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Garotas Suecas: o equilíbrio e a explosão, o yin e o yang

Uma banda explosiva ronda a canção independente: trata-se das Garotas Suecas, que estiveram na última quarta-feira, 29 de julho, no Estúdio Showlivre. Quem teve a chance de assistir à apresentação dos caras saber por que me refiro à banda como explosiva: ao vivo, sem os arranjos cuidadosos das gravações, a banda soa mais crua, pesada, sem perder o balanço soul em que também bebe – e que lhe confere o equilíbrio do título acima, num resultado delicado, que talvez explique o sucesso e a simpatia que banda vem angariando entre a crítica e o público nacional e internacional.

Não tem muito jeito: a mais contagiante de todas as canções da banda, de letra simples, em que o equilíbrio da explosão se faz perceber mais nitidamente, “Codinome Dinamite” talvez seja a síntese do trabalho das Garotas Suecas.

Começando pela letra, cujos três primeiros versos contêm o aspecto explosivo da banda: “Meu codinome é dinamite! / Meu apelido é explosão! / Queimando as cordas pela pista eu sigo em plena contramão”. Notemos que “codinome” é, segundo o Dicionário Houaiss, uma “designação que serve para ocultar a identidade de alguém ou para nomear de maneira secreta um plano de ação, uma organização”. Já lancemos de primeira a hipótese de que a “organização secreta” por trás da qual se oculta o eu que canta é a própria banda Garotas Suecas.

Essa dimensão algo misteriosa – que passa despercebida devido à melodia e aos arranjos contagiantes, que fazem dançar logo quando soa o primeiro riff – segue adiante com a expressão “queimando as cordas”, que não está registrada nem no Aurélio nem no Houaiss. Fica aberto o espaço dos comentários para que os leitores deixem suas interpretações, porque certamente muitas são possíveis. Assumo aqui, num primeiro momento, a hipótese meramente musical, sonora: a de que a expressão significa “tocar os instrumentos de corda à exaustão”. O eu que canta e sua banda são explosivos musicais, que só veem sentido na contramão – por isso é que ela lhes parece plena.

A imagem formada com a leitura acima é bastante significativa: o eu se disfarça com codinome e apelido porque encarna, por meio de suas canções, o sentido explosivo do proibido, na contramão do que é comportado, aceito ou recomendado. E é claro que o queimar de cordas pode representar aqui a transgressão, de modo geral.

Os três versos acima se repetem nas duas estrofes, seguidos de variações e, depois, de outros dois que se repetem, à moda de refrão: “E eu não preciso te dizer,que do meu lado é pra valer! / Do meu lado é pra valer”. Aquela a quem o eu se dirige é a garota que surge na primeira variação: “Garota, escute com cuidado… / Sou osso duro de roer! / E se eu te agarro pela noite eu largo em pleno amanhecer”. São versos de interpretação mais fácil do que os anteriores, mas não menos importantes: a explosão do eu também é, evidentemente, de ordem sensual, quase erótica, que se transfere para a sonoridade – talvez seja por isso que as canções das Garotas Suecas sejam tão dançantes, afinal a dança sempre remete, em alguma medida, ao sexo. Os movimentos ritmados do corpo, sugeridos pela música, são, desse modo, inevitáveis. E é por isso que, ao lado do eu que canta, tudo é pra valer, tudo é intenso.

Mais importante ainda é perceber que, embora seja um incendiário, o eu que canta só está completo se, ao seu lado, tem a garota. Em palavras simples: toda a intensidade do eu só fará sentido se for percebida – de certa forma, arrisco dizer, se for absorvida – pela garota. É ela que deve escutar o eu com cuidado; é ela que será agarrada à noite e largada em pleno amanhecer. Em síntese, só faz sentido ser o eu que canta se a garota estiver ao seu lado – declaração de amor ímpar, mas fundamental para entender o equilíbrio da explosão. Repito: toda energia expandida do eu só faz sentido se partir dele com destinação à garota.

