O Rei do Rock Brasileiro, Erasmo Carlos, deu uma entrevista a Ronaldo Bressane e e Nina Lemos, da Revista Trip (leia texto completo clicando aqui). Abaixo, o trecho que mais nos interessa:
Como é que você vê essa mudança na indústria da música? Você ganhou um monte de discos de ouro e agora a gente chegou ao MP3, que desvincula o artista do CD. Hoje vocês ganham mais dinheiro com show.
Acho uma maravilha a forma como as coisas se encaminharam. Por exemplo, o negócio das gravadoras, dizem que é ótimo acabar porque tinha o monopólio e aí isso gerava o jabá das rádios. Então eram muitas coisas em benefício de alguns, milhares de valores ficavam sem ter oportunidade. Vendo por aí, por essa liberdade que existe hoje em dia, tem gente começando cada vez mais. Você faz uma música lá no interior do Piauí e tem acesso na hora a São Paulo e ao Rio. Quando o Raul Seixas começou na Bahia, foi mais ou menos na mesma época de Roberto e Erasmo, do Tim Maia. Mas foi difícil pra ele ter que sair da Bahia e chegar aqui. Ainda leva um tempo pra você se envolver, procurar a sua turma, vamos dizer assim. Então, se não fosse esse tempo todo, ele teria explodido com a gente e não demorado um pouquinho mais. Só não acho legal a parte do direito autoral, é uma sacanagem você dispor de uma obra de um artista livremente, sem dar satisfação, mas eu acredito que a própria liberdade da internet, por exemplo, vai encontrar um meio de se autorregular. É a única coisa, porque é muito fácil você dizer que o artista fatura mais com o show e isso não acontece. O Dorival Caymmi morreu agora há pouco tempo. Como é que ele iria faturar com show [risos], um cara com uma obra fabulosa, mas uma preguiça crônica. Daqui a pouco eu vou estar nessa situação, Chico Buarque também, Caetano. A gente vai ficando velho, daqui a pouco vai enfrentar show de cervejaria, de empresa de telefonia? Como a gente vai ter pique? Então, eu já estou preparando o meu piresinho pra pedir esmola na rua [risos].
Cheio de bom-humor, Erasmo Carlos toca em feridas bastante relevantes do cenário musical dos nossos tempos.
Primeiro: declara-se feliz por não haver mais o monopólio das grandes gravadoras e pela facilidade de divulgação do trabalho via internet – sempre com os olhos nos talentos que jamais seriam conhecidos se o esquema fosse o mesmo de antigamente.
Segundo: Erasmo acha uma sacanagem que a obra do artista seja utilizada livremente, sem que se dê satisfação ao próprio artista. Tendo a concordar. Em debates nas reuniões quinzenais da Identidade Musical, Barizon e eu temos chegado cada vez mais à conclusão de que a ideia de disponibilizar a obra gratuitamente na internet para ganhar dinheiro com shows tem se mostrado cada vez mais inviável para as bandas – ao menos é o que temos observado em São Paulo. Não há tantos lugares dispostos a abrir espaço para trabalhos autorais – a maioria das casas prefere bandas cover, que vão “agitar a galera”, que tirará os pés do chão e consumirá a noite toda, sem riscos.
Barizon deve explorar mais o assunto ao longo da semana. Os leitores podem se manifestar deixando recados, ou podem também participar de um grupo de debates que estamos formando, com a finalidade de aquecer o cenário independente em São Paulo.
Para ouvir, a canção “É preciso dar um jeito, meu amigo”, de Erasmo Carlos. Atenção aos versos “As crianças são levadas pela mão de gente grande / quem me trouxe até agora, me deixou e foi embora como tantos por aí”:

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