O texto abaixo foi um dos primeiros que publiquei na “Métrica do Grito”, no Showlivre. Republico-o aqui por causa de um post bombástico, no blog Tudo Jóia, intitulado “O rock brasileiro precisa morrer”. Não conheço o autor, nem conhecia o blog anteriormente (tomei contato com ele via Twitter, numa postagem do Roger, do Ultraje a Rigor), mas o conteúdo do texto e a clareza da redação me impressionaram muito positivamente. Deixei um cometário por lá, afirmando que, embora concorde de forma geral com as opiniões expostas no texto, escreveria um outro, discordando parcialmente de algumas delas. Como ainda não tive tempo de escrever essa resposta, fica, por enquanto, a análise de “Bete Morreu”, que segue abaixo.
Conheci o rock brasileiro com o Camisa de Vênus. Me lembro até hoje de ir à casa de meu primo César, um pouco mais velho do que eu, meu ídolo, naquela época, por estar sempre cercado de namoradas e amigos cabeludos; fascinava-me vê-lo tocar, no baixo, insistentemente, por horas, “Bete Morreu”, música que me causou impressão muito forte: eu nunca vira um instrumento musical na minha frente, aprendia o que era um músico de verdade ali, de uma vez; ao mesmo tempo, a letra me parecia cruel demais, mostrava-me uma realidade a que eu não estava acostumado, sequer sabia que podia existir. Não tive dúvida: deixei de comer lanche por mais ou menos um mês e fui a uma loja de discos, atrás de qualquer LP do Camisa de Vênus que estivesse disponível. Comprei o Viva, gravado ao vivo no Caiçara Music Hall, em Santos.
O aviso “Este disco não foi remixado. Você ouve o que aconteceu no show. E ouça alto!” deixava-me empolgado com a hipótese de conseguir ouvir, caso aumentasse o volume, algum segredo que porventura estivesse escondido ali; também me excitava um alerta na capa: mais da metade das músicas não tinha sido submetida à Divisão de Censura de Diversões Públicas – resquício da Ditadura Militar – e, por isso, não era autorizada sua execução pública e radiofônica. Eu ficava imaginando que tinha, em minha casa, uma preciosidade proibida, que meus colegas do colégio desconheciam, porque não tinham um primo músico que lhes mostrasse o que era o rock brasileiro que efervescia naquele período.
Não era preciso aumentar o volume para descobrir o segredo do Camisa de Vênus: letras agressivas, cheias de palavrões – o que eu adorava –, com versos nada politicamente corretos, como os de “Sílvia”, que eu cantei em toda rodinha de violão que freqüentei desde aquele dia. É claro que demorei anos para entender muitos deles, como estes, de “Metástase”: “Freud sacou um dia / que ele podia pirar / mas havia centenas / para ele analisar / – o seu problema / é esquizofrenia / agora pague e volte outro dia”. A ironia – a cara da banda – estava toda ali, mas eu tinha apenas dez anos de idade; faltavam-me muitas das referências para entender a crítica ácida que Marcelo Nova fazia; aliás, muitas músicas do Camisa é que me levaram a procurar quem eram Freud e Marx, ou o que eram metástases e dogmas tecnofascistas. Aprendi o que era rock com meu primo; aprendi o que era o Brasil, de fato, com o Camisa de Vênus.
Se não me engano, “Bete morreu” é a canção que fez o Camisa explodir. Precisamos tomar cuidado com essas músicas: elas tocam tanto nas rádios que nós, fãs, as cantamos sem pensar na letra, mais ou menos o que aconteceu com “Eduardo e Mônica”, da Legião, “Meu erro”, dos Paralamas, ou mais recentemente, “Malandragem”, de Cazuza e Frejat, gravada pela Cássia Eller. Na literatura acontece a mesma coisa: não tem quem não conheça, de cor, a primeira estrofe da “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias (“Minha terra tem palmeiras”) ou os versos finais do “Soneto de fidelidade”, de Vinicius de Morais (“Eu possa me dizer do amor (que tive): / Que não seja imortal, posto que é chama / Mas que seja infinito enquanto dure”). De tanto repeti-los, porque eles são mesmo bons, acabamos por esvaziá-los, e eles viram frases feitas, que cabem em qualquer contexto. Vamos tentar, portanto, restituir a força de “Bete morreu” e entendê-la na época em que se insere.
