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Os Visitantes e o Espírito do Carnaval

Nos posts da categoria Máquina do Tempo, tenho insistido em demonstrar que um tema recorrente da canção brasileira é a sensação de que, no Brasil, vivemos num contínuo espaço-tempo, em que o hoje nos parece igual ao ontem, sem que possamos vislumbrar um futuro diferente. Na canção "Como sempre", no vídeo a seguir, a banda Visitantes apresenta de forma contundente uma das imagens mais claras e menos otimistas dessa impressão que parece caracterizar o Brasil e os brasileiros:

A introdução faz lembrar uma referência clara da banda: o movimento grunge, sobretudo o Nirvana de Kurt Cobain. Uma audição desatenta poderia fazer supor que a canção nada mais é do que mera reprodução da sonoridade de Seattle. Engano. Na entoação vocal dos primeiros versos, é possível perceber um dos elementos que marcam de modo inconfundivel a identidade dos Visitantes: as extensões vocais de Fábio Cardelli, do agudo ao grave, dando à canção a sensação de um looping melódico acentuado e vertiginoso. Em palavras mais simples, a impressão que fica é a de que estamos numa espécie de roda-gigante ou montanha-russa sonora, que será explorada mais detalhadamente a seguir.

Talvez seja vão iniciar a análise pelo título: "Como sempre" sugere monotonia, ao contrário das oscilações descritas anteriormente. O leitor já terá percebido que a canção dos Visitantes, antes de chegar ao segundo verso, já propõe um desafio analítico: um descompasso aparente entre o título, que remete à continuidade, e a entoação vocal, extremamente vibrante.

Essa impressão de incompatibilidade, entretanto, se desfaz com a análise da letra: "Meu aval pra esse carnaval, muito sexo anal, muita diversão". Que o leitor não espere uma historinha didática, com começo, meio e fim; como acontece em muitas canções de qualidade, estamos diante de uma imagem, espécie de quebra-cabeças que exige análise atenta. Note-se, para começar, que é preciso um "aval" para viver o carnaval. Fica, assim, a impressão de que o eu que canta necessita de autorização para cair na folia; podemos concluir, por exemplo, que a voz que ali fala corresponde à de um adolescente; nada, contudo, nos permite afirmar quem é, com tanta precisão, esse eu. Assumamos, pois, que é alguém que assume, em si, como um todo, o Espírito do Carnaval - a irresponsabilidade, a ausência da razão, a inversão do que é adequado e aceito fora do feriado de fevereiro. Finalmente: o eu que canta pode ser entendido como o inverso, recôndito obscuro dos brasileiros que só vem à tona no carnaval, escondido por todos elesao longo do ano. Lembremo-nos de que o sexo anal, ao menos nos ambientes mais tradicionais, é tabu - e, no Brasil, só se quebram os tabus no carnaval, único período em que as relações hetero ou homossexuais que envolvem sexo anal são mais ou menos aceitas.

A sensação de que vale tudo, de que tudo é permitido, segue nos versos "Vibração na televisão, a população nua no ar / Agitar, a praia lotar, no bar vomitar tudo outra vez". Ao contrário do que ocorre no cotidiano, a população está nua, em cadeia nacional; tudo é festa, tudo é vibração, e o equilíbrio tênue do ano todo se perde: o vômito vem pelo exagero, pelo excesso em que o eu está metido.

Partindo dos elementos anteriores, pode-se afirmar que alguns méritos de "Como sempre" estão nas diferenças entre essa canção e as que comemoram "a maior festa popular do país", no clichê televisivo.

Primeiramente, a letra, como um todo, não contém a linguagem polida das canções carnavalescas. Não há samba-enredo ou axé de sucesso em que haja alusão tão explícita ao sexo anal - tomado aqui na acepção mais sacana que se possa imaginar. O que quero dizer é que a letra de "Como sempre" escancara nuances do carnaval que todos sabemos existir, mas que raramente são explicitadas, ao menos nas canções ou nas transmissões de tv.

A crítica da canção dos Visitantes está exatamente no escancaramento, isto é, o carnaval está em questão quando o eu que canta assume a perspectiva dos brasileiros durante essa festa; já disse anteriormente que o eu que canta na canção pode ser entendido com o Espírito do Carnaval, que nos toma a todos em fevereiro. Essa perspectiva assumida na letra parece mais eficaz do que o discurso intelectualizado, do tipo "o carnaval aliena o povo", que é eficaz em aulas de cursos superiores, mas que correria o enorme risco de soar pedante na canção. Além disso, não se repete aqui o modelo de outras canções feitas a respeito do feriado mais esperado do ano, como "Vai Passar", de Chico Buarque (leia análise dessa canção clicando aqui) ou "Sambódromo", da banda paulistana 365 (leia análise dessa canção clicando aqui).

