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A insustentável fraqueza da cena, entrevista com Tiago Barizon

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Barizon e um submarino amarelo

A dita cena independente musical é uma colcha de retalhos. Se formos parar para analisar, até mesmo esse tal “independente” é fruto das mais ferrenhas discussões. Tem gente que adora dizer que é indie, tem gente que tem nojo, e os dois agem da mesma forma.

Faz algum tempo que começamos a pensar nos elos da cadeia produtiva dentro da produção musical independente, e em conversas com artistas, público, produtores, selos, donos de casas de shows, entre tantos outros, percebemos que não podemos nem começar a pensar em um mercado independente. Isso não existe, é lenda, mito. É mais provável que alguém me convença da existência da Iara do que desse mercado. E por isso eu sempre falo em “cena independente”. Não é mercado por diversos motivos. Primeiro, a cadeia produtiva não se fala, não troca experiências e informações. Segundo, não existem dados sobre público, consumo, produção, faturamentos. Terceiro, falta profissionalização e profissionalismo. Esse último nem é tão problemático, profissionalismo falta em qualquer setor, em maior ou menor escala. Mas sem profissionalização, não existe setor que se sustente. Quarto, os produtores dos bens que são consumidos, esse pessoal que chamamos de “artista”, não possuem projetos sustentáveis e normalmente são vistos como fonte de exploração. Mas se eles mesmos não se preocupam com isso, como estranhar essa atitude dos demais? Bom, por aí vai…

Aí me perguntam, “então por que raios você trabalha com isso?”

Eu nunca consegui uma resposta racional. Acho que talvez seja por que isso é o que eu faço de melhor, talvez por uma antiquada ideologia, por achar que ainda dá para mudar as coisas, ou ainda pode ser porque eu quero que se meu filho resolva ser músico ele encontre um lugar que o receba melhor.

Foi com muita alegria que recebi o convite do amigo Roger Deff, que conheci em uma das palestras que eu dei. Ele me mandou algumas perguntas para que eu respondesse e ajudasse em um de seus artigos, que pode ser lido na íntegra aqui. Suas perguntas mostram uma clareza frente a alguns dos problemas que os artistas e produtores encontram e despertaram a vontade de tentar passar para frente algumas das elucubrações que temos nos permitido por aqui, não com o objetivo de converter e evangelizar, mas para imbuir naqueles espíritos mais agitados a vontade de debater e questionar. Não pretendemos de forma alguma ensinar os caminhos, mas de pavimentarmos em conjunto, afinal se tem algo que está muito certo em torno de toda questão da produção e do mercado musical é que ninguém sabe para onde está indo.

Roger Deff – Há muita discussão sobre como as bandas independentes podem sustentar financeiramente seus trabalhos, já que os festivais difícilmente tem verba disponível para pagar cachê. Quais os caminhos seguidos pelas bandas de Sampa no sentido de buscar formas de viabilizar seus trabalhos?
Tiago Barizon
Aqui em São Paulo as bandas estão na mesma correria do que as bandas em outros estados. A busca por esse modelo sustentável não é uma questão regionalizada, mas global. As soluções podem aí sim ser regionalizadas, devido às diferenças culturais, geográficas, demográficas… Um grande erro que eu vejo é a tendência a se prender ou focar os esforços em somente uma “frente de trabalho”. Não adianta esperar que somente tocar em festivais, ou somente fazer shows em sua cidade, ou somente tocar em SESCs, vá garantir que o seu projeto seja sustentável. Existe toda uma gama de fontes de geração de renda que precisam ser mais exploradas, como merchandise, venda de cds, licenciamento… Mas esses formatos não dependem somente dos artistas, mas da mobilização de todos os envolvidos na cadeia produtiva para a profissionalização e a articulação. Olhar um pouco para fora do próprio ambiente pode ajudar nessas horas. Eu estou escrevendo um artigo com alguns artistas como Porcas Borboletas, de Uberlândia, e Anacrônica, de Curitiba, para investigar mais esses caminhos. Mas todos passam sem exceção pelo processo de formação de público, que é um constante debate e carente de soluções.

