Nunca vi nada parecido com o show das Porcas Borboletas no Studio SP, na última quinta-feira. Restou-me redigir intuitivamente, com a força da perspectiva em primeira pessoa, sem preocupações objetivas, por aqui, as fortes impressões que a banda mineira me causou.
Qualquer epifania precisa de preparação. Com isso quero dizer que ainda não me acostumei com os horários praticados nas casas noturnas, sei lá, de uns dez anos para cá, embora tenha começado a entendê-los. Quinta-feira, mais de meia-noite, quando Barizon e eu entramos no Studio SP, não havia mais de dez pessoas na casa. Preocupei-me, porque queria que o lançamento do CD do Porcas, em São Paulo, fosse memorável - a cena daqui tem precisado de espetáculos memoráveis para fortalecer-se. O que parecia quase impossível para meu pessimismo aconteceu e, antes que o Cérebro Eletrônico entrasse no palco, a casa já estava cheia.
Quem já viu o Cérebro em ação sabe que o show da banda chama a atenção por muitos motivos - do repertório, é claro, ao figurino, especialmente os trajes de Tatá Aeroplano, sempre de chapéu, espocando papel brilhante pelo palco, sem perder a leveza que se espalha no espaço quando os caras tocam "Pareço Moderno". Se acompanharmos atentamente a letra da canção, perceberemos que há ali algumas aflições (manias, surtos, nóias) - mas que elas jamais prejudicam o todo, que é equilibrado, principalmente pelos efeitos tão caros à banda, que seguem ecoando no público e na casa. Em resumo, com outras palavras, permitindo-me as impressões mais diversas: o Cérebro não só abriu para as Porcas, no sentido tradicional do termo, mas também abriu a disposição e a percepção do público para o show que viria a seguir.
Foi bonito o que Tatá e seus asseclas aprontaram, porque foram anfitriões mais que especiais. Quando falamos, aqui no blog, a respeito de formação de público e fortalecimento da cena, temos na cabeça práticas que rolaram na noite de quinta - a banda da casa cedendo espaço e atenções à banda visitante, valendo mais a festa coletiva do que quaisquer egos inflados. O público ganha muito com a proximidade entre bandas, porque o potencial criativo só aumenta. Inclua-se aí a participação de Hélio Flanders, do Vanguart, no espetáculo do Cérebro e das Porcas. A atmosfera era de integração, de abraços, de encontro.
A expectativa, portanto, acentou-se fortemente quando as Porcas preparavam-se para tocar. Todos os fumantes tiveram de sair para dar uns tragos antes da entrada da banda, todos os presentes pediram mais uma bebida - todos queriam viver mais, transformar a experiência de ver Porcas Borboletas em algo mais intenso, sem que se estragasse a harmonia que imperava no ambiente.
Já vi muito blogueiro reclamar do público - afirmando que este não participa, que não está disposto a novas experiências, que só quer os enlatados do rádio. Afirmações que são, na maioria das vezes, verdadeiras. Quem estava no Studio SP na quinta-feira, contudo, terá revisto essas generalizações. Em termos bem simples (porque não estou muito disposto a polêmicas hoje, ainda contaminado que estou do clima de quinta à noite): quando as canções e a banda são boas, quando os arranjos tiram o ouvinte da acomodação previsível das FMs, quando as letras provocam, o público se hipnotiza pelo espetáculo e se integra a ele.
É bonita a imagem que roubo às aulas de Luiz Tatit: a revelação, a epifania com a arte, o momento do arrepio com a canção, da lágrima que corre descontrolada, acontece quando nossos objetos de análise - a canção, o filme, o poema - tomam vida; deixam, portanto, de ser objetos e se tornam sujeitos - atuam sobre o público, emocionando-o, provocando-o, excitando-o, incitando-o.
O espetáculo das Porcas Borboletas é rigorosamente tudo isso. As canções que fazem pular são as mesmas que fazem pensar - e nos tomam de forma tal que nos emocionam os versos introspectivos de "A passeio"; causa revolta o mundo das celebridades artificiais em "Estrela Decadente"; mas nos diverte a imagem do "Super-herói playboy", num efeito muito próximo do que talvez seja a dupla função intrínseca da boa canção: divertir e provocar; fazer curtir e fazer pensar. Sério, Enzo Banzo encara o público, fixa o olhar num ponto da platéia, como que à procura das impressões, como se colecionasse tudo que a banda causa no público. Danislau toma goles de cerveja que lhe oferecem, senta no chão, ao lado da bateria, sorri, planta bananeira, sai do palco, volta de bermuda e camiseta, em perfeita integração com os parceiros e a platéia. A sonoridade e os barulhos de Ricardim e de Jack chamam a atenção - a lata de tinta voa alto, cai no chão, assusta quem está mais próximo, diverte quem já se acostumou - mas não roubam a cena, amarram-se ao todo, aos arranjos de Moita, Rafa e Vi e aos gritos titânicos de toda a banda, que nos avisam que não vamos pro céu nem seremos estrelas.
Habitam o palco, com toda a banda, presentes ou não, todos que contribuíram com A passeio: Simone Sou, Alfredo Bello - o DJ Tudo - e Hélio Flanders (mais uma vez ele) marcaram presença física, mas também sentem-se os ares e os quês de Arrigo Barnabé, Bocato, Junio Barreto, Paulo Barnabé, Marcelo Monteiro, Gui Cotonete, Arthur de Faria, Marcelo Jeneci. Estão todos lá, ainda que não estejam. E ao final, o espetáculo vira festa, o palco é tomado por alguns representantes da platéia - e sobem Tatá Aeroplano, Rangel, Daniel Belleza.
Amparado pelo bar, não entendia bem o espetáculo que tinha visto, as canções ecoavam - ecoam até agora - no labirinto da alma, todas elas, cada uma delas - e fico, desde então, a passeio tortuoso mas delicioso dentro em mim, com a certeza de que as horas de sono que perdi são horas de vida que ganhei, porque não sei viver menos. Posso sentir até agora tudo que as Porcas Borboletas fizeram vibrar ali, naquele dia. Minas Gerais é terra de poetas assim, tem Drummond, tem Guimarães Rosa, tem Porcas Borboletas.
Na minha saída, dei um abraço forte em Banzo, esbocei-lhe, confuso, estas impressões, ainda desorganizadas naquela hora, e fui-me embora, dizendo ao Barizon que tive uma epifania.


Porca puttana, que sonzera dos borboletas!! Lembrou-me Arnaldo Antunes.
Daniel:
Sem dúvida, o som dos Porcas dialoga muito com Arnaldo Antunes e os Titãs. Se puder, dê uma ouvida em "Eu", texto de Arnaldo, versão Porcas: http://www.arnaldoantunes.com.br/sec_discografia_obra.php?id=620
Abração!
Rogério
belo texto. obrigado!
belo texto, obrigado!
FODA!
gostei do texto, escreves super bem. quem me indicou foi o fábio do móveis. e acabei passando e folheando outras páginas. gostei. vou estar a desbravar por muitos outros tantos.
gracias
Júlia:
Duas alegrias pra nós: primeira, a sua leitura; segunda, o fato de você ter sido indicada pelo Fábio do Móveis.
Faça os comentários que quiser por aqui!
Grande abraço!