Quem se lembrou, nos versos analisados nos parágrafos anteriores, das letras mais jovens de Roberto e Erasmo Carlos não se equivocou. Na segunda parte da canção ouve-se que “Não vá pensar que no meu peito, não bate nenhum coração… / Mas quem acompanha o Homem Brasa é a Garota Explosão!”. O Homem Brasa não só alude à dinamite e à explosão, mas também à gíria “é brasa”, dos tempos de Jovem Guarda; a Garota Explosão pode ser a versão moderna da garota “Papo Firme”, que “é mesmo avançada / E só dirige em disparada”, que “Está por dentro de tudo / Só namora se o cara é cabeludo” e que “Se alguém diz que ela está errada / Ela dá bronca, fica zangada / Manda tudo pro inferno”, em composição de Renato Corrêa e Donaldson Gonçalves, imortalizada por Roberto Carlos.

O encanto pelo proibido, por sua vez, traz à mente “É proibido fumar” – cujo vocabulário dialoga bastante com o de “Codinome Dinamite”:

É proibido fumar, diz o aviso que eu li
É proibido fumar, pois o fogo pode pegar

Mas não adianta o aviso olhar
Pois a brasa que agora eu vou mandar
Nem bombeiro pode apagar

Eu pego a garota e canto uma canção
E nela dou um beijo com empolgação
Do beijo sai faísca e todo mundo grita
Que o fogo pode pegar

Nem bombeiro pode apagar
O beijo que eu dei nela assim
Nem bombeiro pode apagar
Garota pegou fogo em mim

Sigo incendiando bem contente e feliz
Nunca respeitando o aviso que diz
Que é proibido fumar

As semelhanças não são poucas. Além da escolha das palavras, as imagens são similares: a opção pelo proibido (“Nunca respeitando o aviso que diz”), o universo sensual em que “do beijo sai faísca” (que lembra a imagem do Homem Brasa e da Garota Explosão), o eu que encarna o incendiário – do lado dele, tudo é pra valer, é intenso, explosivo – seja no beijo, seja na canção, que acaba por atear fogo ao ouvinte.

Assim, se, de um lado, as Garotas Suecas se destacam pela atualidade de levarem a carreira na independência, de outro não deixam de dialogar livremente com a tradição da nossa canção. Esse equilíbrio do ponto de vista profissional e criativo corresponde a outro, no universo das letras e da sonoridade. Já vimos que o caráter explosivo do eu só faz sentido se for absorvido pela garota a quem ele se dirige. Percebamos agora que, na segunda parte da canção, os papéis se invertem, alcançando, contudo, o mesmo resultado: a intensidade da Garota Explosão só fará sentido se for integrada, partilhada e, de certo modo, atenuada pelo Homem Brasa. Note-se: ambos remetem ao calor, mas, enquanto ela é explosiva, ele – cujo codinome é dinamite – é brasa, explosão concentrada. Ou seja: ela e ele, juntos e conjuntos, compõem o sentido do proibido, da contramão, da explosão, alternando papéis, mas sempre com um ao lado do outro. Trata-se de uma imagem amorosa que só foi possível compor em nossa época: a garota não fica relegada a um papel subalterno.

O parágrafo anterior dá margem a muitas interpretações. Note-se, por exemplo, que a banda cujo nome é Garotas Suecas – que nos leva a imaginar um conjunto só de meninas – é composta por cinco rapazes e uma garota, como se a predominância do gênero masculino sobre o feminino fosse compensada pelo nome, numa relação yin e yang bastante particular, que sugere, ao mesmo tempo, igualdade e diferença dos gêneros. Do ponto de vista das letras, versos simples guardam sentidos mais densos – como uma concepção amorosa igualitária – e diálogos significativos com a história da canção brasileira; na sonoridade, a banda harmoniza influências de Otis Redding, Roberto e Erasmo, Tropicália, Tim Maia – na plenitude da contramão, imediatamente transmitida à platéia, que não consegue ficar parada.

Não é à toa que o público norte-americano tenha deixado de lado, ao ouvir e curtir as Garotas Suecas, a barreira da língua: quando toca o equilíbrio da explosão, a banda expressa ideais de amor e de liberdade, ainda tão distantes da realidade concreta, mas extremamente concretos no universo da canção. Talvez o projeto oculto pelo codinome dinamite seja exatamente este: o de fazer perceber, por meio do som e do movimento, que as diferenças não podem ser apagadas, mas que podem integrar-se de modo equilibrado.

Posted in Audio, Máquina do Tempo.

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