Skip to content


Pesquisa personalizada

Volver: significados intensos e subjetivos, ou a ficção do amor

Desde que conheci a cena independente, sempre tive a impressão de que muitas bandas não sabiam escolher bons nomes. E a banda Volver, de Recife, foi uma das primeiras a inverter essa sensação. Fui ao Dicionário Houaiss e descobri que o verbo latino “volvere”, ancestral do nosso “volver”, significava “rolar, revirar, enrolar”, mas também o inverso disso: “desenrolar”; no sentido figurado “fazer decorrer o tempo; meditar, refletir”. Em resumo, era um nome curto, de sonoridade forte (duas consoantes vê numa palavra de duas sílabas) e que, do ponto de vista do significado, remetia a ações extensas e objetivas (enrolar, desenrolar), por um lado; e intensas e subjetivas, por outro (o mergulho em si mesmo que está nos verbos “meditar” e “refletir”, além da ideia de percepção subjetiva do tempo).

Eram já significados demais para um só nome. Os ouvintes que conhecem as canções da banda sabem que elas estão à altura dessa multiplicidade semântica – apesar de, à primeira audição, não a percebermos. O ouvinte do recém-download  – já são quase cem mil, só do segundo disco, Acima da Chuva (faça o download clicando aqui) – encontrará canções simples, algumas até bastante dançantes. Se não prestar atenção e se quiser só curtir o som, poderá conquistar namoradas recitando versos e melodias do Volver; poderá, até, animar festas indies e ser admirado por gostar da banda, porque os caras já figuram em muitas das listas dos melhores de fim de década. Mas insisto: sob a sonoridade que conquista à primeira audição, estão cifrados conteúdos bastante densos que poderiam ficar chatos se fossem executados por uma banda de muita pretensão e de pouca competência.

“Tão perto, tão certo”, do Volver, é dessas canções que encantam à primeira audição.

A guitarra acelerada do início convida a dançar, despreocupada, aparentemente sem aflições afetivas. Mas os dois primeiros versos são duros, carregados de passionalidade – aqui no sentido de sofrimento que pode atingir um grau tão acentuado a ponto de fazer o sujeito perder a razão: “Esse teu amor não vale nada / E esse meu desprezo, acho que não tem mais fim”. Quebra-se, assim, a expectativa apenas festiva do início, e a guitarra talvez sugira a ânsia que o eu que canta tem por libertar-se da paixão que o liga à amada – e a paixão agora assume o sentido de desejo avassalador, mas que também faz perder a razão. Perdeu-se o valor do amor e acentuou-se o desprezo do eu que canta.

Aliás, a palavra “desprezo” não significa apenas “repulsa”, mas também sentimento pelo qual o espírito se transporta acima dos sentimentos, ou simplesmente desprendimento – talvez seja essa a palavra-chave para entender “Tão perto, tão certo”, canção a respeito de um eu que quer desprender-se da paixão que lhe sequestra a razão.

A racionalidade é, com efeito, uma característica marcante do eu que canta, na interpretação de Bruno Souto – ela é notável nos versos “Resolvi que tenho a vida inteira / Pra sentir de perto, essa tua ausência em mim”. Quem resolve sentir alguma coisa quer (talvez não consiga, mas quer) que a razão preceda os arroubos do sentimento. Mas a ausência do tu é mais que material, é também subjetiva, afinal a ausência está no eu que canta, vai dentro dele: “ausência em mim”.

Com palavras bem mais simples: embora queira ser orientado pela razão, o eu que canta parece estar tomado das paixões, que lhe tomam o controle de si e o fazem perder a razão. A falta da amada desencadeia mais que saudades ou sentimento de perda: a fratura interna entre razão e subjetividade é uma crise identitária do próprio eu, que não se reconhece quando está apaixonado.

No refrão, alguns elementos se repetem, como a indignação de “Que faz aqui? já não te falei? / Você vem de longe e diz: Eu voltei”, que retoma a crueza dos dois primeiros versos. Mas o percurso rumo aos agudos, gradualmente, em “Não, não faz assim / Sei do teu desejo mas, / vem me dar um beijo em paz seguir / Tão perto, por onde for, tão certo” parece demarcar a busca na tessitura extensa (sempre ordenada pelo plano racional), isto é, a procura pelo “beijo em paz”, que se opõe ao “desejo” do tu. Está no refrão, portanto, mais uma vez, a ideia de que o desejo e a paixão fazem que o eu deixe de lado a faceta com que mais se identifica, a racional. E de novo, em palavras simples: o toque e a proximidade do tu fazem que o eu perca a razão – daí a busca pelo desprendimento ou beijo em paz, palavra que denota ausência de conflito, seja ele subjetivo (do eu consigo próprio) ou objetivo (do eu com o tu desejado).

