Dando continuidade ao post anterior, em que defendi que o rock podia mudar o mundo: o fato de uma canção não ser ideologicamente engajada não lhe tira o mérito. Mais do que isso: há canções que, apesar de não lidarem com questões sociais, tocam em conteúdos que estão diariamente presentes na nossa vida e que podem, em última análise, nos fazer rever as pequenas ações concretas que temos na realidade. E nesse aspecto, Nando Reis é mestre, como veremos. No vídeo abaixo, o compositor conta a AD Luna, no programa Mão na Massa, do Showlivre, alguns detalhes de seu processo de criação.
É impossível dissociar, como se observa no vídeo acima, o método de composição de Nando Reis de sua história nos Titãs. Ele atribui à banda do passado a criação coletiva dos arranjos que utiliza hoje, com os Infernais. Mas qualquer fã dos Titãs e de Nando Reis sabe que, para este dar vazão ao que tem de mais próprio, a saída da banda era inevitável. Foi somente na carreira solo que pudemos tomar contato com uma canção como “O Segundo Sol”, que servirá de exemplo para o que quero demonstrar neste texto.
Os fãs do Acústico MTV de Cássia Eller talvez estranhem o arranjo mais roqueiro da canção no vídeo acima. Já sabemos que grandes composições contemplam múltiplas leituras. Certamente é o caso de “O Segundo Sol”. À primeira vista, a letra é
tão simples que dispensa análise, sobretudo quando os ouvidos estão acostumados à versão de Cássia Eller; a introdução do arranjo do vídeo acima, entretanto, já antecipa a estranheza que talvez o leitor tenha experimentado na primeira vez em que ouviu a canção: “Quando o segundo sol chegar / Para realinhar a órbita dos planetas”. A imagem é assombrosa – lembra uma cena de Guerra nas Estrelas – e poética, ao mesmo tempo, principalmente se nos lembrarmos de que o sol dá calor a todos os planetas, mas que cumpre, solitário, essa função. A ideia de dois sóis no mesmo sistema sugere, de primeira, a noção de complementariedade, em que um sol fará companhia ao outro. Note também o leitor que a conjunção utilizada pelo eu que canta é “quando” – o que implica certeza quanto à chegada do segundo sol.
A imagem inicial se completa com o verso que explica a finalidade da chegada da nova estrela: realinhar a órbita dos planetas. Havendo dois núcleos, parece natural que a órbita dos planetas se reorganize em torno deles. E a imagem, agora, remete à reorganização e ao equilíbrio – e estamos a um passo dos discursos astrológicos, que partem do pressuposto de que a posição dos astros interfere na personalidade humana.
Mas a influência dos signos do zodíaco é afastada, momentaneamente: “Derrubando com assombro exemplar / o que os astrônomos diriam se tratar / De um outro cometa”. A astronomia é ciência, ao contrário da astrologia. Mesmo assim, a chegada do novo sol é surpreendente, até para os cientistas, que gostam de prever tudo. Quem viu aí a prevalência do imprevisto sobre o previsível já começou a entender a letra. E quem viu na introdução do arranjo um ambiente quase esotérico também acertou. Outro detalhe: o sol traz a ideia de permanência; o cometa, a de fugacidade.
Subitamente – tão subitamente quanto a chegada do segundo sol – a letra, que versava sobre o universo, sóis, cometas e planetas, é tomada por uma primeira pessoa que canta e uma segunda a quem a primeira se dirige que parecem trazer-nos de volta à Terra. “Não digo que não me surpreendi / Antes que eu visse você disse / E eu não pude acreditar”. O paralelo é simples e perfeito: o eu está na posição do astrônomo, surpresso com a novidade; o você cumpre o papel daquele que surpreende: talvez seja, este você, o próprio segundo sol de que fala a letra. Ele chega rápido como um cometa – mas permanecerá na vida do eu, como veremos adiante.
Não nos esqueçamos, ainda, de que o sol pode ser entendido como o começo, o início de um ciclo; é a imagem que surge, agora, na próxima estrofe: “Mas você pode ter certeza / De que seu telefone irá tocar / Em sua nova casa / Que abriga agora a trilha / Incluída nessa minha conversão”. O telefone do você vai tocar: parece que estamos no início de uma nova relação amorosa, em que os apaixonados se ligam incessantemente, fascinados da novidade do outro. Note-se: a casa do você é nova e abriga a trilha (o percurso) da conversão (da mudança) do eu. A imagem, repetindo a da primeira estrofe, é de reordenação da vida, um recomeço: a integração do eu e do você, que acabam de se conhecer, com a chegada da segunda pessoa. A trajetória de renovação do está traçada na casa do você. A “trilha” guarda, ainda, um elemento metalinguístico: podemos entendê-la no sentido de composição musical, como uma trilha sonora de cinema. E a imagem ganha ainda mais cor e força: nos filmes, a trilha pode servir para conferir unidade às sequências de imagens, que, em última análise, representam movimento.
Em poucas palavras, antes de analisarmos a última estrofe: com a chegada de um segundo sol, o universo deve alterar-se para alcançar a integração com o elemento novo, tornando-o parte de um todo que é coerente; o mesmo movimento e a mesma imagem se processam no estado de espírito do eu que canta, que se vê surpreso e fascinado pela chegada de um você, em nome do qual tudo se reorganiza.
