Dizer que sou fã de Roberto Carlos já me rendeu muitas vaias – sobretudo em sala de aula, em que a imagem do artista, entre os adolescentes, está cada vez mais associada às mães ou avós, que aguardam ansiosamente pelo especial de fim de ano na Globo. Eu mesmo resisti muito tempo à profecia de meu pai, que dizia que, um dia, eu ia gostar de Roberto Carlos. Era verdade, e hoje gosto bastante.
Porém, sempre digo o seguinte, quando recebo as tais vaias: ninguém precisa gostar de futebol só porque é brasileiro; o mesmo vale para o Roberto Carlos. O que precisamos começar a entender é que o homem tem história, é uma das personalidades mais importantes da canção brasileira; escrevo “homem” para aqueles que não o querem chamar de Rei. Eu chamo, sem crise de consciência. “Por quê?” perguntará o leitor. Respondo:
Roberto Carlos não o primeiro, mas é o mais importante ícone da música jovem (esse tal de ronquenrou) do Brasil: na década de 60, enquanto os Beatles faziam sucesso lá fora, Roberto criava, com a Jovem Guarda, aqui dentro, aquilo que se chamaria rock brasileiro. Já na proposta da Jovem Guarda havia todo o marketing visual e comportamental que caracterizaria as bandas de rock ao longo da história, em maior ou menor medida: letras simples, canções de poucos acordes, roupas e cabelos exuberantes. Segundo Luiz Tatit, na obra O Cancionista, a voz de Roberto Carlos encarnava (aqui, literalmente) o rock de modo singular: era doce para as canções românticas, sem ser adocicada (roqueiro adora uma dor de corno, acrescento eu, informalmente); era rouca para expressar rebeldia. No início da carreira, era a voz “índice do menino cantor”, “algo assim como a voz de um rapaz muito novo, mas já bem sucedido”.
Mais do que ninguém levo o rock a sério, sobretudo o brasileiro; o que não dá pra levar a sério é alguém imaginar que o rock não se faz, também e talvez principalmente, de marketing visual. No Brasil, não há projeto mais bem acabado do que o da carreira de Roberto Carlos. Inclusive no que diz respeito à sensualidade - pode-se dizer que ele foi primeiro grande rock star brasileiro, com tudo que isso significa: olhadinhas insinuantes para a câmera, abuso de charme, dicção inconfundível na fala e no canto. Paguemos-lhe tributo: se um dos debates aqui na Identidade Musical é a formação do público, é inevitável passar pelo nome do Rei.
Além disso, a Jovem Guarda de Roberto foi fundamental para a história da canção e do rock brasileiro: em palavras bem simples, se não houvesse Roberto Carlos e Jovem Guarda, não haveria elementos fundamentais da Tropicália de Caetano (“Ouvir / Aquela canção do Roberto”, em “Baby”); não havendo Tropicália, a história dos Mutantes seria completamente outra – arrisco dizer que faltaria a eles elementos fundamentais que se fazem notar sobretudo nos três primeiros discos. A história do rock brasileiro também seria, portanto, diferente, caso não houvesse a obra de Roberto Carlos.
Outra coisa: deixemos de lado as diferenças ideológicas do período em que Roberto Carlos brilhou. Que o Rei é um puta compositor de letras e melodias ninguém nega; mas ainda há os que o chamam “alienado” por ter-se mantido afastado dos embates ideológicos e armados das décadas de 60 e 70, inclusive no campo minado da cultura. É pena que ainda haja a ideia de que um projeto de canções para o mercado implique, necessariamente, uma obra “alienada”. Não digo que o Rei seja um autor engajado – ele passa longe disso, é evidente. Não se pode, contudo, avaliar-lhe a obra apenas pela perspectiva ideológica.
Roberto Carlos é influência para todo mundo: queiram os leitores ou não, todo mundo – todo mundo mesmo – gravou alguma coisa do Rei (recomendo As canções que você fez pra mim, de Maria Bethania). Só por isso já se percebe a importância histórica dele na canção brasileira. Some-se a essa reverência que é unânime a capacidade interpretativa de Roberto – que também transforma canções de outros compositores em pérolas de seu próprio cancioneiro. Repito: ninguém precisa gostar – mas todo mundo tem algo a aprender com o homem. Quantos cantores tem a versatilidade do Rei?
Por fim, a vida pessoal de Roberto Carlos é pequena demais perto de sua obra. Paremos com essa mania idiota de nosso tempo de medir a qualidade da canção pela intensidade da vida privada do cantor. Que me importam as esposas, os filhos, a vida familiar do Rei? Enoja a idolatria pela vida de quaisquer celebridades. Mergulhemos, pois, na obra do Rei, que é muito mais rica.
É claro que um texto deste tamanho não contempla a totalidade de uma obra que acabou de completar cinquenta anos. Ainda quero redigir textos sobre “Sua estupidez”, “Cavalgada” e “As curvas da estrada de Santos”; recomendo a todos a leitura do capítulo a respeito da dicção de Roberto Carlos, no livro de Luiz Tatit.
Só para provocar: abaixo, diretamente do You Tube, o vídeo de “Eu sou terrível”.
Compare com “Codinome Dinamite”, da banda Garotas Suecas, que esteve fazendo sucesso em turnê pelos Estados Unidos recentemente e que merecerá uma coluna em breve.
Diga lá o leitor: o Rei merece ou não nossa reverência?

Não dá pra acreditar que o Rei não canta “Que tudo vá para o inferno” por conta do TOC dele….
É a melhor música dele e um dos maiores rocks já feitos.
Sem dúvida, o Rei é um grande compositor e acho que um dos fatores que o levaram a desenvolver tantos transtornos foi o fato dele ter sido aprisionado a um formato pré definido, industrial, a partir do fim da década de 70. Isso foi matando o compositor criativo, arrojado e antenado com seu tempo. Vale lembrar que ele fez um rap pioneiro em 1971, que é “Todos estão surdos”.
Felizmente, parece que desde o acústico, o próprio Rei se deu conta disso e resolveu se ajudar.
Abraço aí!
Salve, Renato:
Acho que Roberto Carlos acabou ficando grande demais; isso, associado ao aprisionamento que você comentou, transformou-o em… não sei bem a palavra, há muitas (mito, ícone, ídolo), mas acho que ele está acima de todas elas, ao menos para grande parte do grande público brasileiro.
Melhoro: acho que a obra do Rei é muito maior do que ele – que, em última análise, é só uma pessoa comum – grande compositor, grande letrista, artista de primeiríssima linha, mestre do rock e da canção brasileira. Mas ainda assim é uma pessoa. Por isso que eu escrevi no texto que tínhamos de deixar a vida do homem de lado, e nos debruçar sobre a obra. Melhor para nós e, sem dúvida, melhor para ele.
Abraço!
este video das Garotas é muito louco. esquisitão mas vem legal. eles fazem referencia ao rei de uma maneira legal
Caio:
São exatamente referências como essa que escrevem a história do rock nacional.
Obrigado pela leitura!
Abraço!
O Roberto Carlos, foi a melhor coisa que surgiu no Brasil e a partir do final dos anoss 50 passou a mandar a sua mensagem de amor a todos que sintonizassem com sua musica, ninquem fica tanto tempo em evidencia, se realmente não for muito bom. A vida teria sido muito chata se não fosse o carisma e a musica maravilhosa do Roberto Carlos.