O post de segunda-feira, que continha uma breve análise da canção “Medo”, da Pitty, foi, de longe, o mais acessado e comentado aqui no blog da Identidade Musical, em seus breves meses de história. Não pude deixar de lado a pergunta: por quê?
Uma análise mais fácil seria a seguinte: Pitty e sua banda já são, não há pouco tempo, ícones do rock nacional. Nada disso é mentira, mas essa hipótese desconsidera alguns detalhes que podem passar despercebidos. O primeiro é que a divulgação que fiz se restringiu ao Orkut (no meu perfil e na maior comunidade da Pitty, que deletou o tópico; depois descobri que há uma outra, menor, mas bem mais atuante), ao Facebook e ao Twitter. Foi neste último site de relacionamento que a própria autora comentou o texto e lembrou que eu não havia notado, na letra de “Medo”, uma citação a Proust. Foi o suficiente para os fãs da Pitty encherem este blog de visitas e comentários.
Aprofundando: Pitty é uma frequentadora ativa da internet e já comentou, inclusive, quando esteve no Estúdio Showlivre, que via na rede virtual uma grande aliada dos músicos.
Acrescento: a internet talvez seja a maior aliada dos músicos, exatamente porque facilita o contato entre eles e público, sem os filtros (impostos, muitas vezes, pelo poder econômico) da grande mídia. Note que logo depois de afirmar que internet é aliada, Pitty assevera a própria liberdade criativa: ela e a banda não seguem rótulos ou padrões, não determinam caminhos a seguir. Simplesmente tocam – é o que fazem melhor, porque são músicos; o contato mais próximo com o público, via internet, permite esse tipo de liberdade.
Para mim, foi uma experiência única ler os posts na comunidade da Pitty no Orkut ou no Twitter: em questão de poucas horas, os fãs da roqueira baiana comentavam a canção, debatiam o post aqui da Identidade, corriam atrás da alusão a Proust (que eu desconhecia). Esse contato mais próximo entre o artista e seu público é, a um só tempo, libertador para o primeiro (que pode prescindir das concessões, até as estéticas, para divulgação de sua obra) e enriquecedor para o segundo (que não precisa contar com os pretensos formadores de opinião, muitas vezes movidos por interesses que passam longe da avaliação estética).
Saem de cena os grandes canais da mídia (ou, ao menos, começam a perder espaço), entram em cena os blogs (começamos a entender por que muitos “formadores de opinião” rejeitam blogs e sites independentes). E antes que algum leitor me considere autobajulador, esclareço: há muitos blogs, além deste (melhores do que este, com mais história do que este), cujos autores se valem da independência para avaliar as obras dos artistas. Bom para os compositores – que podem contar com um grupo de “críticos” cuja preocupação é estética, e não qualquer outra – e para os fãs, que podem tomar contato com análises a respeito da obra do artista preferido, livres de interesses que não a própria obra.
Note o leitor que, no parágrafo acima, escrevi sobre avaliações críticas a respeito da obra: na entrevista abaixo, lá pelos 03 minutos e 50 segundos, também no Estúdio Showlivre, Pitty afirma que rejeita a “idolatria das celebridades”.
Outra lição aprendida com o sucesso do post a respeito de Pitty: no universo da independência, tem de interessar cada vez mais a obra do artista, cada vez menos sua vida particular. Repetir a cultura da celebridade é reafirmar a lógica das gravadoras, que investem mais, às vezes, na imagem dos supostos artistas do que na própria obra de arte. Roupinhas justas, cortes de cabelo excêntricos, cara de mau do guitarrista, sorrisinho colgate e lírico do vocalista, instrumentos estilosos, camiseta preta: assim são os produtos manjados do mainstream; tudo leva a crer que se trata de uma banda de rock, devido à aparência, exceto pelo som, que deveria ser a essência – mas na essência não há nada, só a velha repetição de modelos já bem conhecidos, sempre de “roupagem” nova, para esconder-lhes a decrepitude. Quando o lucro é o único horizonte, a histeria e a fascinação da platéia não recaem nas canções, mas no espetáculo bem planejado, que transforma o próprio artista (?) em produto, e as canções em descartáveis.
