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Carnaval, Grito Rock, independência e formação do público: por um mercado independente

O carnaval começa hoje, e hoje já dormi irritado com um vizinho da rua de baixo, que ouviu samba a noite toda. Não tem jeito: quem mora no Brasil tem de aceitar que é quase impossível fugir de carnaval e futebol. Gostemos ou não, temos de entender que essas são duas de nossas maiores manifestações culturais. Aliás, já me meti aqui – apesar de essa não ser a minha especialidade – a analisar o samba-enredo “Vai Passar”, de Chico Buarque. Também já usei o carnaval pra pensar um pouco a respeito de canções de 365 e de Visitantes. Tentativa de relacionar a maior festa popular do Brasil – que, em boa medida, já está pasteurizada pelas transmissões de tv – com o melhor da MPB e do rock paulistano.

Mas acordei consolado, porque hoje à noite acontece o Grito Rock São Paulo, no Studio SP, com dois espetáculos antológicos: shows de Macaco Bong e Porcas Borboletas.

Quem acompanha este blog, sabe que já escrevi três textos sobre o Porcas: um sobre o primeiro trabalho deles, um sobre a canção “Menos” e outro sobre um show que fizeram no mesmo Studio SP, em 2009. Sobre o Macaco Bong, escrevi um no mês passado, que estourou de acessos.

Talvez a gente se esqueça de que a nomenclatura “Grito Rock” remete aos “gritos de carnaval” – aqueles blocos que saem antes dos dias oficiais do feriado, excitados pela proximidade da festa. Não sei se o nome “Grito Rock” foi, no nascedouro, inspirado em uma certa resistência à alienação inerente ao carnaval. É desnecessário retomar o debate aqui: o carnaval seria, numa determinada linha de raciocínio, o feriado que serve para a população, de todas as classes sociais, alienar-se da realidade, mergulhar na cerveja, nos lolós e nas músicas fáceis. Por outro lado, o rock seria um gênero mais radicalmente ligado à contestação. Deixando de lado exageros e sectarismos, tudo isso tem muito de verdade. Mais ainda: na história da canção brasileira, cada vez mais os lançamentos de carnaval têm aquela feição repetitiva, que enjoa, feita pra “tirar o pé do chão”, na euforia gratuita, de massas, completamente vazia, meramente festiva... por quê?

As bandas independentes têm papel relevante nesse contexto, por meio do Grito Rock – principalmente se considerarmos que ele é, de certa forma, uma contestação, não ao carnaval em si, mas ao modelo de mercado que ele ajuda a sustentar. Mas aí entramos na questão delicada, aquela que me levou a escrever este texto: falta, muitas vezes, uma definição precisa de o que é ser independente.

E aqui vou insistir em meu estudioso preferido: Luiz Tatit (na foto à direita), cujo grupo Rumo foi um precursor dos independentes de hoje. No artigo “Antecedentes dos independentes”, de outubro de 1984, que hoje pode ser lido no livro Todos Entoam, o compositor e professor da USP revê a história da canção brasileira sob uma perspectiva bastante curiosa: as relações entre função técnica (técnicas de gravação, reprodução, divulgação, etc) e função artística. Para ilustrar: no início do século XX, os cantores tinham de ter vozes potentes para que as gravações tivessem mais qualidade, devido à precariedade dos processos de gravação.

Pois bem: pra resumir bastante – insisto aqui que todo mundo que trabalha com música tem de ler o texto integral do Tatit –, com a evolução das tecnologias, as duas funções tiveram maior ou menor proximidade, de acordo com o gênero musical, com a faixa de público atingida e com a época. Avaliando o movimento independente da década de 80, em São Paulo, chamado tradicionalmente de Vanguarda Paulista, associada ao próprio Rumo e a Itamar Assumpção, Tatit afirma o seguinte:

Como essas empresas [as grandes gravadoras] invadiram o domínio artístico assumindo também suas funções (visando maior controle do produto), esses artistas [independentes] embora em proporção infinitamente menor, passaram a acumular em ampla escala a função técnica, território inviolável das gravadoras.

Trata-se, com as diferenças acentuadas pelos progressos tecnológicos de trinta anos, exatamente do processo que vivemos hoje em escala acentuada. E depois, ainda diz o seguinte:

Daí decorre a noção de artista independente. Ao invés de permanecer à espreita de oportunidades ou de se submeter a julgamentos, quase sempre humilhantes, por parte dos empresários-produtores, o artista percorre toda a trajetória da produção e da divulgação do disco, enfrentando toda sorte de obstáculos, pagando todos os custos, para no final concluir que o preço de seu LP não saiu tão caro (principalmente se comparado a produções de áreas vizinhas como o cinema, por exemplo), a técnica empregada não foi tão complexa e a distribuição e divulgação em escala modesta foram suficientes para o reembolso do capital inicial.