O verso mais belo e doído – “Tão perto, por onde for, tão certo”, repetido ao final da canção e que lhe dá título – expressa a tentativa de solução ao conflito: antecedido pelo beijo de paz, espécie de trégua e despedida, para que o eu e o tu desejado possam seguir adiante, possam desprender-se um do outro, o sentimento de ausência do verso da primeira estrofe se ressignifica em proximidade subjetiva e distância objetiva. A razão sabe que a distância objetiva – expressa no termo “por onde for” – é a única alternativa para lidar com a falta subjetiva, suprida pelo carinho do beijo de despedida. Trata-se da vontade de encerrar a relação amorosa com uma recordação boa, sem rancores, “nem ódios, nem paixões que levantam a voz”, para lembrar de outro poeta que privilegiava a racionalidade: Fernando Pessoa, no heterônimo Ricardo Reis.

É assim, para simplificar um pouco (mas eu avisei, no começo, que a densidade das canções do Volver era grande): o eu que canta sente a falta da amada, mas sabe que tê-la é mais doloroso que não tê-la – porque ela é volúvel demais: está sempre de partida, mas reaparece sem avisar. A única forma de lidar com a volubilidade e a inconstância da amada – e o desejo por ela, é claro – é despedir-se dela, em paz, e conformar-se com o movimento caprichoso de ida e volta que ela sempre percorre, sem previsibilidade. Daí as antíteses do refrão: “aqui” e “longe”, e mais especificamente, mas de forma implícita, a oposição entre “teu desejo” – com total ausência da racionalidade – e “beijo em paz” – plácido, controlado, quase casto, um beijo na testa, carinhoso, mas racional, que evita o rosto, meio caminho dos lábios e da paixão.

Essa busca pela trégua amorosa ganha forma, na segunda estrofe, por meio da ficcionalização do amor, em que o eu tenta proteger-se do desejo pela amada comparando a relação amorosa traumática a um filme sem sentido e que precisa acabar: “Esse filme já não faz sentido / Palmas para ele! / Não suporto mais seu fim”. O eu que canta está apressado para aplaudir e abandonar o espetáculo. Quer acabar com ele porque o final não é feliz.

Talvez a comparação da relação amorosa com um filme também seja uma forma de tentar entender racionalmente o comportamento imprevisível da amada: para o eu que canta, uma pessoa comum não agiria de forma tão inconstante; somente uma personagem de cinema poderia ser assim. E surge então a cena da varanda: “Lembra aquela cena na varanda? / Você de partida, nem sequer quis saber de mim”. E está aqui, mais uma vez, a crueza do eu que canta. O verso “Lembra aquela cena na varanda?” parece preceder uma recordação boa, mas é o rancor que responde à pergunta.

Tudo isso se completa com o solo de guitarra de Kleber Croccia, que de certa forma – corrijam-me, por favor, os músicos em geral, se eu estiver errado, e é sempre possível que eu esteja – repete a gradação dos versos “Não, não faz assim / Sei do teu desejo mas, / vem me dar um beijo em paz”. Trata-se da busca incessante pelo beijo de paz, pela trégua, pelo término da relação, pela tentativa de não estaram presos o eu e o tu. Esse intento não é possível no plano objetivo e racional, devido às faltas e crises que causa no plano subjetivo. Daí certa beatitude, no sentido filosófico do termo, o “estado de perfeita plenitude somente alcançado pelo sábio” (Houaiss me ajudando de novo), do fim da canção, em que se repetem os versos “Seguir / Tão perto / Por onde for / Tão certo”, especialmente na última das palavras: o que resta é deixar que eu que canta e sua amada sigam seus caminhos, sem expectativas, para que a distância objetiva e a falta subjetiva se transformem, por meio do beijo de despedida, na paz que o eu procurava. É a tentativa de desprendimento, que, como já vimos acima, resume a canção.

Não é fácil entender os conteúdos profundos de “Tão perto, tão certo”: o beijo da paz e da despedida talvez seja a própria canção que, cada vez que é executada, traz à tona as faltas e a alternativa traçada pelo eu para lidar com elas. Daí a conclusão deste texto: o sucesso dos mais de noventa mil downloads alcançados pela banda Volver talvez não tenha só a ver com a sonoridade que faz dançar; talvez também cada um dos ouvintes perceba, em cada audição de “Tão perto, tão certo” e de outras canções, que a proposta da banda, já guardada na ancestralidade de seu nome, é fazer de forma objetiva, nos arranjos e nas letras, que mergulhemos em nossos recônditos mais intensos e subjetivos.

Posted in Audio, Máquina do Tempo.

Tagged with , , , , , .


3 Responses

Stay in touch with the conversation, subscribe to the RSS feed for comments on this post.

  1. Alden Nunes says

    Do Caralho.

  2. Carlos Rogério says

    Valeu, Alden! Obrigado pela leitura!

Continuing the Discussion

  1. Volver: significados intensos e subjetivos, ou a ficção do amor | Conexão Pernambuco SP linked to this post on 06/01/2010

    [...] texto do amigo e professor paulistano Carlos Rogério, extraído do blog Identidade Musical [...]



Some HTML is OK

or, reply to this post via trackback.