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Chico Buarque e a alternativa de futuro

Prometi, na coluna anterior, que ia comentar “Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e não me dei conta da dor de cabeça que arrumei. O problema é o seguinte: o Chico é uma unanimidade. As mulheres o acham sensual, consideram-no um especialista em alma feminina; os homens o admiram pela obra de protesto, por ser filho do Sérgio Buarque de Holanda, autor das célebres Raízes do Brasil, e por ser a encarnação do homem brasileiro que gosta de samba, futebol, feijoada, cachaça e mulher (não necessariamente nessa ordem, pelo amor de deus); a crítica o julga um dos maiores compositores do país; sua obra literária vai do teatro ao romance, sempre com sucesso. Enfim: o homem é uma autoridade quase incontestável.

Partilho de boa parte dos julgamentos acima, mas tenho certeza de que muitos leitores vão me repreender por não incluir, neste texto, os superlativos que se costuma atribuir a Chico Buarque. A intenção, aqui, é clara (e passa longe do descabelamento exagerado ao compositor): observar que “Vai Passar” é obra carregada do momento em que foi escrita – o período de redemocratização do Brasil, em meados da década de oitenta –, mas, principalmente,  apontar que a força dessa canção transcende esse período histórico, por haver nela um projeto de futuro, por meio do qual o país superaria os atrasos do passado.

“Vai Passar” é um samba-enredo. Num raciocínio bastante simples: anualmente, cada escola de samba elege, digamos, umtema a desenvolver – uma passagem histórica, uma personalidade (o próprio Chico já foi homenageado pela Mangueira), uma região do Brasil, por exemplo. Escolhido o tema, é preciso dar-lhe concretude por um processo a que se pode chamaralegoria: todas as fantasias, todas as alas, todos os carros devem ser, de alguma maneira, materializações daquele tema, que também é desenvolvido no samba-enredo. Pois bem, a hipótese é a seguinte: em “Vai Passar”, o desfile dos “barões famintos”, dos “napoleões retintos” e dos “pigmeus dos boulevards” nada mais é do que a alegoria do que se desejava superar na história do Brasil. Atenção: não se trata, apenas, de acabar com a Ditadura Militar – o que restringiria demais a canção –, mas de vencer quaisquer períodos de nossa história em que a desigualdade social se acentuou e em que houve cerceamento da liberdade.

O carnaval tem sido visto, basicamente, de duas maneiras por nossos intelectuais: como uma festa popular, de origens imemoriais, que representa, de fato, a cultura nacional; ou como um meio de alienação, em que a população, esgarçada pela exploração das classes dominantes, vai às ruas esbaldar-se em samba, suor e cerveja, para esquecer o sofrimento do ano inteiro. Para o antropólogo Roberto da Matta, no livro Carnavais, malandros e heróis, “o carnaval é um momento decommunitas, mas que serve – nas condições da organização social da sociedade brasileira, dividida em classes e segmentos – para manter a hierarquia e a posição das classes”; parece-me que, em “Vai Passar”, a proposta é exatamente fazer prevalecer o “samba popular”, original, primordial, anulando o efeito alienante que ele assumiu e fazendo dele meio de superação das desigualdades.

Um professor, colega do cursinho, lembrou-me, recentemente, de que o verso inicial “vai passar” aludia à Emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, em 1984. A emenda não foi adiante, não “passou” (e, enquanto escrevo este texto, lembro-me, arrepiado, de pessoas que gritavam, nesse dia de derrota, em Brasília, a frase “A luta continua”), mas a canção marcou a época, ou vice-versa. Segundo a letra, na avenida vai passar um “samba popular”, o que leva a crer que estamos, de fato, diante de um texto em que o carnaval não é visto como instrumento de alienação. Pelo contrário, tudo remete à tradição do povo, à sua cultura: os paralelepípedos – forma antiga de calçamento – vão se arrepiar ao lembrar que, por ali, passaram “sambas imortais” e “sambaram nossos ancestrais”.

