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O rock pode mudar o mundo

E foi assim: Bernie Walbenny, da Belrock, me propôs, em dezembro, escrever um texto com o tema “rock e política”. Demorei a responder, em parte porque o desafio é grande. Mas, principalmente, porque mexe com algo em que acredito piamente – e que já tem me dado um trabalho desgraçado: o rock, sobretudo hoje, pode mudar o mundo.

Não digo isso sem algum medo. A primeira pergunta que deve ser posta é: toda banda de rock tem a obrigação de, nas letras e na sonoridade, querer mudar o mundo? E, embora possa parecer contraditório, respondo, inicialmente, que não. Vou me explicar.

Vejo o rock como uma forma de arte – da mesma maneira que outros gêneros musicais. E não podemos nos esquecer de que a arte pode servir, apenas, para desfrute estético do público que a degusta. Nem sempre procuramos obras de protesto, cuja finalidade é a sensibilização político-ideológica. Não faltam exemplos entre os grandes: os Beatles da fase “She loves you” são mais diversão do que conscientização; “Smoke on the water” nada mais é do que um relato de um incêndio, mas a música faz todo mundo pular; os Stones de “I can’t get no (satisfaction)” não deixam ninguém parado, e não fazem protesto político nenhum. E por aí vamos.

Acontece que, se examinarmos principalmente o exemplo dos Beatles, nas infinitas biografias da banda e de seus integrantes, se mergulharmos nas análises sobre a indústria cultural da década de 60, verificaremos que as canções da fase iê-iê-iê expressavam, do ponto de vista comportamental, uma ebulição daquele tempo que somente sentiu quem viveu. Não há ali nada de ideológico, claro está, mas certamente aquelas canções expressam um espírito da época que pode ser considerado, em alguma medida, revolucionário – trata-se de um presságio do movimento hippie, da defesa da paz e do amor, do sonho (que ainda não acabou, como pretendo defender mais adiante) de mudar o mundo, da luta pelos direitos dos negros e das mulheres, da tentativa de pensar alternativas de futuro para a humanidade.

Em poucas palavras: as canções, embora não fossem politizadas, dialogavam, em grande medida, com o mundo em que eram produzidas. Lembremos também que, na fase posterior a Revolver, os Beatles mergulham cada vez mais em propostas sonoras ousadas que colocam em xeque as “demandas” do mercado consumidor. Sgt. Peppers e o Álbum Branco “fundem a cabeça” de boa parte do público – para usar a expressão de Caetano Veloso, enquanto era veementemente vaiado no TUCA, em 1968, ao comentar uma canção de Gilberto Gil já no contexto da Tropicália. No vídeo abaixo, não há as imagens nem essa frase especificamente, mas pode-se ouvir a resposta de Caetano aos apupos do público:

A Tropicália é, aliás, outro movimento cuja proposta estética não era declaradamente engajada, mas que foi injustamente chamado de alienado na época, só porque nela estavam acirrados os ânimos e as diferenças ideológicas.

Os leitores, sobretudo os mais politizados, podem, evidentemente, contra-argumentar: não havia nas canções dos quatro de Liverpool, nem no Tropicália ou Panis et Circenses, nenhum projeto político-ideológico consistente e organizado. Fato, mas não nos esqueçamos de que a arte meramente engajada sempre corre o risco de deixar o terreno da arte para tornar-se mero panfleto. Entendo que não há pecado nenhum aí, apenas um risco: abandono da criação artística em detrimento do discurso político.

A alternativa pode ser, então, a criação de canções que, embora carreguem em si alguma dose (que pode ser alta) de crítica, saibam equilibrá-la com o capricho artístico. Somos roqueiros, mas aprendamos (sempre) com Chico Buarque: Construção, de 1971, certamente é fruto de um dos períodos de maior repressão política no Brasil. Trata-se sem dúvida de um disco engajado, em que Chico protesta contra a ditadura, mas sem restringir as letras e as composições ao contexto político da época, transcendendo-o – vide a atualidade da versão de “Deus lhe pague”, da Pitty, no vídeo abaixo acompanhada de Marcelo Nova e Frejat.

Há, além disso, um detalhe que precisa ser levado em conta: até bem pouco tempo atrás, para viver de música era necessário submeter o próprio trabalho às demandas da indústria fonográfica. Em resumo (mas os comentários a seguir merecem, todos, aprofundamento em textos futuros), pode-se dizer que qualquer discurso que fosse considerado “ameaçador” pelas majors poderia ser vetado – e jamais alcançaria o grande público. Da mesma forma, qualquer proposta musical mais ousada que não respondesse às fôrmas preconcebidas pelas grandes empresas do setor musical também poderia ser rejeitada devido à suposta inviabilidade comercial.

