Confesso: eu era fã dos Guns n' Roses no fim dos anos 80 e início dos 90. Não que gostasse das palhaçadas do Axl Rose, que sempre me soaram estrelismos de um inseguro com o rei na barriga. Mas achava que o Appetite for Destruction era um álbum de primeira qualidade, que deveria figurar nas listas de melhores discos do século. O tempo passou, é claro, e minha tietagem pelo Guns também: aquele som é divertido, mas não era pra tanto. Fui ouvindo cada vez mais outras coisas, e Axl e seus asseclas foram ficando cada vez mais para trás. Ouvir Guns, para mim, hoje, é desfrutar daqueles momentos de nostalgia, em que eu beijava a namorada ao som de "Patience" ou "Don't Cry". Numa viagem com amigos do colegial, colocar "Paradise City", num churrasco pode ser uma boa pra animar, as pessoas se lembram dos tempos de escola, etc. O show do Guns em 92, no Anhembi, em que chovia torrencialmente, foi inesquecível: no dia seguinte, sem gripe, sem sono e sem ressaca, fiz recuperação de Física e passei de ano. Bons tempos em que eu estudava por apenas uma tarde, ia a um show à noite, tomava cerveja e chuva a noite toda e no dia seguinte não tinha ressaca e passava de ano - e a trilha sonora de tudo isso era Guns n' Roses. Mas não dá mais pra levar o Guns a sério. Hoje, pra uma noite de cervejada, tenho dois dias de ressaca. Se vou estudar para uma prova, preparar aula ou apresentar algum trabalho acadêmico, não bebo nada e durmo bem, pra ficar inteiro no dia seguinte.
O engraçado é que, hoje, as coisas deveriam ter mudado. Não fui ao último show do Metallica, mas os amigos do Madame Saatan foram e me contaram que a banda foi extremamente simpática com o público. Inacreditável, se lembrarmos que o Metallica, na minha mesma época de colegial, fazia shows protocolares, com o som baixo, tentando sabotar o Sepultura. Parece que até megastars como eles estão sentido na carne que a relação com o público é fundamental para uma carreira longeva. Dar uma de celebridade, socando a cara de jornalistas, jogando cadeiras pelos ares (lembram dessa que o Axl aprontou?), ofendendo a tudo e a todos, atrasando a entrada no palco em mais de uma hora - tudo isso parece soar como amadorismo e estrelismo. Até às maiores celebridades se pede que cumpram o horário e que evitem conflitos com a imprensa e o público. Amy Winehouse ainda existe e faz das suas, mas o estilo junkie parece um pouco fora do tempo e do espaço.
Aliás, desde a palhaçada de mais de doze horas de fila para não conseguir ingresso para o show do U2, não frequento megashows. Quem não se lembra das filas nas portas dos Pães de Açúcar pela cidade, com fãs espertinhos, no mais legítimo "brazilian way of life" (leia-se "jeitinho brasileiro", mas em inglês, porque gostamos de ser importantes), levando parentes idosos ou crianças de colo para furar a fila? E o Pão de Açúcar pedindo desculpas publicamente pela desorganização, enquanto todo mundo sabia que havia privilegiados (além dos espertinhos que burlavam as filas) que conseguiram ingressos sem problemas? E as reclamações das pessoas que foram ao show do Radiohead, levando mais de duas horas para conseguir sair da Chácara do Jóquei? E, pra acabar, os preços absurdos cobrados para ficar num local pouco privilegiado no estádio, depois de pegar trânsito para chegar, enfrentar filas, ter de urinar em banheiros químicos imundos? Tudo isso me encheu o saco e decidi: é trabalho demais, pra show de menos, de quem quer que seja. Nem Axl, nem Bono, nem ninguém vale o esforço.
Escrevo essa introdução enorme para me divertir um pouco às custas da última de Axl Rose, que não deu as caras num show fechado que foi motivo de notícia na net na semana passada. No blog do Guia da Folha, lia-se o seguinte:
Estava tudo preparado para o show secreto e intimista do Guns n' Roses no clube Disco, quinta à noite, em SP.
Palquinho montado com bateria, teclado e percussão; setlist com 17 músicas (com "Paradise City" encerrando); vários fãs verdadeiros da banda no local (Marcos Mion, Ana Beatriz Barros, Daniella Cicarelli, Isabelli Fontana etc.); produtores do grupo à espera.
Aí, por volta da 0h30, alguém diz: "O Axl vai deixar o hotel [Hyatt] à 1h".
À 1h, outro alguém avisa: "O Axl vai deixar o hotel às 2h".
Aí às 2h30 surge o rumor: Axl estaria com dor de garganta e teria sido levado a um hospital. Pouco depois, os equipamentos começam a ser desmontados.
Lá dentro, brigas. Endinheirados revoltados se socando; uma modelo tentando bater na outra com uma garrafa de champanhe... Do lado de fora, mais confusão, correria, xingamentos. Uma equipe do Pânico foi agredida; dois seguranças da casa pularam uma cerca e foram atrás de um rapaz.
