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Os acasos da vida, Aguarraz e Belchior

Dos compositores da MPB, há um que tende muito para o rock, pelas letras e pelas composições: Belchior. Sempre gostei das “Paralelas”, porque, na letra, essa canção dialoga fortemente com o universo urbano, a alienação pelo trabalho e os anseios afetivos de uma geração enfurnada em escritórios e “baias” – expressão que, de tão esclarecedora, parece irônica. Segue abaixo um vídeo do Youtube, com a canção:

Os versos são maravilhosos – mas falta “explosão” musical, dirá um roqueiro. Concordo, sobretudo em trechos como “No apartamento, oitavo andar / abro a vidraça e grito / quando o carro passa / ‘Teu infinito sou eu’”. E mais ainda, no refrão, em que a intensidade da juventude é descrita de forma extremamente romântica: “No Corcovado, quem abre os braços sou eu / Copacabana essa semana / o mar sou eu / Como é perversa a juventude do meu coração / que só entende o que é cruel e o que é paixão”.

 

Esses versos talvez contenham a descrição mais precisa que já li a respeito da adolescência e da juventude de nosso tempo: o eu que canta não consegue conter a própria subjetividade e acaba por se espalhar pelos ícones religiosos e pela natureza, numa profanação típica de quem é rebelde (incluam-se aí, principalmente, os roqueiros); a intensidade interna é tanta, que o eu só apreende extremos, os limites da crueldade e da paixão. Sempre me ficou na cabeça, pois, a impressão de que essa canção (e outras do mesmo Belchior), nas mãos de uma banda de rock, seria explosiva, extremamente intensa quanto os sentimentos expressos na letra.

 

Que os leitores não me entendam mal: gosto do Belchior e de muitas canções dele. O que me falava e fala alto às impressões, entretanto, era e é o rock, gênero de que mais gosto, desde moleque.

 

O tempo passou, ouvi muito Belchior, dei muitas aulas. Eis que, recentemente, por um desses acasos da vida, me aparece no Orkut uma ex-aluna soteropolitana, Roberta Simões, que voltara à cidade natal e lá havia montado uma banda, o Aguarraz. Mais do que isso: para minha surpresa e alegria, eles haviam, sem querer, dado forma àquela minha impressão antiga, pois tinham gravado as “Paralelas”, do Belchior, explodindo de intensidade e carisma. Segue abaixo um vídeo do Youtube com a canção, ao vivo: 

 

 

 

Posted in Máquina do Tempo.

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