
Depois de três meses longe dos palcos, criando canções novas, o Vanguart faz show no Studio SP, nesta sexta-feira. É uma ótima notícia para o público, que pode encerrar o ano com um belíssimo espetáculo, num espaço maravilhoso; para a própria banda, que perceberá a falta que fez; e para a cena independente de São Paulo, que o Vanguart sempre acaba por agregar.
Aliás, sempre me perguntei sobre o sucesso que o Vanguart alcançou. É claro que as canções são boas. É claro que a banda tem um puta carisma no palco – quem já assistiu ao show dos caras sabe disso. Mas sempre achei, intimamente, que tinha de ter algo além de tudo isso. Sempre pensei na hipótese de que as canções do Vanguart carregam conteúdos bastante contemporâneos, que fazem o público hipnotizar-se com elas. Especialmente em “Cachaça”.
Até onde vejo e ouço, o Vanguart transformou em canção muitas das crises modernas. Depois da entrada breve, apenas com violão, a canção acelera e desacelera, com picos de excitação e de angústia. No arranjo, as notas se alongam, acentuando a melancolia do timbre inconfundível de voz de Hélio Flanders. Ele alonga as vogais, acentuando a passionalização de “Cachaça”. Lembrando: o termo “passionalização”, cunhado pelo professor e compositor Luiz Tatit, refere-se a canções em que o prolongamento das vogais e a amplitude da tessitura fazem que sejam valorizados os motivos passionais, isto é, que dizem respeito às faltas experimentadas pelo eu que canta.
Aliás, “Cachaça”, desde o título, pode ser entendida como a canção das faltas. Muitas vezes, bebemos para dar conta das faltas subjetivas que vivemos. Beber para esquecer, beber para afogar as mágoas: expressões que indicam que a bebida e as drogas em geral, imagino, lícitas ou ilícitas, como veremos adiante, podem servir para suprir faltas subjetivas com as quais não conseguimos lidar. E os primeiros versos, pelo conteúdo e pela forma, parecem confirmar tudo isso:
“E só me vem quando não há certeza
Me desconjuros pra apagar a beleza
Da incertidumbre das mesmas mãos que as suas”
São três versos em torrente. Os dois últimos, em especial, têm de ser lidos como se fossem um só, mas essa leitura embaça a compreensão. No primeiro, “E só me vem quando não há certeza”, não sabemos a quem ou a que se refere o eu que canta – percebemos apenas a nebulosa confusa da incerteza, que se repete, no terceiro verso, com “incertidumbre” – vocábulo da língua espanhola com o mesmo significado. Há no segundo verso o termo “desconjuros”, que não é encontrado nos dicionários de português ou espanhol. Mas temos “conjurar” – e abrem-se aí significados interessantes. Além de “conspirar”, o verbo também guarda significados referentes a feitiços e magia: “conjurar o feitiço” é desfazê-lo; desconjurá-lo, portanto, seria fazê-lo. “Conjurar demônios” é repeli-los; desconjurá-los, portanto, seria fazê-los aproximar-se, chamá-los.
A que conclusão chegar? Inicialmente, nenhuma – salvo a de que o eu que canta se vê tão imerso na incerteza (nos próprios demônios internos?), está tão perdido subjetivamente (confundido pelas mãos alheias?), que suas palavras são difusas e nelas confundem-se ele e o outro. Confundem-se também os idiomas – talvez efeito de um eu que está perdido espacialmente, entre duas ou mais culturas: exatamente o que acontece com os indivíduos e as identidades nacionais no mundo globalizado. O Vanguart talvez esteja, em uma estrofe de apenas três versos, mexendo intensamente em feridas bastante extensas, de amplitude global: no mundo em que vivemos, os limites objetivos e subjetivos são por demais difusos.
A segunda estrofe, menos enigmática que a primeira, com a mesma entoação vocal, dá algumas chaves de análise: “E me atinge da melhor maneira / Como cânhamo ou cachaça certeira / Pra antecipar a quarta-feira”. Ainda não sabemos quem ou o que atinge o sujeito que canta, mas já sabemos que o efeito é similar ao da maconha (cañamo é, aliás, vocábulo de origem na língua espanhola) ou ao da cachaça. Isto é: aquele que atinge o eu que canta tem nele o efeito da droga – talvez seja ele próprio a droga. E se retomarmos o raciocínio inicial, podemos entender que o que falta ao eu que canta é exatamente aquilo que lhe causa tão forte impressão. A falta de outro é tão poderosa, que acaba por turvar os limites entre o eu e outro, porque, sem ele, o eu é incompleto. Poderíamos dizer que, sem o outro, o eu perde a identidade.
