Hoje à noite, o argentino Simja Dujov se apresenta na Livraria da Esquina, às 23h, abrindo a temporada 2010 do Projeto Mais Massa para O Jardim das Horas. Batemos um papo informal com argentino, e falamos de tudo – tradições musicais, propostas e conceitos estéticos, profissionalismo na música independente, crise internacional, bigodes. Só não falamos de futebol.
Simja Dujov nasceu em Córdova, cidade argentina fundada em 1573. A Universidade Nacional de Córdova é a mais antiga do país (1613). Ao longo de um almoço no Sujinho, Simja nos conta que a história da cidade é bastante responsável pelo contato que ele tomou com canções tradicionais e populares. Uma experiência marcante foi a participação em um coral composto apenas por idosos e dirigido por um professor que frequentara músicos do quilate de John Cage. Nesse grupo, Simja era o único jovem – e o convívio com os mais velhos fez que o músico viajasse numa espécie não-fictícia de máquina do tempo. Daí o respeito pelas tradições e pela história.
“Mas não posso viver só de passado” – é o que ele faz questão de nos contar logo a seguir. Depois dessa experiência marcante e de estudar artes plásticas e música na universidade, Simja começou a formular a sua latin jewish balcan cumbia, em que sonoridades ancestrais e atuais se integram, pagando tributo à tradição, sem deixar de lado o que ele considera também fundamental: o espetáculo que diverte, que faz dançar. O conceito sonoro é que deu origem à identidade visual marcante do trabalho de Simja.
Muitas vezes, o artista independente – “que não se sabemos muito bem o que é”, afirma o argentino – se acomoda nesse rótulo para fazer um trabalho pouco ou nada profissional. Para Simja, o espaço da música independente é maravilhoso, pela possibilidade de experimentação e pela chance de criação de propostas estéticas verdadeiramente criativas, mas também é pouco profissional, cheio de gente que não se aproveita dessas chances. Não é o caso dele. O figurino, a multiplicidade de instrumentos utilizados no palco, a fluência em várias línguas (ele fala bem português por ter parentes parentes no Rio de Janeiro, que frequenta desde a infância) e os bigodes à moda do pintor espanhol Velásquez são figurações do conceito que permeia a obra – e a vida – de Simja.
O bigode, aliás, chama a atenção de todos, enquanto caminhamos na Avenida Paulista, batendo papo. Engravatados, motoboys, indies de férias, todo mundo fixa o olhar em Simja, que se diverte com os sorrisos que ganha. Poucas pessoas sabem que o bigode é uma homenagem ao pintor espanhol: muitos se lembram de Salvador Dali, outros chutam – bem equivocadamente – que seja uma alusão a Charles Chaplin. Simja nos conta que seu nome quer dizer “alma alegre” – e que fica satisfeito por fazer as pessoas rirem. Mas isso não significa que suas canções sejam apenas feitas para mero desfrute. “A crise é o nosso segundo nome”, afirma em uma delas, ao referir-se à Argentina e à América Latina. O megafone, um dos instrumentos que usa nos shows, é metáfora da postura de Simja, que consegue fazer música atuante sem ser panfletário. “Apesar de todas as crises e trapalhadas, ainda amo meu país”.
O apreço e o carinho pela Argentina não impediram Simja de fazer uma turnê européia e de passar alguns meses em Nova Iorque, morando no bairro do Brooklin, gravando um trabalho cujo lançamento acabou adiado devido à crise financeira do ano passado. Pena. Quando o lançamento acontecer, ele avisa.
Simja adorou o público brasileiro, que lhe foi bastante receptivo na apresentação no Clube Berlin, na sexta-feira passada. O argentino contou com a participação do brasileiro Raphael Evangelista, da banda Dilei, no violoncelo, e do cubano Pedro Bandera, na percussão. Simja recebeu várias mensagens de pessoas que conheceram o trabalho dele naquela mesma noite, com elogios. Foi curioso: a rivalidade futebolística entre o Brasil e a Argentina não surgiu na nossa conversa nenhuma vez. Passamos pela política e pela crise internacional, pela popularidade internacional do presidente Lula, pelo espaço conquistado pelas igrejas evangélicas no Brasil, pela beleza de Buenos Aires, pela superioridade argentina na porcentagem de alunos matriculados nas universidades. O futebol, a Copa do Mundo, Maradona e Pelé ficaram de lado. Talvez porque haja, além dele, uma outra linguagem universal: a música.


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