Ao deixarmos de lado a vida do artista (que nos interessa ela?), voltamos nossos olhos para a obra. Talvez seja esse o início do chamado processo de formação do público, tão comentado, mas ainda um pouco obscuro. A reflexão aqui no blog tem sempre sido pautada pela ideia de que a cena independente já existe; é preciso consolidar o mercado independente. Palavras são perigosas e poderosas: queremos o mercado independente de cultura, mas não queremos, imagino eu, repetir os vícios da cultura do mercado, orientada pelo lucro. Para fazê-lo, sempre lembrando que criar algo novo implica o processo de tentativa-e-erro-seguido-de-ajuste-que-pode-resultar-em-acerto, podemos pensar da seguinte maneira, em linhas gerais:a proposta estética deve preceder a ambição pelo lucro; isso não significa, contudo, que o artista deva aceitar migalhas quaisquer: ele é profissional, deve ser valorizado por seu trabalho; finalmente: o resultado financeiro deve ser visto como consequência da qualidade estética da proposta.
Mas aí surge o entrave: o público quer obras de qualidade? A resposta é sim, desde que ele tenha os ouvidos preparados para o desfrute estético. Daí a importância da formação do público: busca de casas que abram espaço para diferentes propostas artísticas, de toda ordem, de todos os gêneros; utilização de canais alternativos de divulgação; fomento de eventos, evitando a repetição do discurso “venha encher a cara e chutar o balde”, preferindo “venha desfrutar de arte não-pasteurizada e se divertir com isso“; acentuação do contato das bandas com o público, sem o culto à personalidade; acentuação do contato entre as bandas, para que adquiram mais força; e, finalmente, valorização da crítica analítica, com foco nas obras, em detrimento do jornalismo de perguntas vazias, que só reforçam a idolatria de celebridades, cujo foco está na vida dos artistas.
Por último: as bandas e os artistas não são concorrentes: o público que queremos formar saberá apreciar as vozes, por exemplo, de Pitty e de Elizeth Cardoso, a despeito das diferenças de gênero e de época; saberá ir do rock à literatura, e voltar ao rock, de Pitty a Proust; de Sepultura a Dante ou Anthony Burguess; de Chico Science & Nação Zumbi a Josué de Castro, e deste a Graciliano Ramos, ou João Cabral de Melo Neto, chegando à literatura de cordel, e desta à Legião Urbana, de volta a Elizeth Cardoso, depois de ter passado pelo Samba-Canção, pela Bossa-Nova, pela canção de protesto, pela Tropicália e pelo rock dos anos 80 e 90, rumo ao presente: “Evoé, jovens à vista”, diria Chico Buarque. E assim sucessivamente, em diversos pontos de contato entre as artes, que toda obra de qualidade contém.
A reflexão acima, certamente, guarda equívocos, salvo um: o de sonhar pequeno. Ainda haverá um momento em que todas as propostas estéticas ousadas, que não têm por finalidade primeira o lucro, terão espaço que irá muito além do virtual e público atuante. Todos têm sua hora e sua vez: chegou a dos independentes.


Muuito,reação da ação!
Muito legal, é a reação da ação.
Muita gente já não quer mais ouvir música boa e sim se enquadrar em um grupinho de pessoas umas cópias das outras, uma modinha qualquer. Pitty é uma cantora de muito talento e que conseguiu fugir dessa onda de que o que rola é o visual. Pelas músicas que já foram soltas esse CD vai vir muito bom, só espero que saibam aprecia-lo. Seu texto ficou muito bom, você escreve muito bem, gostei muito da leitura que tu fez da música medo. Parabéns e sucesso pro blog, agora começo a acompanha-lo.
