Quem já viu O Sonso ao vivo sabe que a banda explora a combinação entre rock e MPB, além de namorar composições chamadas de “bregas”. É essa a fusão que que nos dá a chance singular de ouvir “Sei lá”.
A crítica chamada de especializada e o público elitizado alcunham pejorativamente de “brega” tudo que foge a certa intelectualização muitas vezes falseada, marcante em muitos dos chamados “monstros sagrados da MPB”. Luiz Tatit já explicou esse fenômeno na obra O Século da Canção, e já deu nome aos bois, chamando de “elite popular” ao público que é fã de Caetano e Chico, mas que rejeita, por exemplo, o Roberto Carlos de toda a fase Pós-Jovem Guarda, em que predominam as canções passionais. O tempo foi mais sábio e acabou consagrando o Rei, hoje aclamado por muitos daqueles que o rejeitavam no passado. Basta lembrar que, há quinze ou vinte anos, era preciso ouvir escondido “aquela canção do Roberto”. Hoje, tudo isso acabou: podemos não gostar de tudo que ele fez, mas temos de admitir a importância que ele tem na história de nossa canção (já debati o assunto aqui no blog), além da inegável qualidade de muitas de suas composições. “Detalhes”, aliás, acabou de ser eleita pela Rolling Stone Brasil – a revista que representa a chamada crítica especializada em música pop, hoje, no Brasil – a oitava canção mais importante do Brasil.
Não é nova a tentativa de mergulhar no universo popular, em que imperam os conteúdos passionais. E os roqueiros talvez sejam especialistas nisso: muitas bandas pesadíssimas compõem baladas românticas que não destoam das composições que lhes conferem identidade. No Brasil, Raul Seixas já fazia isso à sua maneira na década de 70. A própria Tropicália também se utilizava de ícones da canção romântica para formular hipóteses a respeito dos rumos da cultura brasileira. Agora, na cena independente, temos os últimos trabalhos de Wander Wildner, que dialogam com o universo brega à cata do que seja a verdadeira música brasileira. E nessa mesma linhagem figura, mais recentemente, O Sonso, que, ao vivo, vai da MPB requintada (com uma versão de “Jorge Maravilha”, de Chico Buarque) a versões roqueiras de compositores valorizados pela banda, como o próprio Roberto Carlos.
No vídeo abaixo, a banda toca “Sei Lá”, em Fortaleza, em janeiro de 2009, com Daniel Groove na voz, Julianne Frenkiel no teclado, Lucca Schwabb na guitarra, Klaus Sena no baixo e Marcelo Holanda na bateria.
Os leitores já perceberam, pelo vídeo, que a performance de Daniel Groove é espetáculo à parte: ele provoca o público, interage, sorri, dança o tempo todo, como um amplificador físico das emoções que correm na canção, cuja letra é simples e poderosa, ao mesmo tempo. A combinação dos versos com a fusão dos ritmos – e tudo isso cifrado na presença de palco e na expressão corporal de Daniel, eis a força do Sonso.
As antíteses dos dois versos iniciais apontam a impossibilidade amorosa, muito recorrente no universo das músicas românticas: “Eu fogo, você água / Eu tudo, você nada”; o procedimento se repete em “Eu medo, você mágoa / Eu aqui, você falta”, mas com uma evolução de sentido: nos dois primeiros versos, são observadas duas antíteses simples, de opostos (fogo-água, tudo-nada); nos dois seguintes, há ainda essa ideia, mas não tão diametral: medo e mágoa não se opõem, mas geram o mesmo efeito de sentido – pois o eu que canta se afasta do tu, a amada, devido ao medo; ela, por sua vez, está distante dele devido à mágoa.
Além disso, “aqui” é advérbio, e “falta”, no contexto, é verbo. Trata-se de palavras que, gramaticalmente, costumam combinar-se. Em “Sei Lá”, contudo, elas quase que se excluem, ao menos do ponto de vista do sentido: o eu ocupa de modo falhado o espaço, porque nele falta a amada. Estar aqui é como não estar, diria o eu que canta, porque me falta você e essa falta é tudo. É esse sentimento que culmina nos versos finais – a que só chegaremos se verificarmos que, na segunda parte da canção, o procedimento descrito anteriormente se repete: “Eu mundo / Você casa / Eu corro / você pára” e “Eu corpo / você cara / eu mudo / você fala”.
