Depois que Alex Antunes redigiu um texto a respeito do novo trabalho das Porcas Borboletas, A passeio, quaisquer palavras que eu escreva por aqui serão em vão. Paguemos o tributo aos mestres que o merecem: limito-me a reproduzir a seguir um fragmento que sintetiza bem tudo que as Porcas fizeram até agora:
"Juntar o que a MPB e o rock têm de melhor, por exemplo. Escrever boas letras em português (não por nada em especial, é só porque é a língua que falamos). Temperar o cinismo que a inteligência aconselha com algum afeto pelas coisas boas da vida. Cuidar mais dos arranjos e instrumentações (não por nada em especial, é só porque a música tem maravilhosas possibilidades). Gozar com o que é sério em excesso, mas sem confundir o hoje infame rótulo “irreverência” com um salvo-conduto para a babaquice. Enfim, coisas: juntar porcas com borboletas, se não era pedir demais".
Para dar um gosto do trabalho novo dos caras, segue abaixo o clipe da canção que dá nome ao trabalho:
Quem acessar o Myspace da banda, terá a chance de ouvir a canção "Menos", com letra de Enzo Banzo e de Clarah Averbuck, a que mais me agradou nas primeiras audições, rápidas e ansiosas.
"Eu sei" é o primeiro verso, com afirmação isolada que orientará quase todos os outros - salvo o último, como veremos. O leitor perceberá, logo na primeira audição, que a linha de baixo e a bateria criam a ansiedade correspondente ao conteúdo da letra, em que o eu que canta relata tudo que seria razoável e mais adequado fazer. É iminente, contudo, a sensação de desajuste, porque o eu não corresponde às expectativas externas a ele: "eu sei que não era pra eu ser assim". Instala-se, aí, a crise expressa em "Menos", o divórcio entre o que o eu é e o que ele deveria ser.
Os versos seguintes sinalizam que já houve tentativas do eu de adaptar-se àquilo que ele não é, mas que o assombra e persegue o discurso do correto e adequado: "que eu deveria tomar as doses nas horas certas". Em suma, estamos diante de um eu que tentou, até alopaticamente, cumprir aquilo que dele se espera. Tentativa malograda, porque, como se verá a seguir, quando se trata do eu das Porcas Borboletas (acentuadamente provocador devido às contribuições de Clarah Averbuck), jamais haverá submissão a modelos de comportamento preestabelecidos: por meio de apenas um recurso expressivo, na letra - a antítese entre menos e mais (esta última, palavra que surpreendentemente não aparece no texto), as Porcas são capazes de subverter o discurso dominante, confirmando a análise de Alex Antunes.

Capa de "A Passeio"
O receituário segue: "eu sei que eu devia dormir boas noites de sono / e que eu devia fumar menos / escovar os dentes com pastas pra gengivas sensíveis / e perambular menos na rua quando todo mundo já foi / e não me jogar tanto quando alguém me abre os braços". Tentativas de ser o que não é perpassam as ações do eu, de sua vida afetiva a sua higiene pessoal, de seus hábitos a seus vícios. Mas as restrições se acentuam, da mesma forma que a expectativa marcada no arranjo musical, numa inversão curiosa - a subversão poética do eu da canção: se vivemos na lógica da proibição e dos limites, em que todos os excessos e todos os exageros são condenáveis em si, o grande dilema do eu que canta em "Menos" é não ser intenso - exatamente aquilo que lhe confere autenticidade. Cercado de recomendações de comedimento e prevenção, o eu sabe que só pode individuar-se por meio dos excessos, porque tudo que é equilibrado e recomendável faz dele um ninguém igual aos outros. "E beber menos / E amar menos / Eu devia parar": neste último verso, a guitarra deslancha brevemente, como que sinalizando uma certeza provisória, mas atormentada, do que é recomendável fazer - como se a racionalidade pudesse orientar as ações do eu, eliminado-lhe as contradições e trazendo-lhe o equilíbrio pasteurizado das revistas de auto-ajuda e saúde.
"E pensar menos / eu sei que eu devia pensar menos": pensar menos seria, exatamente, aceitar as recomendações acima, mas com inversão curiosa, porque pensar menos é, no limite, dar-se aos desejos não orientados pela razão. Surge então a reversão proposta pelo eu: "e falar menos / eu sei que eu devia falar menos / pra viver mais / eu sei que eu devia viver menos / mas eu não sei viver menos". A antítese que conclui e resolve o texto está posta: é melhor viver mais, cronologicamente, sob a orientação da razão, que pode medir tudo? Ou é melhor viver menos - cronologicamente -, mas viver mais intensamente? O eu que canta, em "Menos", responde-nos a essa pergunta, objetivamente, no título da canção: prefiramos o menos mais intenso ao mais medíocre.
"Mas eu não sei viver menos": a pronúncia equilibrada desse verso coroa o jogo entoativo da canção e a força da letra, pois talvez a única resignação do eu que canta em "Menos" seja referente a sua intensidade - antítese que faz de "Menos", muito mais do que aparenta à primeira audição.
Precisa de mais? Teremos a chance de assistir à banda na próxima quinta-feira, a partir das 23h, no Studio SP.



isto fooi mtw paia
falla sobre tudoooo o que eu naum queroo saber
i o importante sobre as borboletas n fala nada
eu em ?