
Foi na edição de março da revista Bravo que eu li, na entrevista com o poeta Ferreira Gullar, algumas palavras que me fizeram pensar sobre a produção musical atual.
Na entrevista em questão, Gullar fala sobre a descoberta de ser poeta, a questão da vocação, venha ela de onde seja. Ainda sobre isso, ele garante que, confrontado com algumas linhas de candidatos a poetas e poetisas, consegue, ao ler dois ou três poemas, dizer se o pretendente tem futuro. Fecha o assunto dizendo que “converter a vocação em expressão demanda um esforço imenso. Tudo vai depender do equilíbrio entre o acaso e a necessidade. A vocação é acaso. A expressão é necessidade”.
Essa visão está muito ligada ao processo criativo em geral. Talvez a todas as atividades. O famoso “nasceu para isso”. Mas parece que a ordem está subvertida. Ou esquecida.
Eu ainda tenho muito que ouvir, aprender e garimpar antes de me deparar com uma música e dizer que essa ou aquela banda tem futuro. Dou meus palpites e só. Mas acho que ninguém pode discordar quando digo que a vocação deixou de ser fator fundamental no processo da produção musical. Acho que de todas as artes, a música é a que a tecnologia mais beneficia aqueles a quem o talento não está tão evidente. Estão aí Auto Tunes e outras centenas de plugins e softwares para ajudar até mesmo o mais desafinado dos cantores.
O cinema, que recebe milhões de dólares em investimentos e alcança níveis tecnológicos impensáveis, não conta com uma tecnologia boa o bastante para disfarçar uma péssima atuação ou um roteiro muito fraco.
Na música está acontecendo um alinhamento por baixo. Cada vez menos gente se arrisca, se prendendo a modelos e fórmulas que não deixam margens para falhas, mas cria um som tão homogêneo que parece que estamos ouvindo ao longo do dia a mesma música, cantada pelas mesmas pessoas.
De forma alguma me oponho à tecnologia, não sou nenhum radical que prega que ainda deveríamos gravar em rolos e ouvir em vinil. Mas o acesso às ferramentas de produção, que antes estava garantido somente àqueles que demonstrassem seu talento, hoje está a um clique do mouse de qualquer um que conheça um pouco de tecnologia e navegação. A ordem se inverteu e hoje o acesso às ferramentas de produção pode, eventualmente, levar à descoberta de um talento.
Voltando à questão do equilíbrio entre vocação e expressão, diante de uma sociedade que cada vez mais nos força a querermos nos diferenciar diante da grande massa para sermos notados, a necessidade de nos expressarmos aumenta vertiginosamente, veja aí a profusão de twitters, flickrs e outros meios de nos colocarmos diante das lentes do sujeito anônimo.
Diante disso a descoberta da vocação está cada vez mais ao acaso. Verdadeiros talentos estão espalhados nos subúrbios da cadeia produtiva, enquanto uma massa que varia, no máximo, entre o razoável e o medíocre, está estampada em páginas de jornal e invade nossas rádios.
Minha esperança é que surja uma geração que, como público, aja de maneira mais independente, disposta a descobrir ao invés de engolir sem mastigar. E que nós, que suamos para que isso aconteça, possamos trabalhar de maneira mais conjunta e organizada.

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