Podemos entender, então, que a impossibilidade da concretização amorosa se dá por meio de algo que é mais do que a simples antítese, como se o eu que canta e a amada não fossem almas gêmeas que se perderam, imagem recorrente das canções amorosas. A dor do eu que canta em “Sei Lá” é ainda pior: nessa canção, constata-se que ele e sua amada não se completam em tudo, não são o côncavo e o convexo (para trazer à tona, mais uma vez, Roberto Carlos): são totalmente incompatíveis (expressão, também ela, paradoxal, para reforçar os sentidos da canção do Sonso). Daí a ausência física da amada em “eu aqui, você falta”.
O verso “Por que será que eu te quero assim, baby?” é que dá a medida do sofrimento: apesar de toda a incompatibilidade observada acima, o eu segue desejando a amada. A utilização do vocativo “baby” pode ser considerada anacrônica (Caetano já o usou numa canção há mais de quarenta anos), mas também pode ser entendida como marca registrada das raízes da banda, o universo “brega” – palavra que é entendida, agora, não no sentido pejorativo que costumeiramente lhe é atribuído, mas em outro, em que representa a ramificação de nossa canção de mercado que talvez mereça, mais do que qualquer outra, a designação popular, em que vicejam conteúdos passionais, da ordem do ser, de seus conflitos, de suas faltas. Todos sabemos que a língua inglesa tem interferências em todos os setores da sociedade brasileira. E não será o vocativo “baby” influência direta das canções românticas norte-americanas? É bem provável que seja e, se o for, tanto melhor: já foi assimilado e adaptado a estas paragens, ganhando feição brasileira.
No refrão, por meio do alongamento da vogal final da expressão “sei lá” – extremamente coloquial e popular -, o eu que canta expande suas aflições e expressa não só a falta da amada, como também a sensação de atordoamento diante da constatação de que, embora a razão demonstre a incompatibilidade amorosa, o amor e o desejo seguem acontecendo: “se o amor aconteceu / O amor entre você e eu / e esse amor se deu”.
E finalmente, os versos finais, em que é feita a confissão amorosa simples, mas extremamente dolorida, ponto alto da canção: “Você me faz falta / você me faz chorar”, no trecho mais dançante de “Sei Lá”, como que sugerindo, na expressão corporal marcante do vocalista, um convite sensual à amada. A dança sugere, muitas vezes, sobretudo no universo da canção popular, o contato físico e remete, ainda que de forma não-explícita, ao ato sexual. E é sugestivo que “Sei Lá” termine com o arranjo dançante, porque talvez o amor entre o eu que canta e sua amada se dê e só dê certo exatamente no plano sexual.
Fica a hipótese: o amor entre eles contraria o plano da racionalidade, daí os paradoxos, absurdos em que está imersa a relação, marcados pelas antíteses e pela expressão do título e do refrão; no plano dos sentidos, do desejo não-racional, contudo, os amantes se completam, daí a falta concreta que o eu sente da amada, nos versos “Eu aqui / Você falta” e “Você me faz falta / você me faz chorar”.
Sem incorrer nos esticamentos exagerados das vogais (nos moldes da pior música popular romântica) ou nos lugares-comuns das letras pré-fabricadas (em que “amor” rima com “odor”, por exemplo), e renovando o tema mais popular que pode exisitir – a atração incontrólável pela musa amada e desejada – por meio de arranjos roqueiros, o Sonso contribui de forma significativa para a canção independente, trazendo à tona conteúdos e tradições que a crítica supostamente especializada e público pretensamente intelectualizado insistem em rejeitar. Enfim, associando MPB, brega e rock, e renovando esses três gêneros, O Sonso talvez alcance uma canção verdadeiramente brasileira.

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