Conforme divulgamos aqui, em post anterior, Barizon esteve neste feriado em Belo Horizonte, em evento promovido pelo Coletivo Pegada, para conversar com a turma de lá a respeito da cena independente e da cadeia produtiva da música. E lá fui eu atrás do homem, para registrar momentos marcantes da viagem, ajudar no que fosse necessário, descobrir novas bandas para veicular aqui no blog.
O leitor que preferir um relato organizado e claro sobre o que aconteceu no Espaço Minueto, na última quinta-feira, leia o texto de Roger Deff, no Portal Fora do Eixo. Confesso que me falta, sobretudo aqui no blog, a escrita objetiva, em terceira pessoa; encanto-me facilmente com os fatos e os espaços: estávamos em terras de Drummond, tentando formular hipóteses sobre a canção contemporânea; tudo me parecia poético, um grande sonho realizável - a articulação de artistas independentes de Minas e São Paulo, depois de todo o Brasil, pensando alternativas para que a arte não ficasse presa à lógica do lucro, náusea que nos aflige a todos.
Inicialmente, algo que chamou demais a atenção foi a presença: havia mais de quarenta participantes, em plena quinta-feira de feriado, dispostos a debater a cena independente. E foi de fato o que eles fizeram: participaram ativamente, com perguntas, sugestões e relatos de experiências próprias - muitas delas registradas pelo próprio Pegada, no Twitter. Genial: ao mesmo tempo que anotava pontos fundamentais do debate, a turma do coletivo divulgava-os a quem quisesse lê-los.
E ingressamos, desse modo, na primeira reflexão deste post: Barizon iniciou o debate afirmando que pretendia (ao contrário do que se costuma fazer no mercado artístico) partilhar informações, dados, hipóteses e experiências - o que vai acontecer, por exemplo, com a divulgação dos dados obtidos no Mapa Musical. Não sei o que os participantes pensam disso - estão todos convidados a se manifestar, se quiserem, por meio de comentários - mas essa postura é fundamental (é aquilo em que acreditamos aqui na Identidade Musical) para que a cena independente se torne, de fato, um mercado independente de música. Em outras palavras, se não se articularem de fato, os agentes desse mercado estarão fadados a repetir as práticas do mainstream, ou a oferecer-lhe, de bandeja, seus grandes talentos. Eis aí a importância e a responsabilidade de instituições como a Abrafin e o Circuito Fora do Eixo.
Proponho, desde já, um problema que apenas tem se delineado nos debates em que estivemos envolvidos: em que o mercado independente pode ser diferente do mercado tradicional de música? Está aí uma pergunta que ainda não pode ser respondida de forma completa, mas cujas respostas estamos buscando.
O conceito de Formação do Público sempre volta à tona, em conversas como essa; sabemos que os arquivos em MP3, na esmagadora maioria das vezes, resultam em perda de qualidade da canção (processo inevitável no tempo em que vivemos) e na regressão da sensibilidade auditiva do público. Pois que fique o desafio: cabe aos independentes brigar pela inversão desse processo. A canção não é produto-mercadoria descartável - é obra de arte, antes de tudo. Parto, aqui, até, para uma fala mais radical: é responsabilidade do músico conhecer todo o processo de produção musical, para garantir a qualidade de sua obra e inverter o processo de degradação auditiva do público.
Como dissemos em conversas ao longo do feriado: independente não é sinônimo de amador ou de mal-feito. Usando uma terminologia que muita gente considera envelhecida e outra, que está na moda, mas que diz as mesmas coisas que eram ditas na aurora do mundo que conhecemos, orientado pela lógica do lucro: aquele que desconhece toda a cadeia produtiva em que está envolvido pode ser chamado de alienado. Músicos e obras que fogem à alienação formam público participante, ativo, que não se satisfaz com pouco.
Tudo isso foi o que aprendi com os debates de quinta - em que foram, por exemplo, relatadas as ações de marketing de guerrilha dos caras da banda The Hell's Kitchen Project, cuja apresentação no Conexão Vivo, em Governador Valadares, segue abaixo:
Com o bom-humor dos caras da banda Monograma, aprendi que não dá para haver troca de experiências sem que as pessoas se encontrem pessoalmente. Barizon tem razão: a internet é ferramenta - mais uma, talvez a melhor delas - mas apenas uma ferramenta. O que precisamos fazer é nos movimentar, encontrarmos aqueles que também querem melhorar o mundo por meio da música, nem que seja só um pouco, uma pequena parte dele, apenas algumas veredazinhas. Nas palavras de Drummond, que parece ter antevisto o nascimento dos independentes, com o poema "A flor e a náusea":
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.
A náusea que vivemos todos os dias ficou do lado de fora do espaço Minueto, porque ali foi permitido vislumbrar alternativas de futuro para os independentes. E voltamos para São Paulo com vários parceiros, e amigos novos, e as cabeças cheias de ideias, e sonhos que podem se realizar.

Massa, gente.
Bom saber que surpreendemos vocês, mas a organização e o entusiasmo que vocês viram aqui no coletivo Pegada é uma ponta de uma rede de 38 coletivos brasileiros integrados, organizados e com DNA aberto e colaborativo!
Tô surpresa como vocês ainda não conversam com a gente há mais tempo.
Ficaí o link do nosso blog de tecnologia: http://tec.foradoeixo.org.br/, aqui tem o link de todo mundo que participa do processo e um belo histórico das nossas ações coletivas, pra vocês pesquisarem e a gente pode continuar conversando.
beijo da Mi
Mi:
A partir de agora, vamos nos aproximar cada vez mais.
Grande beijo!
Grande Rogério!
Bom saber que a experiência foi boa pra vocês também! Muito obrigado pela disposição de ficar falando 4h em pé em pleno feriado. Mas acho que isso é um retrato da vontade de todos nós de fazermos essa cena independente crescer e aparecer.
Fica ainda a idéia do Manifesto!
Bora continuar conversando,
Abraços,
Lucas Mortimer
Lucas:
Curioso é que acabei de ler o Manifesto pela Música Autoral, publicado por vocês no blog do Pegada. Que maravilha de texto! Certamente ele vai servir de referência para que outros Manifestos apareçam, até que a gente consiga criar um Manifesto Coletivo da Arte Independente.
Forte abraço!