Não é de hoje que Marcelo Nova é o Boca-do-Inferno do rock brasileiro (leia aqui outro texto a respeito do Camisa de Vênus, na Métrica do Grito). Para a multidão de fãs que estava na Praça da República no último sábado, à meia-noite – verdadeira Panela do Diabo – é lamentável o fato de o Camisa de Vênus não voltar definitivamente a produzir e cair na estrada com frequência; se pararmos para pensar, contudo, concluiremos que talvez seja melhor assim: todo o frescor das críticas que Nova e sua banda exalam por todos os poros poderia se perder, se o Camisa de Vênus mergulhasse num projeto de mero revival dos anos oitenta.
Não foi revival o que se viu no sábado. O Camisa inovou, como sempre faz ao vivo, e - ao contrário do que aconteceu nos últimos anos com muitas bandas - entrou no palco sem repetir minuciosa e maquinalmente os arranjos do passado; Marcelo Nova esbravejava, oferecia o microfone ao público, alterava os tempos de entrada, os versos e suas entoações, chegando até a desorientar parte da platéia na hora de cantar. Melhor assim: desorientar é fazer pensar. O vídeo da canção “Hoje”, disponível no Youtube, segue abaixo:
Mais do que isso: a banda provou que suas canções seguem atuais porque o líder e letrista sempre teve a sensibilidade de captar conteúdos que estavam muito além da superfície da década de oitenta. Roubando uma frase à Plebe Rude, “nunca fomos tão brasileiros”: toda a obra do Camisa de Vênus versa sobre o Brasil, envenenada de ironia, num olhar sempre dúbio, cheio de dúvidas sobre o “País do Futuro” – título de uma canção em que o cartão postal mais famoso do país, o Cristo Redentor, “desce do Corcovado” e “passa o cajado nessa corja”, afinal “Deus também ficar retado”.
É a partir desse olhar irônico e sarcástico que se pode entender a canção “Hoje”, do vídeo acima – espécie de síntese do Brasil malogrado, porque deseja ser “moderno”, inserir-se na lógica das grandes cidades, como Amsterdã ou Paris, mas que está sempre em descompasso com essa própria lógica – sempre atrasado.
Ouvi notícias de muito longe batendo na minha porta
Eu vi os garfos, eu vi as facas em cima da mesa posta.
Pra que mensagens e telegramas, se você chega e some
Tenho dinheiro e CPF, mas não me lembro o meu nome
Note, leitor: as notícias vêm de longe, são as novas – por ora, sem trocadilhos – da vida moderna que, apesar de não a escolhermos, bate-nos à porta; a mesa está posta, mas não há refeição, porque o eu que canta alimenta-se de mensagens e telegramas – atualizando a imagem, diríamos que há emails na caixa de mensagens, cujo remetente “some”, desaparece na exaustão e na estafa da facilidade de comunicação; o eu não tem nome porque é identificado pelo dinheiro que tem e pelo número do CPF: é um anônimo, enfim, convocado à revelia para a vida moderna.
É certamente por isso que, para o brasileiro mergulhado nessa lógica alienante, “não há mais festa nem carnaval”: é a vida do trabalho, com CPF atualizado e conta no banco, que se faz presente no refrão. Entra, a seguir, o olhar do Camisa de Vênus, que não só suspeita dessa suposta modernidade como também da festa e do carnaval, em “Acho que eu fui enganado”. Substituímos, com a promessa de sermos um país do futuro, uma alienação por outra, isto é, no lugar do desfrute imbecilizado do carnaval colocamos a suposta maravilha do consumo.
Finalmente, “Me diga as horas, eu vou embora / Hoje eu tô atrasado”: versos que poderiam ser cantados pelo próprio Brasil, personificado num eu que se vê, no presente, sempre atrasado.
Em palavras diferentes, eis a síntese que Marcelo Nova faz dos brasileiros e do Brasil: corremos atrás da nossa modernização – por isso talvez sejamos “O País do Futuro” – mas a sensação presente é sempre a de que vivemos no passado, atrasados para a vida pretensamente avançada dos avanços tecnológicos e do trabalho.
Ao longo da canção, esse mesmo moto-perpétuo se repete, desenvolvido em outras imagens. A mais atual delas talvez seja a de que não há motivo para frequentar escolas e faculdades, afinal não há nada para aprender. Note-se que esses versos foram escritos antes dos anos FHC e Lula, em que o ensino superior tem cada vez menos a ver com aquisição de conhecimento e cada vez mais com a “capacitação para o mercado de trabalho”; poderíamos dizer, segundo a lógica que o Camisa de Vênus desvenda em “Hoje”, que, para sermos cidadãos respeitáveis, precisamos de CPF e diploma de faculdade para ganhar dinheiro, o que nos torna, como já vimos nos versos iniciais, cada vez mais anônimos e vazios – sequestrados de nós mesmos, confusos. Somos homens ou máquinas? Somos “homens codificados”, como os vídeo-cassetes, os DVDs e os computadores. Por isso é que o eu afirma “eu já não penso, eu já não vejo, já não consigo escrever”.
Talvez não seja vão lembrar aqui que o diabo, além de pai do rock, é o rei de toda a confusão. A multidão de fãs que se acotovelava na Praça da República, no último sábado, à meia-noite, hora aziaga, sentiu-se em plena Panela do Diabo – expressão que talvez sintetize o Brasil, cujos conteúdos, que vão muito além da década de oitenta, foram expressos pelo Boca do Inferno do rock brasileiro.
Abaixo, o vídeo de “Hoje”, também encontrado no Youtube, gravado na década de oitenta. Mas fica a impressão de que foi gravado sábado, na Virada Cultural – porque Marcelo Nova identificou, no passado, aqueles conteúdos, que insistem em se fazer presentes no Brasil.

Cara, parabéns. vOcê escreveu um belo texto, bem critico e inteligente.
Ouço essa música (hoje) desde os anos 80 e continuo achando o máximo ,minha predileta. O que vc interpretou dessa música tem tudo à ver ,ela é uma obra de arte !!!
Obrigado pela leitura, Mauro!
Camisa de Vênus e marcelo Nova, aqui na Identidade Musical, são trilha sonora sempre e referência eterna.
Abraço!