Seus textos são duma vercidade incrível, nele nada é posto como o simples, mas sim como o importante.
Parabéns mesmo!
Ótimo o texto! Vou sempre passar por aqui pq já vi que seus textos são todos massa! Eu tenho orgulho de ser fã da Pitty!
Concordo com td com o que vc disse, e acrescento, blogs independetes e de qualidade, como o seu, ajudam a formar pessoas pensantes, que vão contra a alienação e conformismo. Não só blogs, mas músicas tb, que falem de coisas reais, que estimulem ao pensamento, reflexão, e não aquela coisa que vemos hoje em qualquer lugar, onde tudo é lindo e feliz.
Amei seu texto…
apareça lá na comu pra gente conversar!
;D
abç!
você soube explicar perfeitamente!
Amei seu texto [2]
A Roxa agradeçe!
- muito bom o seu texto ^^
Cara tu arraza! Meus parabéns. [;)]
F O D A !
Perfeito!Já virei sua fã!
Adorei como ressaltou o fato de buscarmos a essencia da música,o que a letra nos passa em vez de criarmos o deslumbramento estético que muitos fãs deixam-se levar,a consequencia é a idolatria,o fanatismo!
Acompanho o trabalho da Pitty desde o começo da carreira dela,sei que a banda tem tanto o lado estético pra oferecer como tbm tem letra,tem conteúdo,nos faz refletir,nos faz viver aquilo que a música prega!
Existe sim uma “Egrégora” em torno da banda Pitty,como a mesma já citou em seu site no “Boteco”,essa egrégora é denominada de “Roxa” é a Roxa Fã Clube,que é formada por fãs de tds os lugares do Brasil e até fora do Brasil.São pessoas que visam o crescimento da banda,a divulgação do trabalho e fazem isso como forma de agradecimento pelo que é sentido,quando escutam canções da banda que simplesmente dizem tudo que precisamos ouvir!
Lhe faço o convite de ir a um show da Pitty,tenho absoluta certeza que após isso você irá entender,como é estonteante o efeito!Voltando a falar da Roxa,essa galera viaja de um Estado pra outro,pra ver os shows da banda,se gastam em votações pra banda ganhar prêmios,através de maratonas e etc.Infelizmente a maior comunidade como vc citou ai,foi roubada,essa menor é a mesma galera,só nos refugiamos pra la,enquanto não recuperamos a outra!
Nós fãs “roxos” acreditamos que o rock,não é somente o show,a música com belas letras e melodias,mas sim ATITUDE e acreditamos q a atitude não está em fazer um sinal de chifres com a mão e se vestir de preto,o rock com atitude vai além disso!
A Roxa realiza e já realizou vários projetos sociais,reunindo os fãs de cada Estado em prol de uma boa causa,pq não adianta apenas ouvirmos as músicas e não aplicarmos nas nossas vidas,no dia-a-dia e nós fazemos isso!A banda mesmo é conhecedora de vários desses projetos que já realizamos!E Esperamos nunca parar!Nem com roubo de comunidade,nem com nada,vamos além disso!
Prezado,
Este blog é fantástico, consegue reunir a literatura e a música de forma admirável. Sou criador e editor do portal literar.org (http://literar.org), e gostaria de deixar o convite para uma visite.
Um abraço!
Rapaz, confesso que estou gostando cada vez mais dos seus textos. Parabéns pela atitude, e pela maneira através da qual enxerga o trabalho de Pitty, que muitos críticos brasileiros desmerecem. Incrível a maneira como o texto evolui, e muito legal de sua parte prestar atenção à galera da Roxa, o povo lá é bom no papo, vale a pena gastar um tempinho lá, dá pra exercitar bastante a massa cinzenta do cérebro.
A análise toda está sensacional, mas me emocionei muito com o penúltimo parágrafo em específico. Vai entender, né? Acho que perceber toda essa rede de possibilidades nesse mundo novo é fantástico!
