A banda Madame Saatan apresentou-se no programa Altas Horas, da Rede Globo, ontem. Já analisei, na Métrica do Grito, a canção “Prometeu” dessa banda, de que sou um dos maiores entusiastas. Aliás, lembro aqui: dia 23 de maio, sábado, o Madame Saatan se apresenta nas Noites do Bem, na Livraria da Esquina, festa promovida pela Identidade Musical e parceiros, que vamos divulgar ao longo desta semana.
Abaixo, a apresentação do Madame no programa da Globo:
A aparição na Globo, ao lado da Banda Calypso, representa, na minha leitura, o reconhecimento de que os independentes estão anos-luz à frente dos tradicionais canais de veiculação da indústria cultural. Chimbinha, de certo modo, reinventou o negócio da música no Brasil. No vídeo abaixo, o guitarrista da Banda Calypso é entrevistado por AD Luna, do Showlivre, e comenta a turnê de dez anos do conjunto:
Abaixo, um trecho da entrevista de Chimbinha, dada à Revista Trip (clique aqui para ler a entrevista na íntegra):
Em Belém existem as rádios de poste, que ficam tocando música em alto-falantes na rua. Eu ouvi dizer que elas foram muito importantes para vocês no começo da carreira. Como foi essa história?
Eu me emociono quando me lembro disso. Esses dias agora andando em Belém. passei numa rua e comecei a chorar. De felicidade, de alegria, mas também daquele sofrimento que eu passei no começo. A gente morava na Cidade Velha, num quartinho de quatro por quatro, só tinha uma cama e um fogão. Quando a gente lançou o primeiro disco, eu falei: tenho que parar de gravar como músico de estúdio para divulgar esse CD. Eu saía de casa cedo, às sete da manhã. Não tinha dinheiro pra comer, passava o dia tomando água. Também não tinha dinheiro para pegar ônibus, então ia a pé para as rádios. Se você visse as distâncias, ia ter pena de mim [risos]. Mas não tinha como eles tocarem a gente. Porque, pra tocar numa rádio, ou você está muito estourado ou então você tem que fazer promoção.
Pagar jabá?
Não chegava a ser jabá, porque não tinha grana. Era armar uma promoção com o diretor da rádio, por exemplo comprar mil camisetas pra sortear. Mas eu estava sempre liso. Não sabia mais o que fazer. Um dia, quando eu ia para casa, eu escutei essas rádios de poste tocando música. Aí tive um estalo. Passei a divulgar nosso disco nessas rádios. Daí a cidade todinha começou a tocar a Banda Calypso nos postes. Em menos de três meses, estavam todas as rádios normais tocando também. Porque as pessoas que ouviam no poste ligavam e pediam nossa música. Eu distribuí de graça 50 mil CDs do nosso primeiro disco, para loja, carro de som, rádio de poste, pro público. Aí a banda estourou no primeiro disco. A gente fazia show e não ficava com o dinheiro. Sobravam R$ 2, 3, 4 mil por semana, a gente fazia CD e dava pro povo.
Mas a piataria não ajudou a divulgar a Banda Calypso no começo?
Olha, é difícil falar mal da pirataria porque eu fui ajudado por ela. Mas no nosso começo não existia essa pirataria de internet que tem hoje, de baixar música de graça. Na época a pirataria era só de CD. Isso ajudou bastante a gente. Mas hoje a gente lança o disco, amanhã tão baixando. Atrapalha as vendas. As pessoas não sabem o quanto a gente investe, mesmo sendo independente. Para vender por R$ 9,99 para o consumidor final, temos que vender para a distribuidora por um preço muito mais barato. Temos que pagar os direitos autorais dos compositores, os músicos, o estúdio, a arte. Hoje nós temos mais de 200 funcionários, temos que funcionar como uma gravadora e cuidar da divulgação. Tudo dessa parte quem administra sou eu. Então todo o dia fico falando em três telefones. Quando tá difícil tocar em todas as rádios, eu sofro muito. Aí eu vou visitar o diretor da rádio, peço uma força, volto outro dia. Até que eu consigo.
Às reflexões:
A) A recente aparição de grandes bandas independentes na Globo (Los Porongas e Vanguart; hoje, Madame Saatan e Banda Calypso) aponta que, de fato, quem tem feito músicas de apelo junto aos diferentes públicos são aqueles que estão cada vez mais distantes do universo da indústria cultural;
B) Meu único medo é que as inovações, inclusive em termos de negócios, como as formuladas pela Banda Calypso, se percam, isto é, que os grandes canais da indústria cultural acabem assimilando artistas de talento, formatando-os. Este é o grande desafio dos que alcançam a exposição em programas como o Altas Horas: preservação da proposta estética e musical;
C) Para colocar mais fogo no debate, em edição recente do Estúdio Showlivre, Hélio Flanders, do Vanguart, declarou que a gravação do DVD Multishow, que poderia ser considerada “traição do movimento independente”, não o foi: na verdade, todas as propostas criativas da banda foram respeitadas.
Proponho aos leitores que debatamos a declaração de Flanders, com a qual, de primeira, concordo. Por que não contar com a abrangência de público e a qualidade de produção de canais como a Rede Globo, se o projeto das bandas for preservado?

calypso eu tiamo muito minha banda maravilho adoro vcs venha fazer 1swo em belem porvafo