Segundo o próprio Marcos Mion, um dos sócios da casa, outro dos donos da Disco, Marcos Maria, brigou com os seguranças da banda, que estavam levando os instrumentos que o clube havia locado. Que beleza.
E assim foi o "show secreto" do Guns na Disco.
"Show secreto": nada me soa mais "brazilian way of life" do que isso. Algo como "o povão curtirá apertado, fedendo a suor, a cerveja e a maconha ruim, o show do Guns; nós aqui teremos Axl fazendo um show intimista". Perfeito para uma pauta na revista Caras, perfeito para dizer em alguma balada ou restaurante caro, com ar blasé "estive no show secreto do Guns e...". A cultura do privilégio correndo solta, com garrafas de champanhe à vontade e celebridades correndo rumo aos flashes. Em suma: os escolhidos, os que não se misturam fazendo tudo que os pobres mortais não fazem.
Mas veja que curioso: celebridade também é gente. Não é só nas casas noturnas das classes médias ou baixas que rolam brigas: endinheirados também se socam. A diferença é que as meninas, em vez de puxarem os cabelos ou de se arranharem, ameaçam-se com garrafas de champanhe.
Escrevo este texto não só para me divertir às custas dos célebres e ricos (ou daqueles que querem estar entre eles), cuja pretensa "educação" é exatamente o que os faz evitar o contato com as pessoas comuns. Ora, leitores: ir ao show secreto, além de render status nas colunas sociais, também é uma forma de mostrar-se acima do público comum, para além dele.
Mas também escrevo este texto para apontar algo curioso: existe uma necessidade - e esta me parece real, genuína - de assistir a um show num ambiente menor, em que se possa aproveitá-lo de forma mais autêntica e menos estressante. É quase unânime o seguinte discurso: os shows menores - para quem vai ao show para poder ouvir a música, bem entendido - são melhores, porque o artista pode interagir de modo menos pasteurizado com a platéia, que pode concentrar-se exclusivamente na música - e, em última análise, num show, é ela que interessa.
Aliás, deixem-me lembrar aqui de outro show que deveria ser, supostamente, civilizado, e que me soou como ida ao zoológico: o show de Chico Buarque. Ora: trata-se do espetáculo em que não se esperava do público nada mais do que respeito ao artista, dada a unanimidade que é o compositor. Entre uma música e outra, ouviam-se gritos histéricos de "casa comigo, Chico", ou "Gostoso!", ou "Tesão!". Estávamos sentadinhos em mesas elegantes, servidos por garçons, tudo no melhor estilo "show civilizado". Mas, ao nosso lado, ao longo de toda a apresentação, uma pessoa falava insistentemente ao telefone, explicando aos parentes ou amigos que estava no show do Chico, que ele lhe parecia ainda mais bonito do que nas fotos, embora já um pouco velho...
Minha impressão: ir ao show do Chico Buarque, para aquelas pessoas, não era ouvir as canções do Chico, mas poder dizer aos outros (em tempo real, inclusive) que elas estiveram (estava) no show do Chico - uma réplica da cultura à celebridade que foi por água abaixo no show secreto do Guns. Trata-se de um tipo de público de que quero distância: aquele que lê nos guias de cultura "o que está pegando" e que vai pra dizer que foi. Para essas pessoas, a obra de arte ali apresentada é o pretexto, não é a finalidade do evento. Pena.
É claro que no show secreto do Guns havia fãs que queriam de fato ouvir as músicas. Mas a descrição feita no blog do Guia da Folha me deu a impressão de que a maioria das pessoas que estava lá apareceu pra poder dizer que... estava lá: reflexo nítido da cultura às celebridades, que ganha contornos especiais no Brasil, em que o nosso desejo de aparecer mais do que os outros vem carregado do desejo de esmagá-los. Não basta ter o privilégio de assistir a um show fechado do Guns, é preciso também, nessa mesma lógica, poder mostrar aos outros como eles são inferiores por não gozarem de tal privilégio.
Tudo isso fica ainda mais patético quando se trata de um show fechado do Guns n' Roses, banda que convenhamos, nem é tudo isso. Respeito todos os gostos, já disse aqui, mas não posso deixar de dizer que o vexame é maior quando uma confusão como essa acontece por causa de uma banda meia boca, de sucessos requentados e de um disco recente que não fede nem cheira.
Ora, se é pra brigar, melhor usarmos a cabeça e explorar cada vez mais espaços pequenos e médios para bandas de qualidade, de modo que possamos formar um público que vai aos lugares para assistir aos shows. Deixemos para lá os espetáculos fechados, para poucos privilegiados ou amigos de privilegiados: trabalhemos para que haja muitos shows pequenos ou médios em espaços para que boas bandas brasileiras possam mostrar seu trabalho; para que esses espaços possam receber adequadamente o público, com facilidade de acesso, com acessibilidade, a preços justos, com banheiros limpos, de preferência. Deixemos para lá a cultura às celebridades e mergulhemos nas canções. Já passou da hora de dar importância ao público que vai aos shows para ouvir música.
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