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As opiniões do Miranda (Parte I) – Músicos agentes da própria obra e do próprio destino

Carlos Eduardo Miranda é uma das personalidades mais conhecidas da canção brasileira atual. O grande público o conhece pela participação no programa Ídolos; sua credibilidade, contudo, transcende essa breve passagem pela grande mídia: o homem já trabalhou com Raimundos, Mundo Livre SA, O Rappa, Lobão, Cordel do Fogo Encantado, Otto, Totonho e os Cabra, Graforréia Xilarmônica, Skank, Virgulóides e Cansei de Ser Sexy; é agente fundamental do rock gaúcho nas décadas de 80 e 90; criou e dirigiu a Trama Virtual; escreveu na Revista Bizz.

Miranda é, portanto, não só uma personalidade; é daquelas pessoas que viram referência pela competência do trabalho. As opiniões do Miranda são, concordemos com elas ou não, fundamentais para pensar em perspectivas futuras para a canção brasileira, em especial a canção independente. No início da entrevista dada a AD Luna, no Programa Mão na Massa, do Showlivre, Miranda dá uma definição a um tempo poética e concreta da finalidade do produtor:

Eis aqui: o produtor coloca a alma do artista em contato com a alma do público. Partindo dessa definição, sugiro alguns devaneios.

Primeiro: para saber qual público quer atingir, o artista deve ter bastante consciência de sua proposta estética. E quem assistir à entrevista do Miranda perceberá que a função do produtor é, também, colocar os músicos em contato com potencialidades que talvez eles mesmos não saibam que têm. Muito trabalho: vai por terra a imagem do gênio que nasceu com as canções e os arranjos todos prontos na cabeça. Não canso de repetir, nos blogs e nas aulas: Machado de Assis escreveu livros medianos antes de produzir suas grandes obras; por que com os artistas do século XXI seria diferente?

Segundo: uma reclamação que se ouve bastante nos bastidores dos independentes diz respeito à ausência da platéia, que não estaria disposta a ouvir coisas novas. Embora seja verdade que grande parte do público tenha essa resistência, também é verdade que as bandas se preocupam, muitas vezes, com as expectativas da audiência antes de alcançarem a própria identidade. A história não mente: quem tem um projeto sólido, autoral de fato, tende à carreira longa; quem somente “surfa na onda”, joga com “a bola da vez”, tende ao sucesso efêmero e ao esquecimento. Essas são conclusões a que se pode chegar assisitindo à segunda parte da entrevista:

“Quem busca a felicidade em um resultado é um burro; a felicidade está no passo que se dá, no caminho que se quer”: a frase, de tom místico, guarda elementos fundamentais a respeito do mercado musical de hoje. As bandas à cata do sucesso à moda megaestar já são gestadas na lógica do mercado, já nascem pasteurizadas; não podemos esperar delas nenhuma proposta provocante do ponto de vista estético-musical. Os passos dados no caminho desejado são trilhados por artistas de fato: aqueles cuja obra importa até mais do que a aceitação do grande público. Há ouvintes para todas as propostas, com absoluta certeza. A questão é encontrá-los.

Vivemos um momento de oportunidade histórica singular, em que nenhum artista, para divulgar sua obra ao público, precisa abrir mão de sua proposta estética para o mainstream. Aliás, quem abre as pernas para as exigências pasteurizantes da grande mídia ou não tinha proposta ou almeja apenas alcançar a celebridade ou as duas coisas (e para esses recomendo a leitura, mais uma vez, de Machado: nas Memórias Póstumas de Brás Cubas, o narrador, que buscou a fama ao longo de toda vida é, na verdade, um ser vazio). Em suma: é um burro, nas palavras de Miranda.

A oportunidade histórica de criar uma obra e divulgá-la ao público sem os entraves vividos até a década de 90 tem um preço – a participação maior, muito maior, do artista em toda a cadeia produtiva da música. Não basta ser o “gênio criador” que passa o dia inteiro estudando música, alheado do mundo e da pessoas. Como o próprio Miranda afirma na entrevista, é preciso ocupar todos os espaços virtuais, produzir conteúdos para atualizá-los com frequência, tocar em todos os espaços possíveis, fazer contatos com outras bandas, participar dos festivais. Enfim: ser um agente da própria obra e do próprio destino, escolhendo os passos dados no caminho escolhido.

Posted in Cena e Mercado.

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