Pra muita gente, domingo costuma ser dia de acordar tarde, almoçar com a família, cochilar, depois pegar um cinema e ir pra casa. A Identidade Musical propõe, assim, um post dominical, descompromissado, só para ouvir um barulhinho – ou barulhão, se for o caso – antes de a semana começar. Quem sabe, o som que você pode ouvir no carro na segunda pela manhã, ou no escritório, ao longo da semana: uma forma de estender o fim de semana semana adentro…
Nosotros na Livraria da Esquina no dia 04 de fevereiro, participando do Projeto Mais Massa
Originada em São Paulo, Nosotros tem cara de big band. Com oito integrantes, e sonoridade pop rock, passeia pelo folk e privilegia melodias em todos os âmbitos, com harmonias marcantes e letras sensíveis. De certa forma, em todas as canções – nos vocais de Ricardo ou de Larissa –, nota-se uma procura de si próprio. Essa atmosfera introspectiva ganha amplitude e conquista, por meio de batidas aceleradas e de arranjos dançantes, cheios de brilho, graças aos instrumentos de sopro, fazendo da audição do Nosotros uma experiência ao mesmo tempo coletiva, pra dançar e cantar junto, e íntima, pra ouvir sozinho em casa e viajar longe.
Na letra de “Lado B”, a procura do sujeito pelo amor e por si mesmo confere densidade à composição, atenuada e animada pelo arranjo, que evolui até alcançar o topo nas guitarras de Bruno e Rafael e, principalmente, nos metais de Leandro, no trombone, e de Thiago, no trompete. Os instrumentos de sopro amplificam a sonoridade para tons mais claros, apontando a perspectiva de realização amorosa e de encontro consigo mesmo. “Lado B” fica sendo, assim, canção cujas melodias encantam à primeira vista, que instiga pela falta de letra no refrão, que apaixona pela instrumentação, que convida a outras tantas audições – e que conquista mais o ouvinte a cada uma delas.
Em “Sorte”, ganha destaque a voz de Larissa, que também toca violão e que tempera algumas das canções com a sonoridade folk. A letra com partes em inglês e refrão em português tem a cara destes nossos tempos globalizados – em que os conteúdos mais profundos podem estar expressos em mais de um idioma, sempre acompanhando uma linha melódica vocal que envolve e que culmina no solfejo final, claramente influenciado pelos Beatles.
Aliás, a experiência de usar outros idiomas pra investigar melodias alcança ponto alto em “Nej Nej”, que alterna trechos em inglês e dinamarquês. O título, por si só – “Não Não”, em dinamarquês –, já sugere uma das canções mais melancólicas da banda, em que o vocalista Ricardo capricha na interpretação doída da negação do título e das sensações de solidão e incompreensão, expressas em “I did that song ‘cause I’m alone, don’t you understand?” e na própria escolha do inglês e do dinamarquês para a letra, sugerindo a sensação de que o vocalista é um estrangeiro em sua própria terra – e até em si mesmo.
Talvez seja dessa sensação de desterro que venha a resposta de “A Volta”, a composição mais complexa e dançante do Nosotros, em que o baixo de Rodolfo e a bateria de André falam alto. Na letra, a banda investiga a percepção de que a vida é passageira, de que o tempo passa inevitavelmente e de que o certo e o errado são relativos. Em poucas palavras: em “A Volta”, o Nosotros versa sobre a transitoriedade das coisas – e sobre como lidar com elas, já que são tão fluidas. É o andamento acelerado que dá a resposta: não adianta esperar respostas que jamais chegarão – é preciso “calçar a vida” e aguardar um pouco, pra ver se o sentido pode ser encontrado. E ele pode: é nos retornos – e na percepção de que, ao retornar, já não somos mais os mesmos – que a vida e a música ganham sentido.


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