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Macaco Bong no Auditório Ibirapuera: muita intensidade em poucas palavras

"Belezza" - Macaco Bong @ Festival Alto Verão from Urbanaque.com.br on Vimeo.

Quem esteve na sexta ou no sábado no Auditório Ibirapuera teve a chance de entender os motivos pelos quais os independentes têm ganhado cada vez mais espaço na música brasileira. Não afirmo isso por gosto pessoal ou preferência por algum gênero, claro está: não canso de enfatizar aqui no blog da Identidade Musical que é necessário pagar o tributo aos mestres do passado, aprendendo com eles. Mas os shows do Macaco Bong neste fim de semana serviram para demonstrar que de fato algo de diferente vem ocorrendo na música brasileira.

Primeiro: o Macaco Bong é uma banda instrumental. Desde a primeira vez em que ouvi falar nisso, confesso que duvidei da possibilidade de um projeto como esse dar certo. E faço aqui o mea culpa: não só dá certo como abre espaço para reflexões de toda ordem a respeito da música, da canção popular, do público e das mudanças que têm ocorrido nos últimos tempos, graças à internet e ao barateamento da produção musical. Em palavras bem simples, (aproveitando-me de textos e ideias de Luiz Tatit e de Rogério Skylab) dipensar completamente a entoção vocal sem fazer música exatamente erudita talvez seja um campo ainda mal explorado por bandas nacionais de rock - e que o Macaco Bong vem desbravando sem medo, a passos largos.

Dessa constatação, partimos para uma outra, talvez ainda mais grave: as participações de Vitor Araújo - cujo instrumento e formação são iminentemente eruditos -, Siba, Jack, percussionista do Porcas Borboletas, e dos Móveis Coloniais de Acaju sinalizam que aquilo que o Macaco Bong faz é rock, mas não é apenas rock: o som dos caras transita entre erudito do piano e o popular da rabeca e dos ritmos africanos - as participações de Jack e Siba demonstraram isso claramente -, daí para os gêneros que o filósofo Theodor Adorno chamou pejorativamente de "música ligeira", que ele considerava menores, mas que Eric Hobsbawn julgava poderem ser também poderosos ideologicamente, no livro História Social do Jazz. A participação dos Móveis, por sua vez, além de mostrar que os Macacos podem fazer, sim, um som bem dançante, acabou por evidenciar a força da nova geração da música brasileira, sobretudo no nascedouro fértil do Circuito Fora do Eixo. Gravadoras e sectários de toda sorte podem espernear à vontade: tem coisa nova vicejando na música brasileira, e não é o último disco de algum monstro sagrado da mpb. É um power trio que dialoga com a música erudita, com a música popular e até folclórica e com os gêneros da indústria cultural.

Aliás, foi ótimo que o show tenha acontecido no Auditório Ibirapuera, em que o público fica sentado, sem venda de bebidas alcoólicas durante o show, sem que se saia pra fumar: para apreciar o que aconteceu ali, era necessário concentrar-se, conectar-se à música. Muitas vezes, a letra - pela qualidade do letrista ou por sua incompetência completa - acabo por escamotear detalhes dos arranjos sonoros. Meu professor Tatit argumentaria que os conteúdos profundos de uma canção estão na letra e na entoação vocal - e não sou eu quem vai discordar dele. Mas penso aqui no público comum (sem que essa expressão tenha sentido pejorativo, apenas pensando no público que não é especializado e que ouve música por mero desfrute, sem preocupação com detalhes técnicos, a não ser aqueles que conspirem para a diversão): ele dá pouca ou nenhuma atenção às experimentações, às nuances, aos detalhes. Ficar sentado, sem cantar letra junto com a banda, sem cerveja nas mãos, sem ficar transitando de uma rodinha de conhecidos a outra, tudo isso fez que o público, fosse ele comum ou especializado se conectasse de uma forma tal ao espetáculo do Macaco Bong que as pessoas se arrepiavam, às vezes deixavam escapar uma lágrima, sem que soubessem bem por que o faziam: era o êxtase estético, que aquele espaço, uma banda instrumental e parceiros tão diferentes, mas ao mesmo tempo tão entrosados, podem proporcionar. Ao final de cada música, Jack se jogava no chão, jogava latas para o alto, corria pelo palco, abraçava instrumentos e músicos, parecia que orava, como que reverenciando o que acontecia ali. Poucas palavras, em espetáculo de intensidade poderosa.

Abaixo, a cobertura que o Showlivre fez dos ensaios e mais vídeos do show.

"vamodahmaisuma" - Macaco Bong @ Festival Alto Verão from Urbanaque.com.br on Vimeo.

"Rancho" - Macaco Bong @ Festival Alto Verão from Urbanaque.com.br on Vimeo.

"Black's Fuck" - Macaco Bong @ Festival Alto Verão from Urbanaque.com.br on Vimeo.

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5 Responses

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  1. Janinha says

    Concordo fortemente.
    Primeiro show deles que vi, e até agora não tenho palavras pra expressar a mágica que foi... ainda bem que vc tem. rs
    Fico imensamente feliz por ter presenciado esse show memorável.

  2. Carlos Rogério says

    Janinha:

    De fato, a apresentação do Macaco Bong foi mágica!
    Obrigado pela leitura!

    Abs!

  3. Inti Queiroz says

    Otimo texto. Concordo plenamente!
    A música instrumental vem crescendo muito. E tem muitas boas bandas de "Música Ligeira" por esse Brasil viu... Parabens pelo texto.
    PS: Tatit tb foi meu prefessor...rs

  4. Carlos Rogério says

    Salve, Inti!

    Tenho certeza de que ainda conheço pouco as bandas de música instrumental do Brasil - "ligeira", pejorativamente, para o Adorno; boa para nós. Como já percebi que você está envolvido no Festival PIB, pelo link que você deixou, já lhe faço o convite: que tal escrever um texto sobre o panorama atual da música instrumental no Brasil para nosso blog? Fiquei feliz com seu comentário, pois nunca soube bem como pensar e analisar música instrumental. Você também pode propor um debate a respeito, se quiser: é mais que nosso convidado.

    Tatit é nosso mestre: há vários posts aqui em que uso parte das teorias dele sobre a canção. Eis a lista deles: http://identidademusical.com.br/blog/tag/luiz-tatit/

    No mais, muito obrigado pela leitura!
    Forte abraço!

Continuing the Discussion

  1. Grito Rock São Paulo 2010: Macaco Bong e Porcas Borboletas – Blog da Identidade Musical linked to this post on 30/01/2010

    [...] para a cena independente de São Paulo. Macaco Bong foi assunto aqui no blog na semana passada, num dos nossos posts mais acessados; várias canções do Porcas também já foram analisadas aqui. Vai ser uma noite daquelas. [...]



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