Olá! Também sou admirador da cantora Pitty. Conheço seu trabalho desde 2004 qdo a vi pela primeira vez na tv. De lá pra cá venho seguindo seus passos como fã, tenho os discos, já fui a shows. Além de ficar fascinado com suas letras, sua personalidade também me encanta. Pelas entrevista que já vi, acho-a muito inteligente, culta, de uma sabedoria tremenda. Ela, mesmo não querendo, influencia seus fãs até de forma positiva, sei que há fãs leram Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, porque a Pitty o citou, inclusive eu assisti o filme V de Vingança, tb pela citação dela numa entrevista, enfim, eu acho que isso é bom.
E em relação a você, professor, ganhou mas um fã e admirador. Li o primeiro post sobre a Pitty e agora o segundo. Vc é massa.
Vlw. abração.
P.S. TB SOU DA COMU ROXA. rs
Esse post já superou o outro em comentários, hehehe. Abs
rapaziada, muito legal a experiêcia que vcs produziram e o relato, a analise!
parabens!
muito bom o posta
abraço
Christian – Instiga
Como fã da Pitty, acho legal esse reconhecimento. Nem todos os fãs são aqueles que amarram faixinha na cabeça, para chegar em frente ao artista e berrar.
Sim, admiramos o trabalho da banda, mas acho que seria vazio curtir as musicas sem ao menos ter o interesse de pesquisar e questionar os pq’s das coisas.
Enfim..adorei o texto.
Parabéns
Obrigado pela leitura, Lau, Icaro, Andréa, Bryan, Sérgio, Yasmin, L e Evelyn!
Aguardo vocês sempre por aqui.
Abraço!
Christian, Amandahh, Thiago, Hannah, Victor:
Uma de nossas missões aqui é produzir análise – exatamente o que nos parece faltar na grande mídia. Muito obrigado por reconhecerem isso! E obrigado, também, por acreditarem que é possível mudar a realidade por meio da música!
Abraço!
Renato:
Esperando seu primeiro passo no texto sobre o Camisa de Vênus. Recebeu o email? Talvez com esse texto a 4 mãos a gente alcance mais de trinta comentários!
Abraço!
Fabiano:
Convite aceito. Logo mais dou as caras lá pelo seu Literar. E obrigado pela leitura da Identidade Musical!
Abraço!
Dianne e Laah MZR:
Certamente já virei frequentador da comunidade de vocês, que me ensinou muito sobre formação de público atuante. Longa vida à Roxa!
Abraço!
Muito boa reflexão!!!!!
Acrescento que, depois do processo de long tail (pulverização de mídias), o próximo conceito estético a ser explorado é na qualidade orgânica do “ao vivo”, cada vez mais surgem bandas que utilizam o improviso como forma e fórmula para transcender a estética e o produto como simples relação de consumo.
Experimente essa subversão !!!!!
Improvise !!!!!
http://radioetvunisa.blogspot.com/
Johnny:
Tem toda a razão: já estou procurando aqui vídeos em que o improviso como “forma e fórmula” serve para transcender a relação do consumo. (Sem dúvida esse conceito vai aparecer naquele manifesto…)
Muito obrigado pela leitura e pela contribuição!
Abração!
“Ainda haverá um momento em que todas as propostas estéticas ousadas, que não têm por finalidade primeira o lucro, terão espaço que irá muito além do virtual e público atuante. Todos têm sua hora e sua vez: chegou a dos independentes.”
YEAH!!!
E chegou mesmo.
(L.A.B.: o som de vocês é maravilhoso)
Muito bom o texto!
Já sou sua fã[2]! Ta de parabéns!
Parabéns,o seu blog é muito massa.
Você acrecentou detalhes queeu não havia percebido a “Medo”.
Obrigado, Rapha e Biaah!
Abração!