Estive em Portugal no final de março e nas primeiras semanas de abril com o firme propósito de rever parentes que só me conheceram pequeno e conhecer amigos da juventude de meu pai. Tratava-se de uma viagem não só no espaço, mas também no tempo: pisaria a casa em que meu avô nasceu, cidades em que meu pai estudou, lugares que só conhecia de foto, de almoços familiares ou de textos literários. É engraçado ter saudades de um “sítio” em que nunca estive: conhecia os detalhes históricos, as fofocas da corte, a relevância da arquitetura manuelina – cheguei a comentá-la em minhas aulas –, mas nunca pude experimentar, até o mês passado, a sensação de lá estar, sentir os cheiros e sabores, a temperatura e a diferença de sotaque. Os leitores que assistiram ao Terra Estrangeira hão de se lembrar do personagem português que diz a um brasileiro que acabou de chegar a Portugal que aquele país é o lugar ideal para perder os outros ou perder-se de si mesmo. Discordo: lá fiz muitos amigos e encontrei uma parte de mim que me faltava e eu não sabia.
Quando se pensa em canção portuguesa, pensa-se, primeiramente, no fado. Acho que não é arriscado afirmar que os fados são, na maioria das vezes, canções de dor, expressão da inexorabilidade do destino: o português parece fadado ao sofrimento, à sensação de ausência do outro – elementos fundantes de uma nação que empreendeu as navegações, aventura em que embarcava a parcela mais produtiva da população, deixando para trás mães e pais idosos, esposas e filhos desamparados. Nada disso é novidade: os leitores que se lembram do episódio do Velho do Restelo, nos Lusíadas, de Camões, sabem do que estou falando. As saudades, também diretamente associadas a Portugal, são sensação inexplicável, indizível fora do português: é a falta dos navegantes que partiram, mas é também a esperança do futuro melhor, da recuperação da pujança do povo português – perdida “no gosto da cobiça” das navegações – que, segundo o Padre Antônio Vieira, voltaria a compor um grande império. Os brasileiros entendemos esse sonho de futuro brilhante – um dos primeiros portugueses a aqui pisar declarou que, nesta terra, em se plantando, tudo dá –, a idéia de que seremos “o país do futuro”. Mas ficamos emudecidos diante do túmulo vazio del-rei Dom Sebastião, morto na batalha de Alcácer-Quibir. A sensação de disjunção parece ser componente fundamental dos portugueses, daí a sua melancolia, as saudades, a paixão pelo horizonte infinito do mar. Não entendemos – talvez nunca consigamos entender – o respeito ao passado que existe nas terras lusitanas.
Temo que o parágrafo anterior soe, a um português, demasiado clichê, escrito por um brasileiro que se encantou mais pela literatura do país do que pela sua realidade. E deve ser isso mesmo, porque, fuçando as prateleiras das lojas de CD, perguntando aos amigos que fiz por lá, passeando pelos alfarrabistas, descobri o conjunto Humanos, que dá versões atuais às canções de António Variações – roqueiro da década de oitenta, morto prematuramente pelo vírus da Aids, espécie de porta-voz daquela geração portuguesa, recém-saída de uma ditadura cruel. As canções de Variações gravadas pelos Humanos fogem bastante aos lugares-comuns aí de cima. Gosto, por exemplo, de “Quero é viver”: “Vou viver / Até quando eu não sei / Que me importa o que serei / Quero é viver / Amanhã / Espero sempre um amanhã / E acredito que será / Mais um prazer”.
Para nós, que imaginamos o português carrancudo, quieto, fadado ao sofrimento, a canção é um achado e um alívio. E minha hipótese é a seguinte: o fim do período ditatorial e a conseqüente modernização do país, inclusive em termos comportamentais; o cosmopolitismo de António Variações, que abandonou os campos do Minho para ir viver a vida em Londres e Amsterdã, experimentando outras sociedades e sonoridades; e, finalmente, a capacidade do rock de aclimatar-se aos mais diferentes ambientes musicais, conquistando simpatia aos mais jovens, são as variáveis da equação que resultou na subversão – no melhor sentido que essa palavra tem; talvez seja melhor dizerrenovação – daqueles aspectos tão marcantes e doídos da cultura portuguesa. Na canção, “Muda de vida” observa-se a mesma coisa: num arranjo leve, alegre, ouvimos “Muda de vida se tu não vives satisfeito / Muda de vida, estás sempre a tempo de mudar / Muda de vida, não deves viver contrafeito / Muda de vida, se há vida em ti a latejar”.
