei. É verdade: o repertório era maravilhoso, o visual retornava à ambivalência sexual da década de oitenta, havia aqui e ali elementos que lembravam a época dos Secos e Molhados. Havia, inclusive, em algumas canções, uma reflexão sobre o tempo que muito me impressionou. O leitor há de se lembrar de que todas as reportagens que elogiavam o último trabalho de Ney Matogrosso sempre aludiam à idade dele: “chegando aos sessenta e seis anos, ele dispara um cd de tom roqueiro, trata-se de uma renovação que dialoga com a trajetória do artista, etc”. Mas Inclassificáveis é, de novo, mais do que isso.
Muito já se falou a respeito da capacidade que o rock tem de renovar cenários musicais – foi o que aconteceu por aqui na década de oitenta, por exemplo; também já se analisou, seguidas vezes, a permeabilidade do gênero, capaz de renovar a si próprio, combinando-se a outros, ganhando matizes regionais – é o que tem acontecido cada vez mais com o rock nacional, desde a década de noventa. Talvez ainda falte pensar a respeito de dois outros lugares-comuns: o de que o rock é música de jovens para jovens e o de que o rock ainda é um gênero à parte na história da canção brasileira.Inclassificáveis ajuda a entender porque os julgo, ambos, equivocados.
Ouça, por exemplo, “Lema”, de Carlos Rennó e Lokua Kanza. Nos versos “já fui novo, sim / de novo, não / ser novo pra mim é algo velho” parece subvertida a idéia de que o rock é apenas música jovem; a sobriedade e o equilíbrio dos versos “envelhecer / certamente com a mente sã / me renovando / dia a dia a cada manhã / tendo prazer / me mantendo com o corpo são / eis o meu lema / meu emblema / eis o meu refrão” desconstroem a idéia do estilo Jim Morrison de vida. O que Ney Matogrosso parece estar propondo é que o pop rock é, sim, um gênero renovador de canção, mas que, para praticá-lo, não é preciso chutar todos os baldes, nem fazer só puro barulho, num power trio à do it yourself, tudo às pressas; pode-se fazer rock and roll – e pesado, em alguns ótimos momentos do CD – com a sabedoria que décadas de carreira trazem.
Não que não haja a tríade “sexo, drogas e rock and roll”: ela está lá dignamente representada por “Por que a gente é assim?”. Mas o tom do trabalho é outro, valorizando a associação de guitarras pesadas a elementos de percussão, violões, pandeiros, uma infinidade de arranjos e instrumentos que renovam o peso roqueiro, conferindo-lhe qualidade e equilíbrio – aliás esta última, para mim, é a palavra síntese do CD.
Daí a rejeição ao segundo clichê: Ney Matogrosso, com esse trabalho, não é o primeiro a assimilar o rock à música brasileira, mas é um dos artistas que acertaram na mosca ao fazê-lo. Luiz Tatit já identificou na canção brasileira momentos de excessiva assimilação (é a Tropicália que instala definitivamente esse gesto na história de nossa canção) e de aguda decantação sonora (o outro extremo do pêndulo, em que figura a Bossa-Nova). O espaço aqui não me permite investigar os detalhes do assunto, e o leitor pode consultá-lo diretamente no livro O Século da Canção, do Tatit; o que me interessa é que, assimilando o rock como canção brasileira, Ney Matogrosso talvez tenha feito história comInclassificáveis. Explico-me: “Fraterno”, de Pedro Luís, por exemplo, é canção que começa intimista, piano e voz. Na primeira estrofe, o “eu” que canta está mergulhado em si; na segunda, encantado pelo sol, pelo mar e pelo céu, propõe-se a escrever uma carta, em que descreverá “o que o jornal falou”. O acompanhamento musical por meio do qual se descreve o caos da cidade (“fogos-de-artifício, vício, suicídio” ou “tinha tédio, assédio, contágio / febre, suborno, litígio / pontes, asfalto, pedágio / e o sobressalto acorda os vizinhos”) culmina com o envio do beijo fraterno do título, seguido de uma estrofe acompanhada de guitarrona, em que se dá nome à cidade em que tudo ocorre: é o Rio de Janeiro. Digo aos roqueiros de plantão, sem medo: os riffs lembraram-me daqueles momentos antológicos do rock mundial, agora transmutado à moda brasileira; a progressão do arranjo – do piano, aos violões da segunda parte, à guitarra nos fragmentos finais – acompanhando o sentido crescente da letra ingressa na melhor tradição de começar num arranjo leve para explodir logo depois, de, por exemplo, “Stairway to heaven” e “Smoke on the Water”.
