Quem teve a chance de assistir ao show de lançamento do CD O Quarto das Cinzas, da banda O Jardim das Horas, no domingo, dia 24, na Sala Adoniran Barbosa, no Centro Cultural São Paulo, se emocionou bastante. Mais do que isso: pôde entender, de forma completa, a proposta estética e comportamental (acho que eu até poderia escrever "espiritual") da banda, que vai além de suas canções, mas as integra num todo que é arte que toca largamente os mais sensíveis.
Para entender essa breve introdução, basta ouvir o CD com atenção, acompanhando as letras: talvez a síntese do trabalho dO Jardim das Horas seja o refrão de "Anoiteço": "Quero ver a claridade do que é real". Nesse verso breve, primeiramente, percebe-se um sujeito poético movido pelo desejo, pelo querer - e é importante, em quase todas as canções do Jardim, esse movimento subjetivo, sempre investigado, explorado, experimentado ao limite, às vezes limitado pela razão, outras livre, porque não pode ser domado. Em "Incontrolável", Laya canta "Vou esperar pra ver se sou capaz de me perder de amor / ou se algum de vocês é capaz de me desequilibrar": trata-se de um teste dos sentidos, das sensações e da razão, também observado em "Viciante", em que "Corpo quer e razão nega".
A questão toda nessas canções parece ser a tentativa de alcançar o equilíbrio entre as necessidades e desejos do corpo - que nem sempre serão plenamente saudáveis -, de um lado, e os conhecimentos adquiridos por meio da racionalidade ("Estou estudando pra compreender", é o que se ouve em "Expansão"), que contribuem para o mergulho na própria espiritualidade, de outro. Mas não podemos esquecer que O Jardim das Horas é uma banda - e as propostas de Laya, Carlos e Rapha serão, portanto, estéticas.
É por esse motivo que, no refrão de "Anoiteço", Laya afirma que quer ver a claridade. Todas as canções do Jardim, umas mais, outras menos, versejam a respeito de impressões dos sentidos. A claridade está necessariamente associada à visão. Todos os outros sentidos também são explorados: as "ondas do mar sagrado", visitadas em "Amarelolilás", são experimentadas pelo tato e pelo paladar. O olfato leva às "Priscas eras" - talvez a mais bela canção sobre amadurecimento da nova geração de bandas independentes. E assim sucessivamente, numa avalanche de sensações que lembram a proposta do heterônimo Alberto Caeiro, de Fernando Pessoa, cujo projeto era, grosso modo, a experimentação da realidade natural por meio dos sentidos. Mas o Jardim vai além, porque, embora o trio esteja diretamente ligado, em muitas das letras, à natureza - e muitas vezes a natureza seja a lente por meio da qual ele sente o mundo e a si mesmo -, a ligação com a urbanidade e a modernidade é inerente à banda, nas programações e nas guitarras de Carlos Eduardo Gadelha e nas linhas de baixo de Raphael Haluli. No show, Laya afirmou que os integrantes do Jardim não sabem definir com exatidão o gênero de música que fazem: ainda bem. Isso significa que nas canções deles fluem, sem conflito, a música eletrônica, que lhes põe os pés no presente tecnológico e global, e a canção popular brasileira, que lhes dá ancestralidade, nacionalidade e paixão pela natureza, sem exotismo exagerado. A proposta dO Jardim das Horas talvez seja, portanto, a descoberta da realidade por meio dos sentidos, de modo que sejam alcançadas não as aparências, mas as essências - que são iminentemente subjetivas. A "claridade do que é real" não são, por exemplo, imagens de violência urbana, mas conteúdos profundos do sujeito e dos sujeitos com quem tomamos contato diariamente.
O espetáculo de domingo só poderia ter sido, pois, múltiplo: além da música, houve poesia, dança, projeções, com a atriz Mariana Rattes, a artista plástica Mari Kuroyama, o cineasta Jair Molina e o poeta Caco Pontes - além de participações especiais de Fernando Coelho do Mamma Cadela, de Vitor Colares do Fóssil, do guitarrista Junior Boca, e até do produtor Paulo Beto, que usou um Theremin, instrumento a um só tempo futurista e passadista. De uma banda como O Jardim das Horas, cujo projeto estético é sinestésico, só se poderia esperar um espetáculo que mergulhasse em diversas artes, explorando movimento, cores, sonoridades, timbres e versos. Em "Viciante", por exemplo, o público pôde observar que, de fato, basta um beijo para que as peles se percam: de um lado de um tecido diáfano, dançava o bailarino Felipe Teixeira, cujos movimentos dialogavam com os de Laya, do outro lado do mesmo tecido, até o momento em que não se distinguia mais onde estava cada um deles, metáfora visual da fusão e do desejo viciante do corpo que vicia: "Respiração / Transpiração / Movimento / Vibração / Viciante".
A urbanidade de São Paulo, que completaria 456 anos no dia seguinte, também foi lembrada por Raphael Haluli, que, num dos momentos mais emocionantes do show, em breves palavras, homenageou a capital paulista, afirmando que, apesar de tudo, nós paulistanos também tínhamos jardins. Laya lembrou-se de que a Sala em que estávamos levava o nome de Adoniran Barbosa, sambista paulistano cujo espectro se fez presente com "O Trem das Onze" - e daí a banda encerrou o espetáculo com "Divino Maravilhoso", arrematando o próprio projeto, em que cabem música eletrônica, samba paulistano, MPB e o que mais for coerente com a proposta dO Jardim, que ninguém é capaz de desequilibrar.
"Afundar na terra mar" - era o que se podia ler numa das projeções criadas ao longo do show. A intensidade das canções era tanta - fortemente acentuada pelo baterista Beto Gibbs, novo integrante dO Jardim e que deu ainda mais vida ao conjunto -, os jogos de luz aguçavam a visão de tal forma, as folhas no chão do palco remetiam tanto à natureza e Laya alongava ao máximo as vogais nas canções mais melancólicas, tudo isso fez que o público esquecesse por alguns instantes que estava na Sala Adoniran Barbosa, próxima do centro de São Paulo, como se houvesse, em meio a todo concreto, a todo o trabalho, a todo trânsito um jardim em que pudesse se refugiar por alguns instantes, mesmo que passageiros, habitados de luz, aromas, sabores, texturas e, sobretudo, melodias e arranjos suaves, reconfortantes e energizantes.
São Paulo também tem jardim: O Jardim das Horas.


Nice 1. Obrigado pela força - (©urve)music™ TEAM
Nós é que agradecemos a leitura!
Se São Paulo tem jardim, as sementes das flores deste jardim germinaram em Fortaleza...Aguardando ansiosa para revê-los. Parabéns pelo lindo texto! Você conseguiu traduzir em palavras as minhas impressões e sentimentos ao assistir esse show em Fortaleza.
pode crê!
em breve a gente vai na nossa terra do Sol fortalecer nossa energia!
lindo texto Carlos!
grata!