Na terceira edição da festa Noites do Bem, no próximo sábado, teremos o prazer de receber a banda Anacrônica, de Curitiba. E teremos a chance de ouvir duas canções que chamam bastante a atenção. A primeira dela é “Vestígios”:
A questão do tempo é fundamental para a banda curitibana: anacrônico é adjetivo que se atribui àquilo que está fora do tempo, da moda ou de uso – e já fica dado, assim, o recado de que a banda não tem a preocupação de seguir a “bola da vez”. Ao contrário: suas canções, embora pertençam ao que se pode chamar genericamente de rock and roll, têm, cada uma, nuances especiais que merecem atenção.
Em “Vestígios”, por exemplo, a questão do tempo também já parte do título. Só deixa vestígios quem marcou sinais no passado, que persistem até o presente. É curioso: os dicionários trazem a palavra ruínas como sinônimo de vestígios – significado que nos será bem útil.
Os versos da primeira estrofe confirmam a hipótese de que é o tempo que está em análise na canção: “Quanto pode viver / Por ser passado? / Quem me pode dizer / Se é errado / Só não tente esconder / Os vestígios deixados / Por todo o seu caminho”. O eu que canta expõe em poucas palavras um dilema que todos vivemos: quanto do que foi feito no passado nos compõe a personalidade? Em outras palavras: somos os erros que cometemos? Eles compõem nossa personalidade? Em que proporção? Numa leitura plausível dos versos acima, mesmo que tenhamos deixado no passado esses erros, mesmo que os tenhamos superado, eles necessariamente deixam marcas – os vestígios do título – em nosso caminho.
Uma conclusão possível é a de que, embora possam ter sido superados, erros fazem parte da construção da identidade daquele a quem o eu da canção se dirige. Daí as aflições da segunda estrofe: “Como posso sentir / Não ser amado / Quando vejo você / Bem ao meu lado?”. O eu da canção sofre por não ser amado por aquele a quem se dirige: apesar de estarem lado a lado, num aqui e agora que poderia, hipoteticamente, desconsiderar o passado maculado de vestígios, ambos estão distantes – subversão das relações temporais e espaciais. “Como posso te ter / Se ao menos posso me ter?”: se as relações de tempo e espaço estão trocadas, se o eu que canta experimenta a contradição de estar ao lado do ser amado sem poder tê-lo, estarão ambos ali? Pior: se o passado é capaz de contaminar e embaralhar o presente, quem é o eu presente senão um resultado de vestígios passados?
O leitor terá percebido que esta análise, de certa forma, traz mais perguntas do que afirmações. São os versos e a estrutura melódica que conferem esse ambiente de dúvida à canção, que se conclui com o alongamento da última sílaba de uma série de quatro perguntas que podem ser consideradas síntese de todos os embaraços relatados na letra: “Pra que fugir? / Pra que voltar? / Pra que mentir? / Pra que amar?”.
Mas não adiantemos a conclusão. Já vimos que, em “Vestígios”, o eu que canta se vê mergulhado na dúvida entre as determinações das ações do passado sobre o presente, e que essas determinações carregam consigo o dilema a respeito da própria identidade. Não é possível abandonar ou esquecer os erros passados e construir tudo do zero, afinal nossa identidade se compõe, também, por meio de arrpendimentos, deslizes e besteiras que fizemos. É o que se observa em “Como posso viver sem ser errado? / Como irei aprender / Sem ter passado / Como posso me ter junto ao teu lado / Com mais um milhão de pessoas?”. O que o eu que canta procura é, de certa forma, fazer síntese do passado e seguir adiante, no presente, junto com a pessoa amada. Há nesse projeto, contudo, um entrave: “mais um milhão de pessoas” que desviam a atenção daquele a quem o eu se dirige ao longo de toda a canção. Uma possibilidade de análise é a de que o outro, o amado, comprometido e ainda perdido em meio aos vestígios do que fez, não pôde encontrar-se; não pode, pois, encontrar-se com o eu. De forma bem concisa, só é capaz de partir para o amor quem está conciliado consigo mesmo, isto é, quem está em paz com os próprios erros que cometeu no passado. Mais do que isso: só é capaz de aceitar o passado maculado do ser amado quem já está em paz com o seu próprio passado.
