Mais um desses muitos acasos da vida que têm me acontecido nos últimos dois anos: Paulinha Balduíno, jornalista e vocalista da banda Assoma, que era minha vizinha de coluna lá no Showlivre, agora escreve na Disco 1, parceira da Identidade Musical. Pois bem: proponho aos leitores que deem uma olhada no post “Como compor um som?”, que ela escreveu no dia 23 de abril. Trata-se de uma beleza de reflexão a respeito da composição – competência que tem muito muito a ver, creio eu, com a sensibilidade – mas não descartemos a intervenção da razão. Está lá, ao comentar a composição de “Tempo Mudo”, canção nova da Assoma:
Com “Tempo Mudo” não foi diferente. Mas nesse caso em específico, o compositor foi Xande, nosso guitarrista e não eu, apesar da letra ter a minha cara. Me identifico muito com ela e pela fase que foi composta, caiu como uma luva. Entrei um dia no fotolog dele e lá estavam os esboços de “Tempo Mudo”. Comentei a ele depois que daria uma bela letra, ele deixou que eu acertasse a métrica e em um determinado ensaio, quando os meninos começaram a compartilhar riffs eu comecei a cantar. Pronto, nasceu!
O trecho que destaquei pode ser entendido como evidência de que há um sujeito cerebral que atua no processo de composição; poema ou letra que é apenas um desafogo de aflições tende a ir para o lixo. Para haver qualidade no texto – e já explico adiante o que é isso – é preciso haver algum exercício, ainda que mínimo, de ordem intelectual: essa é a diferença entre poetas ou letristas inexperientes e experientes.
Mais adiante, Paulinha afirma o seguinte:
Na real acho que Denis queria uma receita de bolo para esse texto, algo que desse passos de como fazer uma boa letra, um bom som. Meu caro amigo, sinceramente eu não sei. As coisas fluem, elas vibram, a voz reverbera no diafragma e explode pelos poros. As letras postas no papel são reflexos do nosso cotidiano. Se eu tivesse algo para dizer que pudesse guiar ou ajudar o trabalho de aspirantes a músicos eu diria uma coisa: sinceridade acima de tudo. Escrevam com o coração, cantem e toquem como se fosse a última coisa que poderiam dizer em vida.
Eis aí o outro lado da moeda, fundamental se falamos de arte em nosso tempo: “escrever com o coração” significa utilizar-se das próprias impressões da realidade (por isso é que “As letras postas no papel são reflexos do nosso cotidiano”) e deixar fluírem os sentidos; principalmente para quem canta ou toca algum instrumento, o corpo é meio de expressão, por isso é que Paulinha afirma que “as coisas fluem, elas vibram, a voz reverbera no diafragma e explode pelos poros”.
Conclusão: no ato de compor uma canção (mas arrisco dizer que o mesmo talvez valha para todas as formas de expressão artística), combinam-se razão e sentidos, cérebro e coração, reflexões e impressões.
Gosto dessa ideia porque, por meio dela, descontrói-se a imagem romântica do artista quase mendigo, bêbado, caído nas ruas, escrevendo solitário “por lapsos de cansaço”, compulsivamente, sem critério. É fato (por mais que nos doa saber): grandes textos exigem trabalho intelectual, dedicação; para ser algo próximo de um grande artista, é preciso trabalhar muito a própria obra. Gosto sempre de lembrar em aula que Machado de Assis escreveu romances medianos antes de escrever os grandes. Por que seria diferente com qualquer um de nós? Somos melhores que Machado? “Caindo é que se aprende” lembra minha amiga na letra de “Tempo Mudo”.
Mas o texto de Paulinha também me lembrou de que sempre quis escrever a respeito da importância dos críticos. Note-se que a vocalista da Assoma afirma sabiamente que não sabe formular “uma receita de bolo” para a composição artística e que desconhece um método passo-a-passo para “fazer uma boa letra, um bom som”. É claro: isso não existe. Se há algum mistério que estamos distantes de desvendar é o do processo de composição de uma obra de arte. Cada artista tem o seu, não há fórmulas, e o que interessa é o resultado. Só a obra é o que deve interessar a quem a analisa. O crítico que recomenda ao artista que faça isto ou aquilo deveria abandonar a crítica e começar a fazer arte.