O ponto alto roqueiro talvez esteja em “Ode aos ratos”, de – sempre ele – Chico Buarque e Edu Lobo. As sirenes urbanas na abertura da canção, seguidas de cozinha de primeira, no auge do peso do disco, me levaram a imaginar um show de rock em estádio, daqueles no verão, em que a temperatura chega aos quarenta graus, e o Ney entrando no palco trajando sua versão andrógina e o público batendo cabeça. Enquanto as guitarras dão o peso, a percussão permeia a canção de levada mais brasileira. A letra, nem é preciso dizer: primorosa, como tudo quanto é composição de Chico Buarque, a cujos versos inusitados a respeito do homem urbano (“saqueador da metrópole / tenaz roedor / de toda esperança / estuporador da ilusão / ó, meu semelhante / filho de Deus, meu irmão”) só se comparam os de Arnaldo Antunes, na canção-título, a respeito dos brasileiros, povo resultante de uma mistura – ou de uma assimilação, se quisermos estender a amplitude do gesto tropicalista acima descrito – ímpar, de que estão eivados os vocábulos que nos definem: “egipciganos, tupinamboclos / yorubárbaros, carataís / caribocarijós, orientapuias / mamemulatos, tropicaburés / chibarrosados, mesticigenados / oxigenados debaixo do sol”. O mesmo gesto se estende nos versos em espanhol e no ritmo latino de “Sea”, de Jorge Abner Drexler, ou no ritmo dançante de “Coragem, Coração”, de Claudio Manjope e Carlos Rennó.
Finalmente, o equilíbrio e a definitiva assimilação do rock à música brasileira estão no arranjo de “Divino Maravilhoso”, de Caetano e Gil. De raízes tropicalistas, defendida por Gal Costa no IV Festival da Música Popular Brasileira, no esfíngico ano de 1968, essa canção retoma o conceito da “geléia geral”, originalmente tropicalista, da canção brasileira, reconstruído na canção-título de Arnaldo Antunes de forma única: ao final, o que deveria ser uma canção de rock, ao sabor do clima Sgt. Pepper’s, renova-se no novo milênio e ganha cores de carnaval, como que compondo a síntese do novo trabalho de Ney Matogrosso.
Nunca gostei de analisar a obra usando a vida do artista, por isso deixo pra lá a hipótese – que, de tão plausível, pode até ser considerada uma certeza, é o que dizem as reportagens – de que Ney Matogrosso tenha retomado o rock em sua obra em nome da experiência da maturidade plena de saúde, o que parece se confirmar com “Lema”; prefiro acreditar que um dos maiores intérpretes da canção popular brasileira, ciente de que sua história guarda raízes no rock e de que ela rendeu, no Brasil, frutos intermináveis, resolveu trazer para a faixa de público madura uma constatação inevitável – e nem sempre desejável, dependendo do conservadorismo do ouvinte: não é de hoje que o rock faz parte da canção brasileira, enriquecendo-a de nuances e metamorfoseando-se graças a ela. Exatamente como acontece com o intérprete Ney Matogrosso e seu último trabalho, Inclassificáveis, em que se sumaria o equilíbrio maduro desse artista.

Esse show é fantástico! Não perca! E o Ney é daqueles que podem envelhecer na idade, mas não na atitude. Nunca se sabe o que ele entregará: um disco de cartola, um show de rock, canções de novos letristas. Acho que de todo mundo da sua época -e de épocas anteriores- ele é um dos mais ligados ao que acontece de novo por aí, vide sua saudável insistência em divulgar novos talentos, tanto nas canções que canta quanto nas bandas que forma.
100% de acordo, Fred.
Valeu pela leitura!