Roger DeffNa sua opinião, quais as grandes dificuldades encontradas pelos organizadores dos festivais para remunerar as bandas? Explique.
Tiago Barizon -Existe aquele festival em que os organizadores e produtores resolvem peitar o desafio e fazer tudo na base de apoios e amizades. Vão atrás de uma loja de instrumentos para conseguir equipamento de palco e PA, a prefeitura para conseguir um espaço para a realização, uma gráfica que possa colaborar com material de divulgação. Esse pessoal faz na garra e muitas vezes não contam com toda a estrutura necessária. Na hora e no  afã de ver o festival sair do plano das idéias muitas vezes deixam de calcular se existe uma demanda de público que justifique o investimento todo. Para contornar isso normalmente apelam para a vontade das bandas de divulgar seu trabalho, e muitas acabam topando esse esquema. Não que seja uma atitude errada, mas valendo-se desse esquema de troca por espaço muitas bandas acabam se decepcionando e deixam de incentivar os festivais. Pequenos festivais deveriam focar suas atenções nos artistas locais, em espaços mais controlados, e a partir daí pensar em ganhar escala e visibilidade. Muitos organizadores esperam trazer atrações de outros estados como forma de alavancar o festival, mas aí, além de deixar de ganhar, a banda acaba pagando para tocar, já que vão ter gastos com transporte e hospedagem. No final das contas, esses festivais sofrem com a falta de público (mais uma vez) que são sua única fonte de geração de capital.

Agora existem outros festivais que são patrocinados, muitos por grandes empresas, e que mesmo assim não pagam os artistas. Nesse caso eu só posso analisar de duas formas: falta de planejamento ou falta de respeito. Quando uma grande empresa abre um edital ou então cede patrocínio, entendendo patrocínio como aporte de capital, normalmente isso se dá mediante a análise de um projeto, em que sem exceções devem constar as planilhas orçamentárias. Não conheço uma empresa que investiria dinheiro em ações culturais sem saber para onde ele está indo, como vai ser aplicado. Daí que eu concluo a falta de planejamento, caso o produtor simplesmente esqueça de prever pagamento de cachês, o que provaria a total incapacidade desse sujeito, ou então a falta de respeito, se esse mesmo sujeito já esteja contando com a vontade das bandas de tocarem de graça em troca do tal espaço para divulgação de seu trabalho. Pode-se dizer que essas empresas não pagam 100% do projeto, mas diante de todos os custos cortar justamente o cachê das bandas, que seriam, a princípio, o motivo de se fazer um festival, é um tanto quanto contraditório.

Já vi soluções interessantes, por exemplo festivais que pagavam uma quantidade de acordo com a proveniência das bandas. Para bandas da cidade ou da região era um valor X, para bandas que viessem de locais até 600km era 2X e assim por diante. Cada banda saberia com antecedência o que iria receber e calculava se valeria a pena ou não. Além da transparência, sem brigas porque tal banda ganhou mais ou menos do que a outra.

Roger DeffAlguns defendem que as bandas estão à procura de espaço e , portanto, não devem ser remuneradas, outros dizem que é um trabalho e como tal deveria receber alguma ajuda de custo. Qual a sua opinião?
Tiago Barizon - Você acabou de se formar em jornalismo, toparia trabalhar em alguma redação em troca de currículo, sem ganhar nada? Ou um arquiteto, faria alguns projetos de graça para ganhar destaque? Ou um designer, um fotógrafo…? Acho que por um tempo, em algumas profissões, isso até pode ser planejado, principalmente naquelas que dependem de montar portfolio. Mas não indefinidamente. E todo mundo acha isso natural para os músicos, que eles devem tocar de graça para sempre em troca do tal espaço. E isso acaba virando uma situação default, que ninguém contesta. Todo músico já passou por essa situação. Em uma conversa perguntam o que faz da vida, o cara responde que é músico e recebe um “mas o que você faz para ganhar dinheiro?” Se você é advogado, ninguém pergunta isso. Se você é gari, ninguém pergunta isso. Para o músico perguntam. É sintomático não só de como nos vemos dentro da cena mas de como todos estão nos vendo. E a mudança tem que partir de quem está inserido na cadeia produtiva, de saber se valorizar e valorizar o trabalho dos outros. Eu trabalho hoje em dia somente com isso, minha vida profissional é voltada exclusivamente para a música, então eu sei o duro que é conseguir se posicionar e mostrar que como tal eu tenho que ser remunerado. As fraldas do meu filho dependem disso!