Há, contudo, um corte: embora alegre, o samba-enredo se torna quase soturno ao se lembrar de um tempo que era “página infeliz da nossa história”, de que as novas gerações já não se lembram. Nesse período, a pátria dormia, “subtraída em tenebrosas transações”; seus filhos “erravam cegos pelos continentes” (imagino, aqui, os retirantes, zanzando daqui para acolá, num país de dimensões continentais, ou os exilados políticos em países distantes) e “levavam pedras feito penitentes” (carregar pedra é trabalho associado a presídios). Mas um dia, “tinham direito a uma alegria fugaz” – isto é, passageira – “uma ofegante epidemia que se chamava carnaval”. Ora, epidemia é termo associado à doença, à miséria, à falta de saneamento básico. Em resumo, é preciso – superando esse passado nefasto e nada sadio – construir um Brasil novo, que guarde elementos populares de sua cultura.

Muitos leitores imaginarão que estou viajando, mas acho que não, porque logo depois entram “em cena”, na canção, desfilando, as alas antitéticas de uma escola de samba, num momento em que aquela página infeliz de nossa história já foi virada: são os barões famintos – o primeiro termo, que remete a proprietários de terra, barões do café, é relativizado pelo adjetivo “famintos” – os napoleões retintos – no mesmo efeito, os imperadores que são negros – e os pigmeus dos boulevards – pequenos-burgueses afrancesados que, literalmente, perderam estatura, apequenaram-se. É a plena alegoria da superação do Brasil atrasado, da desigualdade extrema, que virou festa: no futuro projetado na canção, a injustiça social é representada por aquelas alas exatamente porque ficou no passado, já virou história, “passagem desbotada na memória das novas gerações”. Ficaram no passado as feridas do país, e a passagem das alas se propaga no espaço – toda a cidade está cantando – e no tempo – “até o dia clarear”. O sanatório é o lugar em que se curam as doenças; o “estandarte do sanatório geral” é alegoria da recuperação e da superação das feridas do passado, a bandeira que representa um Brasil cuja doença “vai passar”, isto é, vai ser curada.

Concluindo: as alegorias que desfilam aos olhos do leitor/ouvinte – quase podemos ver o desfile enquanto ouvimos a canção – representam figuras históricas que já terão passado pela história do Brasil quando se alcançar o futuro desejado, isto é, desfilam agora figuras que serão históricas no futuro esboçado pelos autores. Não há classes superiores ou inferiores: barões, elites e burguesia viraram história; o que há é igualdade, por isso resta a Deus – o único que é superior, que paira acima de toda a cidade – assistir ao espetáculo: “Meu Deus, vem olhar / vem ver de perto uma / Cidade a cantar / a evolução da liberdade / até o dia clarear”. De fato, segundo o mesmo Roberto da Matta: “as escolas enquadram sua unidade na possibilidade de criar um espaço que, embora ligado por um cordão umbilical ao ‘morro’, à favela e à pobreza, permite a junção – para o carnaval – de gente rica, branca e bem nascida com os pobres e pretos. As escolas, então, promovem uma sistemática integração dessas classes no seu desfile altamente complexo”.

Na alternativa de futuro que se pode observar em “Vai Passar”, transcende-se a idéia de que a escola de samba promove a integração das classes: há, ali, o ideal de supressão e superação das diferenças sociais, restando apenas a tradição do carnaval, capaz de tornar a “página infeliz da nossa história” uma alegoria. A “evolução da liberdade” pode ser entendida como o desenvolvimento da liberdade – a aniquilação das explorações – e como a combinação entre a base sonora do samba-enredo e a dança das alas, que dançam e cantam, compassadamente, a liberdade, diretamente associada ao samba original, manifestação genuinamente popular e autenticamente brasileira, que superou, na canção, sua versão epidêmica, doente.

Posted in Máquina do Tempo.

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3 Responses

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  1. Arthur says

    Interessante a análise, mas creio que voce tenha errado na interpretação da “epidemia”.
    Esse termo está associado a doenças sim, porém mais especificamente à doencas contagiosas. Um surto epidêmico é uma situação em que não se consegue mais controlar os novos casos de uma doença.

    Assim, o trecho “uma ofegante epidemia” da música do Chico representa o início da superação dos problemas, o clamor popular que o Chico tanto idealizou. Uma mobilização popular (“que se chamava carnaval”) que seria incontrolável e conduziria ao Brasil do futuro, sem desigualdades e opressão.
    Acho que é isso, no resto assino embaixo!

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