Chama a atenção, de outro ângulo, a ideia de que também é impossível descrever completamente o processo de desfrute estético de uma canção. Também não é essa a função de um crítico. Digo aqui: a função dele é analisar a composição por meio dos elementos que ela própria apresenta. O conceito que a maioria dos artistas e do público tem da crítica é equivocado: imaginamos o crítico como um homem mal-humorado, pronto para falar mal de todas as obras que não correspondam aos moldes que ele elegeu como corretos ou adequados para avaliar as obras de arte. É claro que ainda existem críticos assim. Mas já começa a surgir uma geração nova, que analisa canções – que são propriamente o que nos interessa aqui – por seus elementos internos, sem fazer receitas, mas verificando a coerência entre o que o artista propõe e o que ele apresenta de fato.
Exemplo concreto: no post do dia 20, comemorei aqui no blog a carreira de Roberto Carlos e afirmei que não adiantava julgar a obra do Rei pelo engajamento político que nela, de fato, não existe. A proposta inicial da carreira de Roberto nunca foi o engajamento político, mas a canção de entretenimento para jovens. Essa é a régua que devemos usar para a avaliação da primeira fase da obra do Rei. Depois, houve mudança de rota, que exige obviamente mudança de régua: Roberto Carlos parte para o universo lírico com forte influência de baladas italianas. E por aí vai.
Ainda a título de exemplo, é evidente que os mesmos critérios não podem valer para analisar a obra da banda Assoma, da própria Paulinha. Ouça “Redoma”:
Em termos simples: o eu que canta “Redoma” não está em paz com a vida e o que ela lhe traz. Cito aqui os versos de uma canção de Roberto Carlos em que todo arranjo musical de big band e toda entoação vocal do Rei são construídos para que o ouvinte se delicie com a sensação de completude por meio da fé que nos faz, ao ouvirmos “Emoções”, otimistas demais.
Trata-se do oposto do que ocorre em “Redoma”: o arranjo é pesado, cru; o alongamento da vogal na introdução já revela um eu lamentoso, que está longe da completude; o conteúdo questionador da letra pode ser sintetizado nos versos “Eu tento quebrar essa redoma de vidro / com punhos cerrados e peito aberto”; finalmente, o refrão termina na palavra que dá título ao texto de forma brusca, como expressão das tentativas sempre malogradas de quebrar a redoma – um instante de silêncio que joga o ouvinte no mesmo vazio experimentado por quem não consegue concluir alguma coisa. A proposta de questionamento da realidade está, portanto, bem acabada em “Redoma”, porque aquele pequeno instante de silêncio é expressão sonora do sentimento predominante do eu que canta: o vazio.
Críticos não existem para criar receitas de como fazer uma boa obra ou para dizer aos artistas o que devem ou não fazer para “melhorá-la”. Servem, no máximo, para tentar trazer para o plano das explicações racionais uma das sensações mais espetaculares e inexplicáveis que se pode experimentar: o desfrute de uma obra de arte. O público pode, assim, tentar entender um pouco melhor as obras que mais lhe agradam e investigar, se quiser, suas origens e desdobramentos, formando o próprio gosto; os artistas, por sua vez, podem, se concordarem com a análise, trabalhar mais a fundo, no plano racional, elementos que estão em sua obra, mas que assomaram nela pela via sensível e por isso passavam despercebidos aos olhos e ouvidos dos próprios autores.

Quisera eu que todos que ouvissem ou comapartilhassem de uma obra tivessem essa sensibilidade na interpretação.
Qualquer coisa que eu queira acrescentar aqui me parece inútil…Estou lisonjeada com esse texto, por vc ter dado relevância aos meus escritos. Orgulhosa também, confesso.
Grande beijo!!!
(feliz,feliz…)
Paulinha:
É pra ficar feliz e orgulhosa mesmo: “Redoma” é uma beleza de canção; Assoma é uma puta banda.
Beijão!