Um cara entra na faculdade de direito, gasta com material, mensalidade de faculdade, rala um tempo para conseguir um bom emprego, gasta com cursos, especializações, viagens para congressos e tudo mais. Por que a forma de lidar com ele tem que ser diferente do que a com que tratamos um cara que começa a estudar baixo desde cedo, compra instrumentos, acessórios, cursa aulas, gasta com ensaios, com viagens para divulgar, material da banda, gravação de cds…?

Roger DeffUm outro problema a ser analizado é que, na maioria das vezes, quem faz o festival não lucra com isso. Na verdade tem que arcar com gastos e faz mais por paixão mesmo. Você acredita que  trabalho conjunto entre bandas e produtores poderia ser uma forma de viabilizar meios sustentáveis para a realização dos eventos?
Tiago Barizon – Sem dúvida. Os organizadores dos festivais tem que pensar em formas de multiplicar as ações de divulgação do evento usando todos os meios possiveis. E não adianta só mandar um email falando para as bandas: “divulguem em seu orkut”. Tem que pensar em estratégias que façam com que essa multiplicação seja também interessante para as bandas, para que essas realmente se sintam envolvidas. Além de algumas ações básicas, como montar a famosa banquinha de vendas, que pode ajudar financeiramente as bandas. Mas no final das contas o que paga um festival que não tem patrocínio é o público. Aí cabe a cada produtor saber medir seus custos, o público estimado e ver até que ponto vale ou não a pena. E nesse ponto São Paulo não serve muito de indicador. Se pegarmos alguns dos principais festivais independentes do Brasil, dos que contam somente com bandas nacionais, alguns conseguem reunir 1500, 2000 pessoas. Na cidade de São Paulo um evento com esse mesmo formato não conseguiria esse feito.

Roger DeffOs coletivos surgem dentro de uma lógica completamente diferente da dicotomia produtor/ artista. Fale um pouco a respeito deste sistema de colaboração.
Tiago Barizon – Peter Jenner, presidente emérito da International Music Managers’ Forum, diz que as duas instâncias que realmente importam em toda a cadeia produtiva da música são o artista e o público. Todos os outros envolvidos só tem razão de existir se for para fazer com que esse diálogo aconteça melhor e com mais fluidez. Não poderia concordar mais. E acho que os coletivos surgem em um momento que precisamos que isso aconteça mais do que nunca. A colaboração de diversos profissionais, das mais distintas áreas, potencializa esse aspecto. Mas temos que ver que os coletivos não nascem e existem somente em função da música. Coletivos podem se dedicar não só às artes, mas à geração de conteúdo, a repensar conceitos de urbanização, à educação… Eu acho que ao começar um coletivo as pessoas tem que pensar mais do que as ações em si, mas nos resultados que querem atingir. E como cada um pode colaborar e pretende se beneficiar deste grupo. Para falar explicitamente do caso dos artistas, eu não acredito que os coletivos devam surgir somente como plataforma de lançamento desses músicos, mas sim que os músicos façam parte de um grupo em que os conceitos e a estruturação de todos os envolvidos facilitem a promoção e divulgação dos trabalhos de cada um.

