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“Medo”, a nova canção de Pitty (e outras pequenas reflexões)

Neste fim de semana tive a grata surpresa de encontrar a Pitty no Twitter e, portanto, a chance de mostrar a ela um texto que havia escrito na Métrica do Grito a propósito do lançamento do {Des}concerto ao vivo, trabalho dela que considero primoroso. Não minto: foi bastante prazeroso receber, lá na Métrica, um comentário gentil da própria autora. Além disso, também fiquei feliz porque descobri que ela e a banda estão em gravação - e canções novas da Pitty, para mim, sempre são notícia boa. Esses fatos foram as fontes para as seguintes reflexões, de toda ordem:

a) Pequena análise de “Medo”: a canção nova de Pitty, disponível no vídeo acima, sustenta o peso de sempre, com uma pegada que me lembrou algum AC/DC - o que, também, sempre é uma coisa boa. Quanto à letra, a roqueira baiana tem evoluído cada vez mais: os versos iniciais “Medo, escorre entre os meus dedos / Escorre entre os meus dedos /Eu lambo os dedos / E saboreio meu próprio medo” contêm uma imagem que foge ao lugar-comum, em que o medo, que é abstrato, assume estado viscoso, mais concreto, escorrendo entre os dedos do eu, que acaba por degustar dos próprios temores. Essa imagem concreta do medo é bastante convincente, porque esse sentimento, no estado quase líquido, pode espalhar-se por todos os lugares, desde que haja uma pequena brecha pela qual ele possa espraiar-se; além disso, os melhores versos da canção (“Paranóia hi tech é síndrome / Contagioso, manipulador / Antiga batalha: / O homem e seu pavor / Nocivo se paralisa”) retomam a imagem anterior, reforçando-a: a “paranóia hi tech”, uma forma de medo, também se espalha com facilidade, por isso é “contagiosa”; o homem apavorado está paralisado, em oposição a seus medos, que se caracterizam pela velocidade, pelo movimento.

Ordenei a canção da seguinte maneira: os primeiros versos são, de certa forma, metalinguísticos, como se o eu que canta estivesse avisando aos ouvintes que fará um mergulho no próprio medo, por isso é que o saboreia; a segunda e terceira estrofes (disponíveis no site da Pitty) contêm essa degustação, que culmina numa retomada da primeira imagem: o medo paralisa o homem, daí os versos analisados acima e os que concluem a canção: “Se corre o bicho pega / Se fica o bicho come”.

Até aqui fiz uma análise, até certo ponto, objetiva. Agora me arrisco na interpretação: quando mergulha no próprio medo, levando-o à boca, o eu propõe, de certa forma, uma superação do medo; a canção parece deixar evidente a ideia de que o medo, que imobiliza os homens, também é manipulador. Assim, pode-se entender que para não sermos manipulados, temos de superar nossos temores. Temos de saboreá-los. Tomando contato com nossos próprios medos, podemos sair do estado de imobilidade em que a socidade moderna nos colocou: a “paranóia hi tech”.

b) Pitty é exemplo de utlização das novas tecnologias para a carreira da banda: enquanto muita gente anônima acredita que basta ter uma paginazinha no Myspace para alcançar o megaestrelato, Pitty, que já tem uma carreira bastante consolidada, segue atuante em todos os meios possíveis – o site da banda está em reformulação, o vídeo da canção nova foi divulgado por ela, os posts no Twitter atualizam os fãs mais afobados em tempo quase real. Nem preciso lembrar que, no Brasil, Pitty foi pioneira na venda de canções via celular. Insisto: cada vez mais, as bandas são responsáveis pelas próprias carreiras. Melhor assim.

c) Pensamento crítico e entretenimento : não me considero propriamente um “crítico” no sentido mais tradicional (que já comentei aqui na identidade Musical, num dos posts mais lidos que já tivemos), mas certamente aqui no blog tentamos, Barizon e eu, contribuir para o pensamento crítico a respeito das canções. Música não é apenas entretenimento – eis aí o bordão das nossas Noites do Bem. Certamente, falta espaço para o pensamento crítico, para a análise mais detida, para os detalhes; não é novidade afirmar que a grande mídia, que faz sempre as mesmas perguntas (ou, se quisermos, dá sempre as mesmas respostas). Missão dos blogs: oferecer conteúdos (críticos) que a grande mídia não quer e não pode oferecer, presa que está às supostas “demandas de mercado”.

Posted in Cena e Mercado, Máquina do Tempo.

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10 Responses

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  1. paulofcds@hot says

    Poxa,quebrando tudo DE NOVO!

  2. Bernie Walbenny says

    CARAALHO! Cada vez que leio teu blog saio um pouquinho mais “culto”. hehehe. Parabéns pelo post.
    e a Pitty realmente está conseguindo levar nas mãos uma carreira invejável, parabéns a ela e as pessoas que a cercam!

  3. Thaly says

    Legal.
    Eu sou suspeita (sou fã da Pitty) pra falar que a música ficou dez.
    Tua análise ficou muito boa. Eu entendi bem parecido… =)

  4. Hannah says

    Poxa,adorei,muito bom você como professor abrindo a mente dos ouvintes e fãs da Pitty pras interpretações,acredito que tenham várias!
    Eu particularmente amei a letra de Medo!Mas senti que não funcionou na música,minha opinião,mas eles sempre surpreendem,vamos ver como ficará no CD!
    Parabéns!
    bjo

  5. Andréa says

    A música é muito massa e o texto faz um boa interpretação! Espero realmente que a música entre no cd. Além de ‘medo’, tem no youtube outras três músicas novas que foram cantadas em shows (Rato na roda, Água parada e Pra onde ir – se é que os nomes não irão mudar)… são vídeos filmados por pessoas da platéia, com a qualidade não tão boa quanto essa, mas já dá pra perceber que as outras são mt foda tb. O novo cd vai vir quebrando tudo mesmo! Estou cada vez mais ansiosa para conferir o resultado.

  6. Hannah says

    Quando a banda liberar a letra de “Água Parada” queria muito ver a sua interpretação!
    Das 4 novas lançadas nos shows,ela é a que mais gosto!

  7. Tv Backstage says

    Cara,
    É a promeira vez que apareço aqui no sei blog…Essa sua análise é perfeita…Tudo em seus mínimos detalhes são de grande importância…Parabéns…Dá um pulinho lá nomeu blog e deixa um comentário…
    Abraços,

    Tv Backstage

  8. Tv Backstage says

    Cara,
    É a promeira vez que apareço aqui no sei blog…Essa sua análise é perfeita…Tudo em seus mínimos detalhes são de grande importância…Parabéns…Dá um pulinho lá nomeu blog e deixa um comentário…

    http://tvbackstage.blogspot.com

    Abraços,

    Tv Backstage

  9. Bruh says

    Muito bom o seu texto, uma boa crítica também, está de parabéns!

  10. Yasmin says

    Aqui estou eu, muito feliz de saber que há “alguém” a altura de uma boa critica ou até mesmo interpretação sobre os trabalhos da banda Pitty, que esse ano promete fazer muito sucesso e mostrar mais ainda o objetivo deles. Como aqui já foi dito, por minha colega Hannah, quando a banda liberar a letra da música “Água parada” seria um prazer poder ver a sua interpretação da música!



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