Afasta-se, portanto, a influência inicial do Nirvana; aliás, pode-se afirmar que os Vistantes são uma banda autenticamente brasileira, exatamante porque assumiram, em primeira pessoa do singular ("Meu aval"), e depois, no refrão, em primeira do plural, o discurso do Espírito do Carnaval. Ele está todo ali, seja na letra, seja no percurso vertiginoso da entoação vocal.

Retomemos, agora, o título, que já alude ao carnaval como repetição; poderíamos dizer que, como tudo que se insere na lógica de mercado, o carnaval se tornou um produto produzido em massa, daí a ideia de que se repete incessantemente. E aqui se pode retomar também a charada que deixamos sem solução num parágrafo anterior: a intensidade e a euforia do carnaval são exatamente os elementos que se repetem todos os anos. As entoações vocais de Cardelli nos levam do grave ao agudo, e vice-versa: é o looping vertiginoso, tão intenso quanto a festa que nos leva ao vômito - e à inconsciência. Se o leitor preferir a uma imagem mais recorrente, somos "mais de mil palhaços no salão".

No refrão, o Espírito (coletivo) do Carnaval mostra flagrantemente a cara: "O Brasil é nosso / O Brasil é nosso quintal", versos que beiram à profanação. No primeiro, a marca da identidade nacional; no segundo, mais uma vez, a escancaração do que talvez seja o carnaval de fato, a festa que faz do Brasil o nosso quintal, espaço, na canção, em que o público e o privado se confundem. É a alegoria da vida cotidiana brasileira, em que os que ocupam os grandes cargos públicos só fazem à cata dos interesses privados. E a grande população, da sexta à noite à quarta de cinzas, reproduz essa prática, tomado as ruas de assalto, transformando-as todas em quintais - vomitando nelas, por exemplo.

Na segunda estrofe, o tom irônico e alegórico toma conta dos versos: "Tem Pelé, picolé, café, tem muita mulher, tem guerra civil / Vou pro Rio morrer de fuzil, meu crânio explodiu de amor por ti". Aqui, o mito brasileiro do futebol (já citado no refrão por meio da voz "Brasil-sil-sil", das narrações futebolísticas) se mistura ao sorvete que refresca e ao café que esquenta, em mais uma alusão aos extremos e excessos, sem contar que o café já foi nosso grande produto de exportação, da mesma forma que é o carnaval hoje, numa alusão evidente à lógica de mercado, que orienta o cotidiano do ano inteiro. A guerra civil e a morte por fuzilamento podem ser entendidas como alegorias da suposta festa em que todas as classes sociais estariam integradas; a explosão do crânio, por amor, conclui a imagem dos opostos, do mesmo e do outro: o discurso politicamente correto e televisivo do carnaval pinta essa festa como aquela em que a identidade nacional se dá por meio da integração das classes; "Como sempre" apresenta outra versão, aquela em que a violência do cotidiano é romantizada, em que as explosões de crânio e as mortes da guerra civil urbana se trasmutam em metáforas amorosas e o preconceito racial é escamoteado por meio da ascensão social de uma exceção à regra - todos sonhamos, afinal, em ser Pelé.

O verso "MTV pra me distrair, drogas se entupir pra alienar a dor" fecha a imagem: a tv e as drogas distraem, aliviam a dor e ajudam a esquecer. Mas que dor? O que é que se quer esquecer? poderíamos perguntar. A dor que o Espírito do Carnaval não deixa ver, mas que está por trás da "maior festa popular do país" e que aparece escancarada, mas às avessas, em "Como sempre": a dor de experimentar, ao longo de todo o ano, a sensação de que o hoje é idêntico ao ontem e que será igual ao amanhã. É essa a dor que pretendemos esquecer na ofegante e vertigionosa epidemia que se chama carnaval.

O carnaval é esperado, o ano todo, porque nele experimenta-se a sensação fugaz que não se pode ter na vida cotidiana: a de que o futuro pode ser diferente. E depois dos breves dias de festa, que algumas regiões do país insistem em alargar, volta-se, como sempre, ao cotidiano raso, sem alternativas de futuro, a não ser o próximo carnaval. A canção dos Visitantes, por meio das entoações vocais, sintetiza a intensidade das sensações experimentadas nessa festa, em que os foliões vão aos extremos para gozar um breve momento de alienação da realidade e de fuga aos costumes e às regras que lhe são impostos no cotidiano, repetidamente - constatações que nos são jogadas na cara por meio do discurso inconsequente do Espírito do carnaval, que fala em "Como sempre".

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  2. Fábio Cardelli, um Visitante rockeiro ândergráunde, com a palavra – Blog da Identidade Musical linked to this post on 05/01/2010

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