Nasi, ex-vocalista do Ira, passou por apertos de ordem pessoal e profissional nos anos anteriores. Mas não custa insistir: o que menos nos interessa aqui na Identidade Musical é a vida particular dos músicos. Analisamos a obra – e a de Nasi tem estado mais fértil do que nunca. Assista abaixo ao vídeo da interpretação que ele deu à “Música Urbana”, de Renato Russo, no Estúdio Showlivre, a que você pode assistir integralmente clicando aqui:
É desnecessário dizer que o ponto de partida para a obra de um grande intérprete é a escolha acertada do repertório. “Música Urbana”, de Renato Russo, por si só, é uma composição especial: de certa forma, compõe, com a outra “Música Urbana”, consagrada na gravação do primeiro disco do Capital Incial, uma leitura do sempre saudoso vocalista da Legião Urbana a respeito da vida moderna nas cidades.
Quem é fã da Legião e conhece a “Música Urbana” do álbum Dois. No Youtube encontrei o vídeo abaixo, que não é oficial, mas é bastante interessante:
É flagrante a diferença entre a interpretação de Renato Russo e a de Nasi, da mesma canção: na versão do vocalista da Legião, há apenas violão e uma das versões mais soturnas da voz de Renato Russo – o que, de imediato, confere à canção uma ambiência melancólica, como se toda a cidade estivesse envolvida em trevas. O ponto máximo da expectativa que o arranjo simples e a entoação vocal vão construindo é a inflexão da voz para o agudo no verso “E mais uma criança nasceu”. No contexto, interpretamos que se trata de mais um anônimo que amargará as mazelas da cidade. Mas a própria letra afirma que nessa canção não há mentiras nem verdades, há apenas Música Urbana – deixando a sugestão de que outra leitura é possível.
Nasi e sua banda rasgam essa brecha e abrem a nossos ouvidos outra leitura possível para “Música Urbana”: o som de piano à moda de rock clássico, o estalar dos dedos e o coro que repete “Música Urbana” conferem à composição uma expansão que estava oculta sob o minimalismo do arranjo de Renato Russo. Na versão de Nasi e de sua banda, tudo se dá como se a cidade não fosse apenas desgraça e alienação, como se fosse possível – por mais absurdo que pareça – fascinar-se com o espetáculo da vida urbana. A guitarra entra aos poucos, depois a bateria, fazendo a canção crescer como se a cidade ganhasse vida e fosse comemorada pela banda, em celebração sonora ao nascimento da criança, que encaminha a canção para o final.
Não há mentiras nem verdades no universo da “Música Urbana”: o compositor lê a cidade de modo sombrio; Nasi a observa extasiado, maravilhado – e demonstra que, até na vida moderna, pode haver beleza a celebrar, mesmo que seja apenas no nascimento de uma criança. É a visão aguçada do intérprete, que enxerga na primeira versão da canção possibilidades que o ouvido comum não pode alcançar.

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