Os verbos no modo imperativo, sempre seguidos de uma justificativa que suaviza a imposição, soam como um conselho que se dá não a uma ou outra pessoa, mas a toda gente portuguesa, à nação como um todo talvez. “Ver-te sorrir eu nunca te vi / E a cantar, eu nunca te ouvi / Será de ti ou pensas que tens... que ser assim?”, eis aí o português clichê que mora nos nossos olhos preconceituosos: cara fechada, triste. Os leitores que perceberam um toque de cultura hippie-paz-e-amor não estarão equivocados: António Variações, embora tenha brilhado brevemente no início da década de oitenta, é de dezembro de 1944, portanto da geração do amor livre, como meu pai. Não há remédio melhor para aquela melancolia toda: “Olha que a vida não, não é nem deve ser / Como um castigo que tu terás de viver”.
Aqueles que estiverem temendo pela preservação da cultura portuguesa tradicional não precisam preocupar-se: a obra de António Variações inclui uma versão, sem ironia, mas “pouco canônica” de “Povo que lavas no rio”, música imortalizada por Amália Rodrigues, diva do fado português. No disco dos Humanos, “Maria Albertina” é composição bem-humorada, em que o eu que canta brinca com o nome incomum, e bem português, daquela que dá título à canção: “Maria Albertina, deixa que eu te diga / Esse teu nome eu sei que não é um espanto / Mas é cá da terra e tem, tem muito encanto”. É bem isso: brincando um pouquinho com a tradição, sem deixar de pagar-lhe tributo, porque ela é encantadora.
Há ainda uma canção à moda de Pessoa, “Já não sou quem era”, mas sem o afundar-se nos copos e nas sensações de que somos ínfimos frente à realidade: “Já não sou quem era / Já vejo sem me deslumbrar / Já vejo as limitações / Já vejo com meus olhos / Já vejo sem me enganar / Perdi as ilusões / Conheço as limitações”. Trata-se de um eu que já abandonou aquela sensação eterna de vazio, de disjunção, de carência que vimos acima – e que não fica mais à espera do que virá, porque está pronto para externar sentimentos, mostrar-se: “A hora é sincera / E eu sinto que me estou a agitar”. Adeus à implosão do eu, do português melancólico que guarda o choro para si mesmo.
“Adeus que me vou embora” fecha o disco, invertendo de novo os clichês: o eu que canta está indo embora, como os navegantes da caravela, mas, aqui, ele se despede de uma terra estrangeira, pronto a reencontrar a mãe e o pai, isto é, pronto a voltar a Portugal; na encosta da serra, a mãe e o eu serão “dois a chorar”; no pai, ele dará um abraço e um beijo longos (e pensar que a garotada tirava sarro de mim, na época do ginásio, porque eu beijava meu pai).
Vejo aí uma metáfora de retorno às origens: ainda que tenham oxigenado, em alguma medida, a cultura de Portugal, tão sufocada de totalitarismo, rigidez, tristeza, saudades e esperanças não alcançadas, António Variações e, vinte e cinco anos depois dele, os Humanos não negam as raízes que guardam na tradição popular portuguesa.
Estar em Portugal foi, para mim, uma máquina do tempo e do espaço: ao mesmo tempo em que tomei contato com todo o passado que eu tanto estudara e vira estampado nos rostos sisudos de meu pai e meu avô, ri demais com amigos alegres que fiz, com muitas canções que ouvi. Mais do que isso: já não sou quem era quando tomei o avião para a cidade do Porto; perdi as ilusões infantis que tinha sobre Portugal, mais fruto das minhas leituras do que da realidade. Encontrei, no plano concreto, um povo sensível, é verdade, mas já bem mais modernizado do que queria minha debilidade literária – limitações minhas, mania que eu tinha de idealizar a pátria de Camões, de Pessoa, de Boaventura. E agitei-me: o lugar, as pessoas e as canções que encontrei excitaram-me muito mais que uma viagem à roda do meu quarto, lendo ou ouvindo, acomodado, os livros de sempre e os fados de antigamente. Quando eu menos esperava, era hora do adeus: ainda que se tenha tornado definitivamente, agora mais por escolha do que por origem, minha segunda pátria, Portugal era ainda uma terra estrangeira, nunca hostil ou estranha, mas que me fez descobrir uma parte de mim que eu desconhecia; falta a mim, e talvez a muitos brasileiros, o que sobeja no português do século XXI: a capacidade de traçar rumos ao novo sem demolir a tradição que já foi construída, numa dinâmica à moda de máquina do tempo, de concepção futurista, mas por meio da qual se recupera – e respeita – o passado.


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