Nos versos finais, temos a retomada da primeira estrofe e o fechamento da imagem: “Eu só queria te contar / Que eu fui lá fora / E vi dois sóis num dia / E a vida que ardia / Sem explicação…”. A ligação telefônica da estrofe anterior é retomada aqui, com o primeiro verso: o eu só queria contar ao você que, ao aperceber-se do ambiente em que está, viu-se tomado, cercado, aquecido por dois sóis, isto é, pela chegada do você. É o apagamento da surpresa inicial e o momento da integração definitiva: a vida arde sem explicação. Lembremo-nos de que o verbo “arder” significa “brilhar, emitir raios de luz” – exatamente o que faz o sol; e que a impossibilidade da explicação era exatamente a condição dos astrônomos no início da canção. Uma interpretação simples, mas muito forte: a chegada do amor, que aquece, abriga e reordena a vida, é imprevisível. E volta à canção o universo do inexplicável e do misterioso, associado aos discursos não-científicos. Ninguém ainda conseguiu explicar o amor e a capacidade que ele tem de fazer os homens se reorganizarem, subjetiva e objetivamente.
Além disso, a imprevisibilidade dos fatos da vida é um tema que não pode ficar de fora das canções modernas – porque esse tema faz parte da nossa existência. Em nosso tempo, é possível não acreditar em deus, mas, sendo homens, não podemos deixar de perceber que a vida, por mais que pareça, às vezes, imutável, guarda surpresas. E não podemos deixar de notar, também, que o fato causador das mudanças foi o amor - tema, na maioria das vezes, abandonado pelos engajados.
Quero dizer com isso que Nando Reis, nos Titãs, talvez tivesse pouco ou nenhum espaço para composições como “O Segundo Sol”. E antes que os fãs mais antigos dos Titãs – entre os quais me incluo – me ataquem, já respondo: as bandas, por mais democráticas que sejam, acabam tolhendo, de alguma forma, composições de caráter mais individual. E o que marca as canções de Nando Reis, até onde posso observar, é exatamente o universo subjetivo, das contradições internas, que coube cada vez menos nos trabalhos da banda: é por isso que “Me diga” está lá, no distante 12 de janeiro, álbum de 1994:
“Se eu acordo preocupado com as / Providências como uma conta no banco / Que eu não tenho dinheiro pra pagar / Isso me aflige e atrapalha / Faz com que eu não me dê conta / De outras coisas / Que eu deveria cuidar”: a impossibilidade de pagar as contas atrapalha a vida afetiva. Dilema de classe média, dirá alguém que exige dos roqueiros o engajamento vinte e quatro letras por disco. Talvez seja mesmo, mas quem é que nunca teve esse dilema? Os problemas pioram depois: “Dos meus filhos eu sinto saudade / Eu tenho medo que eles achem que / Eu não sinto a falta deles / Como eu acho que eles sentem de mim“. É crise do homem maduro que, para pagar as contas, tem de trabalhar e, para fazê-lo, tem de se distanciar dos filhos.
De certa forma, ao tematizar questões tão cotidianas em suas canções, ao tocar as feridas das contradições de nossa vida afetiva, Nando Reis é tão provocador quanto uma banda mais jovem, disposta a mudar o mundo por meio de letras engajadas – como foram os Titãs até mais ou menos 1993, com Titanomaquia. Digo mais: será que, sensibilizados pela audição de ”O Segundo Sol”, não ficamos dispostos a aceitar o amor como reorganizador da vida? E não será essa a mais revolucionária das propostas, repisada ao longo da história da humanidade e da canção brasileira - mudar o mundo por meio do amor?
Encerro este texto com as seguintes promessas para as semanas vindouras: uma análise de uma canção dos Titãs (já escrevi um artigo acadêmico sobre “Lugar Nenhum”, se alguém quiser ler) e uma de alguma canção nova de Nando Reis, do Drês, que ainda não consegui ouvir com calma. Por enquanto, fica abaixo o clipe oficial da canção “Ainda não passou”, que fala do estado afetivo oposto ao de “O Segundo Sol”: o da dor e da tristeza.

Percebi que eu devo a mim mesma a mudança. E que tenho o poder de mudar a mim somente, mas quando faço bonito o outro pelo menos reflete sobre si…e quando faço feio idem, por isso a responsabilidade de existir é grande. O amor e o odio podem transformar…Sejamos responsáveis.
Linamaria:
Acredito exatamente nisso: somos responsáveis (apenas) por nossas atitudes, mas elas têm implicações que vão muito além de nós. E concordo: sejamos responsáveis.
(Imagine a responsabilidade de quem compõe uma canção).
Obrigado pela leitura!
Se cada um de nós aceitasse a responsabilidade de colocar em ordem o seu próprio mundo emocional, a vida como um todo seria muito mais justa, mais humana e quiçá mais pacífica.
Tenhamos responsabilidade sim.
Concordo, Glauciene: a mudança começa de dentro da gente!
Obrigado pela leitura!
Amigo li sua interpretação da Musica do Nando Reis e discorco com voce.
A Letra fala do cataclisma que esta previsto para o ano de 2012 mais precisamento 21 de dezembro de 2012. + informações
http://www.porque2012.com
OU melhor entenda aqui nesse link
http://porque2012.com/porque2012.html
Prezado Carlos, adorei sua interpretação da música o Segundo Sol! Obrigada por compartilhar, de forma tão inteligente, a sua interpretação!
Carol:
Eu é que agradeço a leitura e a gentileza do seu comentário!
Forte abraço!
@Fabio voce deve estar louco por chamar atenção né mesmo?
2012 é mais um 2000 da vida, não seja manipulado pela mídia, sai dessa prisão para sua mente.
2012 vai fazer muitos cientistas e datistas com a cara no chão