Já faz mais de vinte anos que o LP Nós vamos invadir sua praia, do Ultraje a Rigor foi lançado – e a atualidade das letras continua impressionando e fazendo sucesso. Para falar a verdade, começo este texto com um clichê: fui a um show dos caras recentemente, no Centro Cultural São Paulo, e me impressionei com a quantidade de adolescentes que pulavam ao som de canções que provavelmente eram mais velhas do que eles. Apesar de batida, essa constatação nem sempre é seguida de análise: afinal, o que é que faz que algumas bandas e canções transcendam os momentos em que foram compostas e se perpetuem no tempo?
Não arrisco generalizações, mas, no caso do Ultraje, uma resposta parece-me bastante plausível. Roger é dos maiores letristas do rock nacional porque combina, em seus textos, de um lado, o coloquialismo, linguagem simples que o público quer e que as guitarras pedem, e, de outro, um sarcasmo que espeta os setores mais conservadores de nossa sociedade. A primeira característica deixa o texto divertido e fluente, sem intelectualismos, bom pra cantar gritando e pulando, como o rock quer e precisa ser; a segunda evita-lhe a alienação, a bobageira gratuita, o palavrão pelo palavrão, conferindo ao texto um talhe crítico, mas sem pentelhação.
Há vários exemplos dessa combinação na obra do Ultraje, mas acho que há três canções que, juntas, compõem uma unidade: “Rebelde sem Causa”, “Independente Futebol Clube” e “Ciúme”. Na primeira delas, o eu que canta é um menininho rico, mimado, a quem nada falta, e que lamenta exatamente o fato de ter de tudo – é um dos espécimes mais recorrentes na nossa cultura, o filho das classes dominantes que por não ter “com quem se revoltar” acaba ateando fogo em índios ou estuprando empregadas domésticas no ponto de ônibus; há ainda um coro que lhe responde que “não dá pra ser legal, só pode ficar mal”. Gosto de entender esse corinho como a “turma”, a “galera”, que incentiva a revolta do playboy contra... o quê? Contra nada, essa é a crise que ele sofre. O refrão “ma ma ma ma” e “pa pa pa pa” – por mais viajante que possa parecer ao leitor – me lembra a repetição de armas de fogo, daí a hipótese de que aquele garotinho incompreendido de família pode ser bastante perigoso. O grande barato da canção é perceber que ela não envelheceu; lembremos que a letra poderia estar muito mais datada, com referências diretas a acontecimentos da década de 80. Mas a escolha da primeira pessoa, só acompanhada do coro, dá a ela uma permanência que só as grandes obras questionadoras têm. Muito garotinho mimado deve ter cantado “Rebelde sem Causa” a plenos pulmões, na década de 80, sem perceber que a canção ironizava o comportamento que era relatado ali; o mesmo deve acontecer até hoje.
Acontece que aquela década era, também, um tempo de libertação pessoal por meio de novas formas de comportamento, supostamente sem as amarras do conservadorismo hipócrita da Ditadura Militar. E aí “Eu não sou seu / Eu não sou de ninguém / Você não é minha / Eu não tenho ninguém / Nós somos livres / Independente Futebol Clube”. Era um hino à moda dos hinos dos clubes de futebol, a que os fanáticos torcedores dedicam uma devoção tão exaltada que a canção só poderia ser gravada ao vivo, com os gritos que todo mundo conhece. Era o discurso oposto ao do playboy de “Rebelde sem Causa”: aquele menino mimado, “de família”, muito provavelmente, seria dos mais conservadores se conseguíssemos conversar com ele por mais de dez minutos; para ele, a liberdade sexual não seria um modo de libertação pessoal e coletiva, mas uma maneira de “comer mais mulher”; se, em algum momento, ele se decidisse a ficar com uma menina só, jamais escolheria uma daquelas moças mais libertárias; ao contrário, com a moça escolhida, ele repetiria todo o modelinho de família que teve: mulher em casa, solitária, cuidando dos filhos, enquanto ele passaria o dia no escritório, o início da noite com a amante e o fim na frente da TV.
“Independente Futebol Clube” é das obras-primas do Ultraje pela rejeição a todo esse conservadorismo, pelo tempo acelerado – como têm sido o das últimas gerações –, por ter sido gravada ao vivo – simulando a histeria dos “torcedores” do Independente Futebol Clube –e por transcender o “eu” das estrofes e alcançar o “nós” do refrão. Hinos têm a pretensão de alcançar o espírito coletivo de um povo; Independente Futebol Clube capta o espírito de uma geração (daí o uso do “nós”) que assistia à recuperação das liberdades individuais. Trata-se daquelas preciosidades que sintetizam um tempo, um lugar e uma geração, mas que também os transcendem – é canção jovem por excelência, marcada pela aceleração do tempo, pelo elogio à liberdade e à independência.
