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Os Inocentes e o eterno presente da Cidade

 

Inocentes - Som e Fúria 

Inocentes - Som e Fúria

 

 

A comemoração dos 455 anos da cidade de São Paulo, fez pensar no seguinte: uma cidade como essa merece ser celebrada? Trata-se da capital de toda sorte de violências, diferenças sociais e contradições; o trânsito faz que os habitantes desperdicem horas preciosas; cada chuva torrencial arrasa negócios promissores, bens e, o pior de tudo, vidas e empregos: talvez não haja paulistano que não tenha pensado em vender tudo e aposentar-se bem longe da capital e de seus malefícios. 

Não faltam canções em que os sentimentos descritos acima são expressos. Recentemente, a banda Julia Car gravou uma versão de “A Cidade não para”, dos Inocentes – que lançaram recentemente o DVD “Som e Fúria”, gravado em 2007 no Centro Cultural, em que a canção também pode ser ouvida (leia texto a respeito da gravação desse DVD clicando aqui). Está tudo lá, desde os primeiros versos: “Em cada rua um rosto, em cada rosto a mesma angústia / Ser mais um em um milhão a ter a mesma dúvida / Será que vale a pena, será que tanto faz? / Ser uma peça a mais dessa máquina voraz?”. Parece que é isso mesmo: todos os rostos apontam a mesma dúvida, anônimos que se movimentam sem escolha pelas ruas da Cidade. Apenas uns pouquíssimos cidadãos percebem que aquela angústia iguala a todos, meras peças da mesma máquina voraz: a Cidade que não para, que não nos deixa pensar nem sofrer, cujas engrenagens não podem parar.

 

Tempos Modernos

Tempos Modernos

 

Essa ideia de que somos parte integrante de uma máquina de que não escolhemos fazer parte não é nova: terá vindo à mente dos leitores a imagem conhecidíssima dos Tempos Modernos, de Charles Chaplin. Também não é novo o questionamento expresso nas perguntas da letra. “Será que existe um lugar onde se vive em paz?” é a tentativa desesperada de formular uma alternativa de vida não-urbana, que lembra os poetas árcades, o Iluminismo, o mito dobom selvagem e o fugere urbem. A própria letra já aponta, entretanto, que essa tentativa nasceu morta: “A Cidade cresce para todos os lados, devorando e engolindo todos os espaços”. Não se pode escapar desse monstro cujos tentáculos contaminam todo lugar, ou seja: não importa onde se esteja, sempre se experimentará a interferência nociva e alienante da cidade. “Ninguém cai fora daqui, será que o caos não satisfaz?” é outra pergunta sem resposta ao eu que canta, desalentado: os habitantes da cidade estão tão cegos dela e por ela que não podem perceber que vivem mergulhados no caos.

Embora os Inocentes sejam uma banda paulistana, chama a atenção o fato de a canção não se chamar “São Paulo”, mas “A Cidade não para”. É uma das grandes sacadas: a banda de Clemente sabe bem que o ente que “cresce para todos os lados, devorando e engolindo todos os espaços” não é apenas São Paulo, mas a vida urbana moderna, o que expande a canção para além dos limites do bairrismo às avessas. A cidade da canção pode estar em qualquer lugar do mundo, porque é alienada e alienante: sua função é apenas expandir-se, exatamente como faz todo organismo voraz, engolindo tudo que está a sua volta.

A outra sacada é a de que esse ente é tão poderoso que não se restringe ao domínio do espaço, mas também do tempo: na Cidade, “Não há tempo a perder / Não há tempo pra pensar / Não há tempo pra sofrer”. Para piorar: nos últimos versos, ouve-se que “A Cidade não tem tempo pra sonhar, a Cidade não tem tempo pra entender / A Cidade não tem tempo para pensar, a Cidade não tem tempo para viver”. Numa só frase: a personificação da cidade corresponde à despersonificaçãode seus habitantes. O leitor notou que, nos últimos dois versos citados acima, o termo a Cidade contém, inclusive, aqueles que nela moram. O fato de o cidadão estar diluído no todo expresso pelo termo Cidade – sempre com letra maiúscula, porque representa o ser que devora espaços e pessoas – é a ausência total da possibilidade de escolha e de questionamento. Para o morador da Cidade, não há perspectiva temporal: vivemos um eterno presente, porque o ontem – em que experimentamos a angústia de ser peças da engrenagem cujo todo nos engole e nos massifica – é idêntico ao hoje e ao amanhã.

Nessa Cidade dos Inocentes, regravada pelo Julia Car, o passado não pode ser o período para o qual olhamos curiosos, sedentos de vontade de aprender, porque tudo que lá ficou se repete no presente; na Cidade não cabe, também, a formulação um futuro radicalmente diferente, porque ele não guarda nada além da repetição do presente.

Trata-se, certamente, de uma perspectiva bastante sombria – mas ela não se repete, felizmente, em todas as canções dos Inocentes e do Julia Car: há alternativas para subverter o presente eterno da Cidade que não para. É o que analisaremos em outras colunas.

Posted in Máquina do Tempo.

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One Response

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  1. Renato Nunes says

    Bem bacana o blog. Ainda vou dar uma olhada nas postagens anteriores, parece ter muita coisa interessante. De qualquer forma esse blog já está no blogroll do meu.

    Abs



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