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Quem está “com a corda no pescoço”? Mídia, indústria fonográfica e cena independente – Parte I

A miopia e outras alternativas

Na Folha de São Paulo do dia 21 de fevereiro, em texto de Bruna Bittencourt, pode-se perceber a miopia da grande mídia em relação ao que vem ocorrendo recentemente na música brasileira. Segue abaixo o primeiro trecho da reportagem:

A música brasileira está com uma corda em volta do pescoço. É o que aponta o relatório da Federação Internacional da Indústria Fonográfica de 2010, divulgado no fim de janeiro.
Segundo o estudo, os lançamentos de discos de artistas nacionais pelas cinco maiores gravadoras do país caíram 80% entre 2004 e 2008. E, em 2008, foram lançados 67 álbuns de artistas nacionais pelas mesmas companhias -um décimo do número de uma década atrás.
Os números soam ainda mais pessimistas em um mercado como o brasileiro, no qual 70% da música consumida é local
“.

Para quem acompanha a cena independente nos últimos anos, a primeira frase do texto soa cômica. Estamos mesmo com a corda no pescoço? Não falemos de números, inicialmente. Falemos de qualidade: depois de Móveis Coloniais de Acaju, Vanguart, Romulo Fróes, Cérebro Eletrônico, Los Porongas, Madame Saatan, Porcas Borboletas, Volver, O Jardim das Horas, depois de todas essas bandas e artistas, e mais tantos outros que seria extenso demais listar aqui, é possível dizer que a música brasileira está com a corda no pescoço? Melhor: de onde terá vindo uma avaliação tão equivocada quanto essa?

O próprio texto responde: é dos números das “cinco maiores gravadoras do país”, cujos lançamentos “caíram 80% entre 2004 e 2008″. Pois bem. Se for esse o critério, talvez seja melhor dizer que as tais cinco gravadoras estão com a corda no pescoço, não a música brasileira. Essa vai muito bem, num de seus períodos mais férteis, com festivais espalhados pelo país, com o mercado independente crescendo cada dia mais. Só não vê quem não quer. Ou quem se restringe aos lançamentos daquelas gravadoras.

Na matéria do programa Almanaque, disponível no Globo.com, com entrevista de Pena Schmidt, integrantes de Móveis Coloniais de Acaju, Hurtmold e Cidadão Instigado, observa-se a riqueza da música brasileira atual, com base nos shows que rolaram no Auditório Ibirapuera em janeiro:

A matéria acima foge à regra das que são veiculadas na grande mídia, nas quais – como se pode observar no texto publicado na Folha – o discurso da indústria fonográfica é adotado como referência. Ao menos alguns veículos, ou alguns núcleos dentro deles, já perceberam que não é possível ignorar que a música brasileira não está com a corda no pescoço, ao contrário: vive um de seus momentos mais pujantes.

Também chamou a atenção, na semana passada, o lançamento do site Nagulha (http://nagulha.com.br/), cuja proposta, que segue abaixo, é uma alternativa:

Na história da música pop, as publicações sempre tiveram um papel fundamental na consolidação de nomes e tendências. Mas a crise da indústria fonográfica e o avanço da internet mudaram drasticamente o cenário na última década. As publicações em papel (incluindo os cadernos culturais dos grandes jornais e revistas) sofrem com a perda de anunciantes, ao mesmo tempo em que seu cada vez menor espaço editorial não consegue dar conta de um cenário progressivamente mais horizontalizado, acelerado e diverso. Ou seja, um momento de crise comercial mas, principalmente, de grande exuberância cultural.

É essa riqueza de produção – o surgimento de bandas e artistas muito promissores vindos de todas as localidades, mesmo (ou principalmente) de regiões sem muita tradição na música e na cultura pop, como o norte e o centro oeste – que só uma revista eletrônica como o Nagulha pode abordar com consistência.

A iniciativa do Nagulha é louvável, porque ocupa uma lacuna considerável na divulgação, análise e promoção de bandas – e de um novo mercado musical em expansão – que jornais como a Folha de São Paulo parecem ignorar.

Devido à extensão do texto, este post será dividido em três partes, que serão publicadas ao longo da primeira semana de março de 2010.

Posted in Cena e Mercado.

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7 Responses

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  1. Ludmilla Lima says

    Concordo totalmente. Excelentes considerações. Saludos!

  2. Carlos Rogério says

    Obrigado pela leitura, Lud!

  3. Ricardo Pinheiro Lima says

    Mas a matéria da Folha me parece óbvia! O que mantém os cadernos de cultura dos grandes jornalões são notícias de músicos das grandes gravadoras. O que, de regra, para eles, é só o que interessa…. o que pode ser medido em número de álbuns vendidos.

  4. JulliPop says

    Olhos fechados…só aparece o que é pago para aparecer e esta realidade é bizarra para o circuito independente que quer fazer a música na qual acredita e se possível viver dela. Corrupção…parece não combinar com arte mas infelizmente até nesta esfera ela está grudada,e, neste sentido, pensar se torna desanimador. Bom para compor…

  5. Fred kling says

    É mais uma prova de que a indústria musical, imprensa divulgadora incluída, ainda não sabe lidar com um ambiente descentralizado, no qual não há uma ou poucas fontes emanadoras de informações, mas sim um número praticamente infinito de entes dispersos.

  6. MdC Suingue says

    Muito boa a matéria e a análise.
    Que a crise é da indústria fonográfica e não da música brasileira é uma afirmação que nós do Caipirinha Appreciation Society viemos repetindo exaustivamente para todos que teimam em confundir cultura com mercado.
    Em cinco anos explorando a diversidade de nossa música não cansamos de nos surpreender com a criatividade e o poder de renovação de nossa música.
    As gravadoras se deram mal pois o modo de produção fugiu das mãos deles para as dos artistas, que tomaram as rédeas de seu trabalho e de suas carreiras.

  7. Dennis Zasnicoff says

    Legal, acho que o ponto da miopia da mídia está bem claro. Mas como produtor independente, com clientes independentes, acho que uma outra grande questão é não ignorarmos que o artista independente precisa investir na sua publicidade.

    Confesso que nunca escutei alguns dos nomes de bandas citados neste artigo. O que mais encontro no dia a dia são artistas que desejam retorno moral e financeiro sem qualquer investimento (tempo, dinheiro, produção, composição).

    Não basta acreditar na arte, há que transformá-la em um produto apresentável, atingir o público e provar que é bom! Parabéns pelo tópico, abs.



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