Skip to content


Pesquisa personalizada

Carfax: o gosto antigo da novidade e o ativismo necessário do público

Ainda refletindo sobre passado, presente e futuro (provocado pelo comentário do Renato, do blog Rock Brasília): durante quase todos os anos 90, fiquei na expectativa de que chegasse às grandes rádios alguma coisa de qualidade. Na maioria das vezes, frustrava-me. Tudo que tocava me parecia mais do mesmo que eu já ouvira antes. Mal acostumado dos anos 80, em que havia rádios que tocavam coisas boas.

Pior: cada vez mais, o que chegava à grade mídia na década de 90 não tinha um décimo das críticas do Camisa de Vênus ou do Lobão; não havia um verso que chegasse aos pés dos de Renato Russo ou Cazuza;  nada de experimentalismo ou, para dizer o mínimo, de ousadia sonora, como as de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo ou Fellini. Onde estava a atitude dos Inocentes, dos Garotos Podres, dos Ratos do Porão? Para mim, o rock havia acabado.

Os primeiros anos do século XXI me ensinaram mais: público (eu incluído aí, até um determinado momento) que espera ouvir nas rádios alguma coisa que preste, ou é muito ingênuo, ou é muito, muito alienado. A cena independente, se não tiver no futuro nenhum efeito estético mais forte (do que  duvido muito), já ensinou uma coisa: o público precisa ser ativo, não depender dos grandes canais de divulgação para encontrar algo que contenha crítica, reflexão, proposta ousada, sem perder o desfrute do som.

É o que faz o Carfax, propondo uma reflexão sobre o nosso tempo, em “Aqui, ali ou em qualquer lugar”:

O título já propõe um dos dilemas mais difíceis de lidar do nosso tempo: o rompimento da lógica das relações de tempo e espaço. A internet, os celulares, as redes de relacionamento fazem que estejamos, virtualmente, em muitos lugares ao mesmo tempo. Daí o dilema: onde de fato eu quero estar? A multiplicidade de possibilidades, ao invés de facilitar, dificulta a escolha – e nos fragmenta. Dilema tratado por poetas da qualidade de Fernando Pessoa, por exemplo. 

A letra é tão concisa quanto a comunicação virtual: em versos rápidos, como se fossem de um poema digitado no computador, notamos cruamente as crises descritas acima: “O que querer se vejo quinze horizontes / Mas não chego a lugar nenhum”. Aquele mundo de alternativas compromete, obviamente, as relações pessoais - ”Se te vejo de longe, mas não te quero mais / E o meu medo de ter medo da raiva” – e o eu que canta se apavora e não se envolve, ao final, com nada nem ninguém.

Nas estrofes, o verso-síntese é “Quando mais me resumo mais plural me aparece”: a ideia de identidade pessoal, de afirmar-se no mundo frente a tantas possibilidades de escolha, tende a zero – e o indivíduo se fragmenta nos mil pedaços que o fazem estar aqui, ali ou em qualquer lugar. Daí os versos “O tempo passa e tudo fica mais próximo / Do que não sei”: estamos mergulhados na multiplicidade do mundo. Mas o que é essa multiplicidade? Mais importante: o que somos nós no meio dessa pluralidade toda?

E os versos do refrão (“E o gosto antigo da novidade / Vai ficando mais amargo e velho / Nem sempre errado, nem sempre certo… / Quem dirá sou eu!”), sempre rumando ao agudo, com o “eu” final urrado, deixando em aberto exatamente a pergunta: quem é que sou esse eu, se sou tão múltiplo? Se as novidades são produzidas de forma cada vez mais rápida, o que era novidade ontem vira passado distante amanhã – e tudo que é jovem passa a ter gosto de velho (“Eu vi o futuro, baby, e ele é passado”, dirá Marcelo Nova, na citação do blogueiro Renato).  

“O tempo passa e você vai / Como a poeira no deserto / Carregando um pouco mais do mesmo”: a citação ao título de uma canção da Legião Urbana parece não ser casual – Renato Russo já sabia que a velocidade das mudanças e o estar em todos os lugares ao mesmo tempo nivela toda existência no presente, como se vivêssemos sempre a mesma coisa, sempre a mesma coisa… com a ilusão do novo, é verdade, mas cujo travo envelhecido assoma rapidamente; sem olhar para trás, infelizmente, para que não tenhamos noção de que o tempo passa, e que também nós passamos – mas estamos inseridos numa lógica que não nos deixa ver que jogamos nossas vidas fora, num eterno presente que nos escraviza e esvazia.

Subvertamos, pois, essa lógica: investiguemos o passado com cuidado – talvez haja um lado bom nos retornos às canções de vinte anos atrás; não nos deixemos levar pela ânsia das mudanças e das novidades; sejamos ativistas musicais, abandonando a passividade de ouvir grandes rádios e investiguemos a internet, as casas que valorizam trabalhos autorais, à cata dos artistas cujas propostas sejam, de fato, críticas e novas; finalmente, ao nos depararmos com eles e com elas, paguemos-lhes tributo: é o caso do Carfax, cujos versos explicam nosso tempo muito melhor do que este texto.

Posted in Máquina do Tempo.

Tagged with .


8 Responses

Stay in touch with the conversation, subscribe to the RSS feed for comments on this post.

  1. Renato says

    Muito boa essa banda, tô ouvindo o Myspace deles agora!

    Lá no blog eu tenho uma seção “Fora dos Eixos” sobre bandas nacionais, vou publicar uma postagem sobre eles em breve. Recife sempre trás boas surpresas!

    Abraço

  2. Carlos Rogério says

    Salve, Renato!

    É verdade: Carfax foi uma surpresa boa. Aguardando sua postagem, para linkarmos por aqui.

    Abraço!

  3. Renato says

    E foi mal pelo “trás”. É que escrever sem olhar pra trás traz riscos, hehehe.

    t+

  4. Carlos Rogério says

    Hahahah! Não esquenta a cabeça!

  5. Pompi - CARFAX says

    Salve, salve Carlos Rogério…

    Tô passando aquí pra lhe agradecer mais uma vez pelo texto. Nos deixou felizes pra “Cacildiss” como diria o poeta Mumú da Mangueira!!!

    Reafirmo que em breve sim… celebraremos “aqui, ali ou em qualquer lugar” (desculpe o clichê óbvio auhauha) o novo disco que tá quase saindo do forno e aí estreitaremos ainda mais as distância, meu amigo!!!

    Em breve postaremos mais novidades no My
    Space, ok?

    Paz, fé, força e rock sempre!!!

  6. Pompi - CARFAX says

    Putz… “As distâncias”

    Doeu mas foi acidente de digitação…

    mais uma vez…

    Paz, fé, força e rock sempre!!!

  7. Kamila Schnneider says

    ótimo textoo!!
    a Carfax tem muito potencial,
    pena que várias pessoas ainda só procurem olhar para bandas com letras ‘dor-de-cotovelo’ ¬¬”.
    Parabéns pelo blog!
    a cena independente agradece muito!
    e como Pompi falou virá muitas novidades sobre a Carfax, escutem e espalhem sem moderação! xD

    beijos.

  8. Carlos Rogério says

    Kamila:

    Obrigado pelos parabéns e pela leitura!

    E pode deixar conosco: espalharemos Carfax e cena independente até o limite máximo, no volume máximo!

    Grande Beijo!



Some HTML is OK

or, reply to this post via trackback.