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365: tudo igual na quarta de cinzas

Discutir se o carnaval é uma festa autenticamente popular ou se, principalmente no Brasil, ele serve de instrumento de alienação e de “pão e circo” pode levar a uma briga de grandes proporções. A coisa pode ficar feia se alguém levantar a lebre de que as classes dominantes se apropriaram do carnaval, roubando-o ao povo. Surgirão argumentos de toda ordem – desde os mais pessoais, como “você já foi a um ensaio de escola de samba e sentiu, de perto, o som da bateria?”, até os mais científicos, com levantamentos a respeito da história do carnaval no Brasil, a origem dos blocos, a comparação entre os carnavais de rua nas diferentes regiões, o “controle” da festa nos sambódromos, enfim: há até quem defenda que o carnaval pode entrar na categoria das coisas que não devem nem podem ser discutidas, como política, futebol e religião.

Em plena quarta de cinzas, lembrei-me, então, de duas canções: a primeira delas é “Vai Passar”, do Chico Buarque, que já comentei por aqui na Identidade Musical. Nesse samba-enredo carioca por excelência, de 1984, ano em que Leonel Brizola inaugurou o sambódromo do Rio de Janeiro, num período carregado de esperanças de redemocratização do Brasil, pode-se vislumbrar um carnaval futuro, em que as injustiças sociais se transformam em alegoria de um Brasil que ainda não chegou – mas que parecia estar, naquela época, prestes a surgir com a “evolução da liberdade”.

A segunda é “Sambódromo”, da banda 365, em que a visão é menos otimista; é mais paulistana, talvez se possa dizer. Lembremos que São Paulo foi e é chamada de cidade feia por muitos, porque não contém as belezas naturais do Rio de janeiro, além de ser considerada o “túmulo do samba” por Vinícius de Morais. Mais do que isso: para Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de domingo, o carnaval paulistano é mera imitação do já artificial carnaval carioca. Finho e Ari Baltasar, do 365, parecem concordar: “Na margem que passa junto ao rio inerte / Um templo sem graça faz que se diverte”. A alusão à Marginal do Tietê – rio que talvez esteja inerte porque não tem vida alguma, devido à poluição – é flagrante, da mesma forma que o artificialismo da “folia”, o que se repete em outros versos, como “Vida importada, morte nacional / Farsa anunciada, juízo final”.

Neles e em vários outros, reafirma-se a ideia de que a tal folia nada mais é do que um espetáculo no “padrão Globo de qualidade” – expressão do mesmo Jânio de Freitas – calculadamente arquitetado para estrangeiros se fascinarem com “a beleza da mulher brasileira” e com “a alegria e a criatividade de nosso povo”, lugares-comuns que podem desviar nossos olhares e os dos gringos para muitos aspectos menos festivos da realidade nacional. Durante os desfiles, todos os anos, os apresentadores da Globo não param de afirmar que a festa é transmitida para mais de cem países; para Jânio de Freitas, a festa é uma farsa, porque exclui o povo: “Se o povão fica à margem, Carnaval não é”.

O 365 concorda: “Gente apagada brilha pra turista / A massa cansada dança pra estatística / Beija a fantasia e se sente gente / Finge que é sonho, mundo diferente”. Eis aí uma das críticas mais recorrentes à “maior festa popular do planeta” – nos cinco dias do carnaval, fantasia-se um sonho de Brasil diferente, de alternativa de futuro que nunca se realiza, porque na quarta-feira de cinzas tudo volta ao normal. Daí os primeiros versos da canção – “Luzes do futuro vão iluminar / Um presente escuro onde eu fui brilhar” – notáveis por vários motivos: as “luzes do futuro” (isto é, as luzes das promessas jamais realizadas de futuro, repetidas todos os anos, em todos os carnavais) vão iluminar “um presente escuro” (este sim real, concreto, cruel, mas abrilhantado e ofuscado pelas tais “luzes do futuro”) onde o eu que canta foi brilhar em primeira pessoa – o que remete à falsa ideia de que todos os que desfilam na avenida são iguais, sejam eles ricos, pobres, celebridades, anônimos, brancos, negros ou mestiços. Mentira, é claro: nos sites e revistas de fofocas, não faltam textos sobre as exigências e excentricidades dos famosos para que desfilem como destaques, ofuscando os anônimos.

O carnaval, e os sonhos de um Brasil diferente, entretanto, sempre ganham ponto final na quarta-feira de cinzas: “Quando tudo é cinza / Vassoura na mão / Só ele tem cor / Vai varrer o chão”. O mais assustador, contudo, é que até um gari carioca, festivo e animado, tenha se tornado celebridade, depois de sambar enquanto varria a avenida: Renato Sorriso já gravou comerciais  já gravou comerciais com Gisele Bundchen e Zeca Pagodinho, além de ter participado de uma novela da Globo. E repete-se mais uma vez o sonho tão falso e tão brasileiro de que todos que estão na avenida podem tornar-se celebridades.

Posted in Máquina do Tempo.

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