Hoje, com os recursos tecnológicos com que contamos, tudo mudou: qualquer proposta musical, por mais esdrúxula que possa parecer, pode ser viabilizada para o mundo via Myspace. Daí, uma hipótese: este é um momento especial para os músicos que têm talento para compor e que têm críticas a fazer. É especial porque muitos deles ficam no “trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar” e ficam esperando que o mundo descubra-lhes a genialidade. A estes preguiçosos digo que estão se omitindo: mais do que nunca, há espaço para eles – espaço que devem ocupar, para livrar-nos do lixo da indústria cultural. Mudo, pois, a resposta à pergunta que fiz no começo deste texto: todo músico – sobretudo o roqueiro – que tem uma proposta alternativa, no momento em que vivemos, tem, sim, quase que a obrigação de, nas letras e na sonoridade, querer mudar o mundo. Deixar de ter esse desejo é abandonar uma oportunidade histórica única.

O momento também é especial para aqueles que já lutam por espaço por meio da cena independente: deixemos de lado as bandinhas fúteis e comerciais – é óbvio que elas farão muito sucesso, ganharão muita grana e discursarão no Faustão contra a pirataria, em vez de lutar pelo barateamento do preço dos CDs ou dos downloads legalizados. É esse o papel que elas devem fazer, dada a sua infertilidade criativa e sua adesão à lógica das majors. Já o papel dos independentes é a formação de público: por meio de propostas sonoras inovadoras e de letras ousadas (que podem ser mais ou menos políticas, mas que certamente devem conter tom crítico), os independentes podem e devem formar um público cujo gosto musical seja mais exigente – e, por consequência, menos alienado e mais analítico, pensante.

Note-se bem: não estou fugindo da raia. Bernie me pediu que escrevesse um texto sobre rock e política. O que quis dizer nos parágrafos anteriores é que o termo “política” precisa ser precisado e delimitado, sobretudo quando associado a canções. Seria besteira exigir que todas as canções de rock debatessem o contexto político atual, primeiramente pelo risco de ficarem datadas – vejam o que aconteceu com “Luiz Inácio (300 picaretas)”, dos Paralamas do Sucesso, em que a crítica à política brasileira permanece atual, com a exceção do refrão.

Enfim: mesmo uma canção que não contenha letra explicitamente político-ideológica pode ser bastante provocadora e convocar o público à reflexão a respeito da realidade que o cerca – inclusive por meio da sonoridade. É o que fizeram os tropicalistas na década de 70; a Vanguarda Paulistana e o punk na década de oitenta; é o que fez o Manguebit e o Sepultura depois de Chaos AD na de noventa e até hoje, com os trabalhos conceituais associados à literatura; é o que fez o Lobão, ao inovar distribuindo CDs para venda em bancas; é o que fazem várias bandas independentes hoje: no que diz respeito a propostas musicais ousadas, cito apenas duas, sempre com a certeza de que estou deixando de fora muita gente boa: A Euterpia e Porcas Borboletas. (Sobre a segunda banda, clique aqui para ler uma análise que escrevi na Métrica do Grito).

Para concluir, porque já me alonguei demais: nem tudo é rock nos movimentos e bandas citados acima. Acontece que, em maior ou menor medida, ele sempre é parte integrante de propostas de sensibilização, conscientização e, até, de revolução. Investigar essa relação intrínseca do rock com a vontade de mudar o mundo (embora nem todas as bandas de rock proponham isso) e a afinidade que ele tem com outros gêneros, sobretudo no Brasil, para levar adiante essa vontade serão objeto das discussões por aqui. Que venham os debates.

Posted in Cena e Mercado.

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3 Responses

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  1. André Vinicius says

    Ótimo texto Tiago, parabéns.
    Só acho essa “expressão política”, quando feita de modo explícito, um pouco forçada.
    “Construção” é genial exatamente por isso, diz tanto e não é lugar comum.
    Nada contra a Pitty, acho que artistas como ela têm que existir, porém citar nomes de livros e achar que é cult e revolucionário, acho forçado.
    Enfim,tem que ter espaço pra todos.
    Abs.

  2. André Vinicius says

    Putz, que furada. Vi o link no Facebook do Tiago e achei que ele tinha escrito.

    Parabéns, Carlos.

  3. Carlos Rogério says

    André:

    Primeiramente, obrigado pela leitura e pelo comentário.

    De fato, as canções muito engajadas politicamente podem descambar numa panfletagem que mais prejudica do que contribui do ponto de vista artístico. O segredo está na justa medida entre o protesto que se quer fazer e a liberdade de expressão artística, que, ao menos na minha opinião, deve estar acima dos posicionamentos político-partidários. É o que acontece com Construção, do Chico.

    Quanto à Pitty, acredito que as citações podem ou não cair bem nas canções e nas declarações. Mais uma vez, tudo é questão de atingir a medida certa. Na sua leitura, ela passou da conta. Resta analisar a coerência dessa hipótese, em cada canção. Sugiro, por exemplo, a leitura de um texto que publiquei aqui na Identidade Musical, com a análise da canção “Medo”, da Pitty: http://identidademusical.com.br/blog/2009/06/01/pitty-outras-reflexoes/. Veja que curioso: há na letra da canção uma citação a Proust que eu não percebi quendo escrevi a análise. E lhe pergunto: a citação enriquece ou empobrece a obra?

    Sigamos nos debates!

    Abraço!



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