Impressionante que o texto tenha sido escrito há mais de vinte e cinco anos. O artista independente continua sendo aquele que não aguarda as oportunidades e acumula as funções técnica e artística – gozando de total liberdade de criação. Por outro lado, as possibilidades infinitas de gravação que o desenvolvimento tecnológico trouxe nas últimas duas décadas talvez tenham gerado uma oferta excessiva – para usar um termo mercadológico – de produções artísticas, o que resulta em concorrência violenta. O Toque no Brasil e o Grito Rock são exemplos disso: centenas, talvez até milhares de bandas pelo Brasil, disputando um lugar ao sol, dispostas a mostrar o trabalho por pouca ou nenhuma remuneração.

Não pretendo avaliar esse cenário de forma aprofundada, nem prever os rumos que o mercado da música independente tomará. Mas é importante analisar alguns detalhes.

O primeiro, que me parece fundamental, é de ordem estética: a efervescência da cena musical independente dá voz a propostas musicais ousadas. Se quisermos, dá o direito ao grito (rock) de que falava o narrador de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. Bandas independentes como Macaco Bong e Porcas Borboletas – só pra citar as duas que gritam rock hoje à noite – criam trabalhos conceituais, artisticamente ousados, que passam longe dos produtos pasteurizados das FMs e das trilhas de novelas. Mais do que isso: a difusão de propostas como essas contribui no processo de formação do público, invertendo a chave dos grandes meios de comunicação. Em palavras bem simples: a aceitação cada vez maior de bandas como Macaco e Porcas desbanca a ideia de que “o público que se divertir, dançar e cair de bêbado, sem pensar” – justificativa dos mais conservadores para a produção do lixo musical que nos agride os ouvidos.

Segundo detalhe: quero acreditar que, com o tempo, o público saiba diferenciar, com base no processo formativo que vem experimentando agora, as bandas independentes de projetos ousados das que, embora independentes, apenas repetem o modelo de “sucesso” (que também está em xeque) das grandes gravadoras. Mas não posso acreditar que a indústria fonográfica não tenha se dado conta das alterações que o mercado de música vem sofrendo. Nem tenho tanta fé na humanidade a ponto de acreditar que, no futuro, só vingarão bandas de propostas ousadas. Nem acho que isso seja saudável: a canção, ao longo de todo o século XX, foi feita para consumo. Em teoria, não acredito que seja um problema a existência dos produtos pasteurizados do mercado – todos queremos dar uma chutada no balde de vez em quando, quando a vida está difícil, e não queremos pensar em nada, só curtir. Mas acredito que seja grave que proposta ousadas esteticamente não tenham o espaço e o investimento que merecem.

Daí ao terceiro detalhe: pouco vale uma proposta estética ousada se aqueles que a criaram não tiverem chances de dar-lhe continuidade. Atualmente, as bandas têm se virado com cachês apertados, incentivos públicos e algum apoio isolado da iniciativa privada. Empregos fixos, que nada têm a ver com música, são uma alternativa para muita gente. Com sorte, surgem empregos que dialogam, em alguma medida, com a música. Mas a verdade é que, apesar de o estarmos construindo, ainda não alcançamos – nem sabemos exatamente o que virá a ser – o mercado (não apenas a cena) independente de música, em que músicos e profissionais da área de música independente tenham uma remuneração digna e possam dedicar-se a seu trabalho: a integração equilibrada entre as funções artística e técnica.

Posted in Cena e Mercado.

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2 Responses

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  1. Cardelli says

    Do caralho o texto, Rogério. É uma linha de pesquisa muito parecida com a que eu usei no meu TCC =) Deve ter umas 30000 bandas em atividade no Brasil, das quais menos de 100 são filiadas à indústria do entretenimento. 29900 bandas independentes, movimentando a economia de venda de instrumentos/equipamentos, comes e bebes em casas de shows, e aluguel de estúdios de ensaio e gravação.

    Econo-piração: de cada 100 guitarras vendidas no país, quantas será que se pagam (com cachês, shows, etc)? se pá, uma? O que nos dá 299 bandas independentes capitalizando no Brasil, uma perspectiva ultra-otimista. A Visitantes p. ex. já percorreu 10 Estados e não paguei minha Fender de volta.

    Eu acho que chutando alto, umas 30/50 bandas independentes tenham superávit hoje em dia (contando TODOS os gastos de vida), o que dá meio que 0,1% do total de guitarras vendidas no Brasil. ou seja a cada 1000 guitarras vendidas, uma faz dinheiro. há!

  2. Carlos Rogério says

    Muito obrigado pela leitura, Cardelli!

    Como faço pra ler esse seu trabalho? Ele me interessa muito. Está disponível na internet?

    Abraço!



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