Existe aquele festival em que os organizadores e produtores resolvem peitar o desafio e fazer tudo na base de apoios e amizades. Vão atrás de uma loja de instrumentos para conseguir equipamento de palco e PA, a prefeitura para conseguir um espaço para a realização, uma gráfica que possa colaborar com material de divulgação. Esse pessoal faz na garra e muitas vezes não contam com toda a estrutura necessária. Na hora e no  afã de ver o festival sair do plano das idéias muitas vezes deixam de calcular se existe uma demanda de público que justifique o investimento todo. Para contornar isso normalmente apelam para a vontade das bandas de divulgar seu trabalho, e muitas acabam topando esse esquema. Não que seja uma atitude errada, mas valendo-se desse esquema de troca por espaço muitas bandas acabam se decepcionando e deixam de incentivar os festivais. Pequenos festivais deveriam focar suas atenções nos artistas locais, em espaços mais controlados, e a partir daí pensar em ganhar escala e visibilidade. Muitos organizadores esperam trazer atrações de outros estados como forma de alavancar o festival, mas aí, além de deixar de ganhar, a banda acaba pagando para tocar, já que vão ter gastos com transporte e hospedagem. No final das contas, esses festivais sofrem com a falta de público (mais uma vez) que são sua única fonte de geração de capital.
Agora existem outros festivais que são patrocinados, muitos por grandes empresas, e que mesmo assim não pagam os artistas. Nesse caso eu só posso analisar de duas formas: falta de planejamento ou falta de respeito. Quando uma grande empresa abre um edital ou então cede patrocínio, entendendo patrocínio como aporte de capital, normalmente isso se dá mediante a análise de um projeto, em que sem exceções devem constar as planilhas orçamentárias. Não conheço uma empresa que investiria dinheiro em ações culturais sem saber para onde ele está indo, como vai ser aplicado. Daí que eu concluo a falta de planejamento, caso o produtor simplesmente esqueça de prever pagamento de cachês, o que provaria a total incapacidade desse sujeito, ou então a falta de respeito, se esse mesmo sujeito já esteja contando com a vontade das bandas de tocarem de graça em troca do tal espaço para divulgação de seu trabalho. Pode-se dizer que essas empresas não pagam 100% do projeto, mas diante de todos os custos cortar justamente o cachê das bandas, que seriam, a princípio, o motivo de se fazer um festival, é um tanto quanto contraditório.
Já vi soluções interessantes, por exemplo festivais que pagavam uma quantidade de acordo com a proveniência das bandas. Para bandas da cidade ou da região era um valor X, para bandas que viessem de locais até 600km era 2X e assim por diante. Cada banda saberia com antecedência o que iria receber e calculava se valeria a pena ou não. Além da transparência, sem brigas porque tal banda ganhou mais ou menos do que a outra.

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3 Responses

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  1. Marcela says

    Bom… Meu irmão teve banda, meu namorado é produtor… Sempre tive amigos de banda e já vivenciei muitas coisas que o Barizon falou. Da banda não receber e ir pra divulgar, e acabar sendo assistida por 5 pessoas. De ter o chachê em cerveja na noite…
    Já participei de festival, trabalhando e vendo a correria…
    Enfim, acho que realmente ainda falta muita coisa, mas na minha opinião falta muito profissionalismo.
    É bem como o Barizon disse, ninguém leva a sério a profissão música, nem mesmo os músicos. Ai fica dificil!
    Mas despertar pra essas coisas é um bom inicio!

  2. Barizon says

    Oi Marcela, obrigado pelo comentário e pelo testemunho!
    E tem uma coisa que me aflige ainda mais que é o fato de que mesmo sabendo da situação são pouco os que se voluntariam a tentar mudar esse cenário.
    Mas como você disso, se mais pessoas passarem a prestar atenção nisso, pode ser um começo.

  3. Bruno Weewee says

    Olá a todos!
    A cena independente precisa realmente dialogar e se coligar, além de pensar de maneira diferente do modelo clássico de divulgar o trabalho. Digo isso porque, por exemplo, tocar nas rádios não existe mais, ao menos que se pegue um belo jabá. Assim, vejo o papel da internet como ponto central em tudo isso. Ela permite o contato direto entre banda e público, o qual acaba se fidelizando e fazendo diferentes tipos de divulgação: a) boca a boca; b) sites/blogs/flicks de f’ãs; c) cópia das músicas para presentear um amigo/parente.
    Com isso, ocorre uma multiplicação incontrolável dos materiais da banda, o que é maravlhoso, claro!!! Um exemplo para todos é “O Teatro Mágico” que virou um dos maiores fenômenos independentes do Brasil através deste novo modelo. Acompanhei razoavelmente de perto este processo e fiquei convencido que ele realmente é muito possível.

    Um abraço!!!!



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