Talvez exatamente por isso, o eu queira “antecipar a quarta-feira”. Antecipar alguma coisa é apressá-la: o eu está à procura deste outro misterioso. Talvez a quarta-feira seja o dia de encontrá-lo. Daí a busca nos versos seguintes, em que o andamento ganha aceleração, representando a procura: “Eu vou sair, / Talvez te encontrar / São cinco e meia da manhã / E cadê?”. Hélio Flanders grita o último dos versos, sinalizando a falta completa do outro, a aflição por não tê-lo encontrado.
E segue nas estrofes seguintes o mistério sobre um outro que agora ganha forma mais clara, no pronome “você”. Ele “sorri movendo quase nada / E antecipa a velha longa estrada / E os teus galhos vão me arborizando nu”. Já vi muita gente ler esses versos da seguinte maneira: já que os “galhos” do outro “arborizam” o eu, pode-se concluir que esse “você” é o cânhamo do início do texto; “Cachaça” seria, assim, uma canção sobre os efeitos inebriantes das drogas, quaisquer que sejam – e a falta que eles fazem.
Não acho que seja uma análise equivocada, mesmo porque bons textos admitem mais de uma leitura. Até concordo com a hipótese de que, na estrofe anterior, o eu, de certo modo, esteja tomado de efeitos alucinógenos, afinal ele se “arboriza”, numa imagem psicodélica o suficiente para sustentar essa leitura. Mas leio os versos seguintes:
“Ainda teimo que não sou pra isso
Mas seus olhos gostam de correr o risco
E quero estar só, comigo”
Leio nesses versos a verdadeira falta do eu que canta: ele próprio. O eu “não é pra isso”, quer estar consigo próprio, a despeito das seduções do “você”: olhos que gostam de risco, sorriso “movendo quase nada”, antecipação de caminhos já trilhados. Em poucas palavras, parece-me que a busca traçada em “Cachaça” é a procura de si próprio. Talvez o percurso escolhido para fazê-la sejam cachaças e cânhamos, de certa forma facilitadores do encontro do eu consigo próprio.
Lembremos, contudo, que, na última repetição do refrão, ouve-se “Eu vou sair, / Pra não te encontrar” e que depois de “São cinco e meia da manhã” não se ouve mais o “cadê?” aflito. Essas pequenas alterações talvez sugiram o círculo vicioso em que se vê enredado o eu: nas acelerações e desacelerações, motivadas por cachaças ou cânhamos, ilustradas no andamento da canção, o eu procura a si próprio, a esmo, testando limites subjetivos e objetivos. Mas essa busca, como um todo, é melancólica porque é cíclica – e talvez não chegue a lugar nenhum.
A aflição do eu que canta em “Cachaça”, ilustrada sobretudo no prolongamento das vogais na entoação de Hélio Flanders, é mesma que todos nós experimentamos: as drogas – e todos terão as suas, da cachaça ao cânhamo, do chocolate em excesso às horas de academia, do trabalho excessivo às relações fúteis, dos seriados americanos ao pedantismo acadêmico – deveriam servir para colocar-nos em contato com nós mesmos, para completar a pior das nossas lacunas – nós mesmos. Mas vivemos um tempo tão vazio e melancólico, de fronteiras tão difusas e de subjetividades tão artificiais que, nus, sob a proteção dos galhos que nos arborizam, talvez vejamos apenas um vazio ou uma mancha disforme, de traços confusos – incertidumbre de mãos que não as nossas.

bão!
Muuuito bão!
Obrigado!
bah! demás!
Realmente eu sempre pensei a mesma coisa sobre essa canção! Adorei sua interpretação! Deu até vontade de ouvir a música. Que tal fazer de Semáforo também?
Diego:
O plano original era fazer uma análise das duas canções juntas, para ensaiar uma espécie de “Poética do Vanguart”. Mas o texto ia ficar muito longo. Pra 2010 certamente vai sair uma análise de “Semáforo”.
Obrigado pela leitura!
Muito legal a tua interpretação. É aquela coisa, é difícil ter a coragem de tecer um comentário tão detalhado como você fez sobre uma obra de outra pessoa. É ousado, e pode ser bem interessante! Obrigado pro compartilhar com a gente. E as letras do Vanguart sempre me sugerem uma atmosfera de “roman à clef”, portanto achei interessante pensar como reflexão de um tempo. Fico aguardando “Semáforo”!