Antes do refrão, é preciso analisar a estrofe mais doída da canção, aquela que sinaliza a impossibilidade de livrar-se dos dilemas temporais e identitários que já vimos acima: “Quando irei entender o seu traçado / Quando a vida nos fez tão mal amados? / E os vestígios talvez / Tenham sido traçados só pra mim”. O eu que canta e seu amado talvez não possam jamais estar juntos (apesar de estarem lado a lado), porque o que lhes faltou no passado foi, exatamente, a experiência do amor. Já não se trata mais, aqui, de constatar que ambos erraram no passado, mas que lhes faltou amor – daí a impossibilidade de acertarem e de se acertarem no presente. Nos dois últimos versos, a ideia inevitável e odiosa de que os vestígios, isto é, os erros todos do passado, tenham sido cometidos apenas pelo eu que canta, lamentando, assim, a incapacidade de conquistar o amor do outro no presente.
Esse ar de lamento é realçado pelos backing vocals, sempre alongando as vogais, como se permeasse toda a canção a queixa pela constatação da impossibilidade da conjunção amorosa – que é, em última análise, também, a impossibilidade de conjunção consigo próprio, como se a falha afetiva em relação ao outro fosse também uma falha do próprio sujeito da canção. Não conseguir concretizar o amor é permanecer fraturado em si mesmo, e o eu que canta em “Vestígios” já não sabe o que é que dói mais.
Finalmente, o refrão ajuda a compreender essa barafunda afetiva e identitária em que se vê metido o eu: “Medo / Quando quis você em segredo / Escorrendo pelos dedos / A idéia de ser perfeito”. Talvez, o principal impeditivo da conjunção amorosa tenha sido a idealização do outro; escorreu pelos dedos do eu da canção a imagem perfeita que fazia do ser amado. Mas aí, já tomado do amor pelo outro apesar das imperfeições, resta lamentar: “Tê-lo / Como quase um castigo /Quando vejo os vestígios / Do passado que te fez”.
O amor concreto, real, cotidiano, talvez não seja mais do que isso: a eterna tentativa de continuar amando o outro, apesar das novas imperfeições que ele segue revelando com o passar do tempo. E nossa época, talvez, seja a primeira na história em que ninguém seja obrigado a seguir adiante na relação amorosa quando se depara com essas surpresas que se mostram cada vez mais e mais ligadas ao passado dos seres amados que imaginávamos conhecer. Podemos abandoná-los, é claro. Mas sempre ficarão as perguntas: se abandonamos os amados à primeira decepção, o que vivíamos era amor de verdade? Se ficamos juntos, em que medida estamos exercendo nossa liberdade e superando um passado que não é nosso, uma tradição das relações eivadas de submissão?
Em “Vestígios”, da banda Anacrônica, diante da constatação de que continua amando um outro apesar dos defeitos que ele segue apresentando, o sujeito da canção põe em xeque sua própria identidade. Quem sou eu, que me submeti ao amor? Vejo no ser amado os erros passados que ele insiste em carregar; é o ser amado apenas esses erros? Ou os erros são apenas vestígios, ruínas, do que o ser amado já foi? E eu, tendo desconstruído o ideal que fazia do ser amado, continuo a mesma pessoa? Ou sou eu, também, uma ruína do que fui, minada dos erros passados que cometi?
E se o amor traz todo esse processo de implosão de mim e do tempo, mas mesmo assim insisto em amar, “Pra que fugir? Pra que voltar? Pra que mentir? Pra que amar?”: são essas as perguntas que a canção deixa em aberto, ecoando na mente do ouvinte, assim como os backing vocals e o refrão, sem que se alcance uma resposta conclusiva. É evidente: a sensação de vazio identitário investigada ao longo de toda a canção, em que o passado ecoa no presente e acaba por determiná-lo, está fora do tempo, além do tempo. É Anacrônica.
Na quinta-feira, será publicada aqui a análise da canção “Eles me querem assim”, também da Anacrônica. Encerro este post convidando a todos os leitores para assistir ao show da banda no próximo sábado, na Livraria da Esquina, na Rua do Bosque,1236, na Barra Funda.
Abaixo, uma versão recente, ao vivo, de “Vestígios”:
Até sábado!

Oi, hoje estava lendo o blog de vocês (atraida pela analise de medo, da Pitty hehe) e gostei muito do texto “”Artistas, público e críticos – Parte II (o Efeito Pitty e a formação do público)”. Decidi falar sobre ele no meu blog, dando a minha opinião, sobre o que eu entendi, usando os trechos nos quais eu acho que existe uma grande discução.
Se quiserem ler e dar a opinião…se o que eu falei tem a ver com isso mesmo, se faz sentido, aqui esta o link: http://blacksheep-yeah.blogspot.com/2009/07/nunca-curti-essa-coisa-de-postar-o-dia.html