Mas surgem, então, os “Ciúmes”, canção que contém uma charada à moda de Machado de Assis. A canção começa com um grito desesperado de aflição, daqueles que só damos quando estamos dilacerados de ciúmes; o eu que canta nos conta que quer “levar uma vida moderninha” e deixar sua “menininha” sair sozinha, ser mais seguro e não ser tão impulsivo. Abre-se, sugerida pelos diminutivos (que podem ser irônicos ou não, como veremos adiante), uma dupla possibilidade de interpretação: numa primeira, o eu de “Ciúmes” é o mesmo de “Rebelde sem Causa”, que o sarcasmo do letrista não perdoa; apaixonado por uma moça moderna, que lhe diz que “é muito bom ter liberdade”, esse eu se vê perdido e cai na confusão completa do final da canção, em que as frases se perdem na aceleração do ritmo, sugerindo, mais uma vez, a violência – quem é que me garante que aquele ciumento não vai partir para a agressão? Por outro lado, também dá pra entender “Ciúmes” como canção que expressa um dos dilemas da vida masculina moderna: o ingresso das mulheres no mercado de trabalho, seu acesso às liberdades individuais; educados numa cultura extremamente machista e patriarcal, saberão os homens brasileiros – de todas as classes sociais – lidar com mulheres que não são mais submissas? Tenho pra mim que não, e é exatamente essa a crise que se pode experimentar nos gritos iniciais e no final caótico da canção. Os diminutivos seriam, agora, expressão de um discurso envelhecido, mas que ainda se faz presente, não porque o eu que canta seja um conservador, mas porque ele ainda reproduz, mesmo que não queira, uma cultura que não foi superada.
Sabemos que um dos grandes problemas do Brasil é a tentativa de modernizar-se – porque nossa sociedade é, ainda, em muitos aspectos, arcaica; as novas gerações, quando alcançam poder, em qualquer instância, só conseguem fazê-lo de mãos dadas e atadas aos setores mais conservadores. Em “Rebelde sem Causa”, vimos o garotinho da “boa família” endinheirada, que transformava tentativas de revolução de comportamento em lógica de consumo – mami e papi compram até uma guitarra para o pequeno inquieto; em “Independente Futebol Clube”, vimos a corporificação musical daquelas tentativas libertárias; em “Ciúmes”, as contradições inerentes ao Brasil e aos brasileiros são exploradas de forma tão contundente que não sabemos se o eu que ali canta é irônico ou não: é característica das grandes obras a múltipla possibilidade de interpretação; é a mesma charada que se coloca em outros sucessos da banda, como “Inútil”, “Terceiro” e a histórica “Nós vamos invadir sua praia”, que merece uma coluna só pra ela.
Não nos esqueçamos, finalmente, de que a noção de tempo, no Brasil, é sempre distorcida pela contradição arcaísmo-modernidade: somos o país de um futuro que nunca chega, porque vivemos num passado e num conservadorismo que se faz sempre presente. Talvez a perpetuação das canções do Ultraje a Rigor possa ser explicada da seguinte maneira: Roger é daqueles artistas cuja sensibilidade percebeu nossa contradição mais gritante e deu-lhe forma por meio de canções que não envelhecerão enquanto a contradição não desaparecer.

Muito obrigado! Fico muito contente quando alguém me entende!:-)
Abraço!
Não é sempre que tenho a honra de receber uma resposta (positiva) do próprio autor da canção. E, numa hora dessas, só tenho uma coisa a dizer: Roger, muito obrigado pela leitura!
Abraço!
Ultraje é do caralho! Deixo aí o jaba da minha banda que tem grande influencia dos caras http://www.besourosverdes.com.br
"Se não fosse por mulher eu nem era roqueiro" "morar nesse país é como ter a mãe na zona"- ultraje... me amarro!!
Grande abraço!!!
Gabriel!
Jabá autorizadíssimo. Vamos ouvir com atenção.
Abraço!
Que beleza isso heim!? O Carlos Rogério fazendo uma puta análise interpretativa histórica-social de parte da obra do Ultraje, e o próprio Roger nos brinda endossando a interpretação.
Eu também tenho muita influência do Ultraje. Comecei a ouvir e pesquisar mais rock brasiliero a partir do ultraje.
"...Mas quando eu ganhar dinheiro (quando eu ganhar dinheiro), eu prometo a mim mesmo que eu só vou andar de tááááxi!..."
Abraços!
Giu:
É um orgulho pra mim contar com a leitura e o comentário do Roger - e também a sua e o seu!
Abraço forte!