É preciso perceber, primeiramente, que o Camisa de Vênus é uma banda da Bahia, estado de origem de Gregório de Matos Guerra, Dorival Caymmi, Raul Seixas e Caetano, todos exímios poetas, só para citar os mais conhecidos. O primeiro deles viveu no século 17 e cantava as menininhas bem ao estilo de sua época, nos últimos versos do soneto “A Maria de Povos”, sua futura esposa: “Goza, goza da flor da mocidade, / que o tempo troca, a toda ligeireza, / e imprime a cada flor sua pisada / Oh não aguardes, que a madura idade / Te converta essa flor, essa beleza, / Em terra, em cinza, em pó, em sombra, em nada”. Em poucas palavras: mulher, aproveite, enquanto é tempo, a beleza da juventude, porque o tempo passa e você vai perdê-la. Note que a cantada é feita sutilmente: é claro que se trata do convite “goze comigo a flor de sua mocidade”, destinado a uma mulher idealizada, descrita segundo os modelos literários da época. Apesar desse rigor, Gregório de Matos Guerra também escreveu poemas erótico-irônicos – em que os convites amorosos são bem mais lascivos – e satíricos – em que critica toda a sociedade da época, sem perdoar ninguém, o que lhe rendeu a alcunha de “Boca do Inferno”.
É interessante observar que as canções do Camisa de Vênus dialogam com essa tradição, imprimindo-lhe, é claro, nuances do nosso tempo. E é aí que se insere “Bete morreu”. Os primeiros versos não são nada “polidos”: “Bete tão bonita, gostosa / era o tesão da escola / sempre na coluna social / exibindo seu sorriso banal”. Bete é uma bela mulher, mas não é tratada como musa idealizada – ela é gostosa, tesão –, o que nos poderia parecer grosseria gratuita. Não é: o problema não é Bete, mas a classe social que ela representa. Ela é uma socialite que ostenta fartamente a própria beleza, sem saber os perigos que está correndo, cega do próprio sucesso. A crueza da letra está em nos contar a história de uma menina bonita e fútil que acaba sendo estuprada, a partir de uma perspectiva que nos soa maldosa, quase vingativa. O fato de Bete não resistir ao estupro – “Violentaram Bete / Ela nem se mexeu / Bete morreu” – talvez sugira a perplexidade – frente ao horror da violência absoluta – de uma mulher que vivia o mundo de sonhos das celebridades, mercadorias em forma de seres humanos – ou pior, de humanos na forma de mercadorias. Bete é vazia – espécie de Macabéa de luxo –, desconhece a realidade cruel em que está inserida e a inveja que causa a ostentação de sua beleza. Em suma: está alienada do mundo violento em que vive, da própria classe social de que faz parte, por isso é vítima fácil de seus estupradores. Dadas as devidas proporções, a alienação de Bete é tão escrota quanto a violência que a levou à morte, duas facetas horrendas do país em que vivemos, ambas mascaradas pelos sorrisos banais de nossos famosos.
Espero que os leitores não me entendam mal. É óbvio que julgo que qualquer estupro – contra quem quer que seja – é um ato hediondo. Só quero tentar entender aqui porque a canção do Camisa fez tanto sucesso na época. Imagino que isso ocorreu não porque as pessoas, secretamente, se deliciavam ao ver uma gostosa-tesão-fútil se dando mal – embora não exclua essa hipótese, afinal a maldade e a inveja humanas não têm limites –, mas porque a vida e a morte de Bete são alegorias da sociedade brasileira. Com efeito, a violência urbana que vitima aqueles que não figuram das colunas sociais, de um lado, e a vida maravilhosa na Ilha de Caras e nos bairros nobres das capitais, de outro, são duas versões cruéis – e complementares – do que é o Brasil. “Bete morreu” nos mostra a primeira interferindo violentamente na segunda, numa ocorrência que, se tivesse acontecido de fato, “chocaria o país”, no clichê jornalístico.
Ao final da canção, “Seu corpo foi encontrado / por um chofer de caminhão / e agora tá apodrecendo / lá dentro do caixão”. Abandonado em algum lugar ermo, o corpo de Bete acabou tornando-se terra, cinza, pó, sombra, nada, como previa o soneto de Gregório de Matos. A beleza de Bete, desperdiçada nos eventos da alta sociedade, não valeu de nada, numa espécie de síntese maldita a respeito do Brasil, cuja “gente bonita” que aparece na tv e nas colunas sociais acaba ofuscando outra realidade, que só de vez em quando se faz tão gritante que acaba ganhando espaço na mídia.
“Bete morreu” guarda raízes na tradição do “Boca do Inferno” porque subverte o tema do desfrute da beleza juvenil, esfacelado pela crueldade da violência urbana, assunto que tem a cara do rock dos anos 80. Eu jamais seria o mesmo depois de ouvir Camisa de Vênus: toda a beleza dos poemas líricos que eu gostava de ler desde pequeno estava posta em xeque pela realidade que surgia nas letras de Marcelo Nova, como se a violência sofrida por Bete pudesse transcender o plano da canção e fulminar-me a existência.

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