Skip to content


Pesquisa personalizada

Quem está “com a corda no pescoço”? Mídia, indústria fonográfica e cena independente – Parte II

A pirataria e o público

Este post é continuação da análise da reportagem publicada no dia 21 de fevereiro, na Folha de São Paulo, em texto de Bruna Bittencourt. Para ler a primeira parte da análise, clique aqui.

O texto segue:

Mas, para Paulo Rosa, presidente da Associação Brasileira dos Produtores de Discos (ABPD), a estatística é inflada. “Essa redução é muito menor do que os 80% apontados”, afirma. Rosa explica que as gravadoras dividem seus produtos em três séries de preço -alta, média e econômica. Mas, com as condições adversas de mercado, cada vez mais lançamentos de artistas nacionais são feitos com preço mediano. E o levantamento do IFPI considerou como lançamento apenas aqueles de preço mais alto. “Embora a estatística seja exacerbada, é a realidade. O investimento no repertório nacional diminuiu muito”, rebate José Antônio Éboli, da Universal.
A Folha ouviu os presidentes das cinco principais gravadoras brasileiras sobre as causas para essa queda e a pirataria física e virtual é a primeira apontada. “Ela só vai diminuir mais o investimento em repertório local”, diz Sérgio Affonso, presidente da Warner. Para Alexandre Schiavo, da Sony, falta uma lei severa contra a prática.
Para Zezé Di Camargo, que viaja o país fazendo shows, a pirataria se beneficia da ausência de pontos de venda em pequenas cidades. “”É muito difícil comprar um disco original no interior. Antes, qualquer cidade tinha sua loja. Hoje, tem muita gente que compra o pirata porque não encontra o original”, afirma. O cantor defende que se esses pontos ainda existissem, venderia 30% a mais de seus discos. “Hoje, a gente vende 30%, 40% de discos que vendíamos. É muito diferente do que era há dez anos”, diz Zezé, que, ao lado do irmão, Luciano, foi um dos artistas mais comercializados no Brasil em 2008.
Para Leonardo Ganem, da Som Livre, com a queda de venda de CDs as gravadoras passaram a arriscar menos. “A indústria tinha como lema gravar dez artistas para ter dois sucessos. Hoje, isso seria uma insanidade. Você tem que ser muito mais seletivo”, diz Éboli
“.

Ah, é verdade. Eu tinha me esquecido da pirataria, o grande demônio do mercado de música, o grande culpado pela redução das vendas de CDs. Nenhuma linha sobre os preços exorbitantes dos CDs, sobretudo os dos lançamentos. Nenhuma palavra sobre novas tecnologias que baratearam os custos de gravação, que permitem aos artistas maior liberdade de criação, sem os contratos absurdos das grandes gravadoras, cujos produtos são sempre os mesmos. Evidentemente, na lógica do texto, o público que consome a “pirataria física e virtual” é o culpado pela diminuição do investimento no mercado local.

É curioso: se, há uns dez anos, perguntássemos a algum diretor de grande gravadora por que só se investia em “produtos” de grande potencial comercial, ele responderia, sem pestanejar: “é disso que o público gosta, é ele quem manda, ele sabe escolher”. Poderíamos perguntar, também, por que não se investia em trabalhos experimentais, de maior complexidade. E a resposta seria a mesma, com a chave invertida: “porque o público não gosta disso, isso não vende”. Talvez fosse verdade na época, e continue sendo até hoje. O que ninguém percebeu é que são as experimentações estéticas que alimentam, quando pinta uma brecha, o mundinho medíocre da indústria fonográfica. Já escrevi aqui: na década de 70, Vinícius de Morais deu um esporro em André Midani quando este afirmou que o futuro da música brasileira estava no rock. E foi do rock dos 80 que nasceram Cazuza, Lobão, Clemente Nascimento, Renato Russo, Herbet Vianna, Arnaldo Antunes e outros.

Agora, no discurso dos executivos, a culpa pela “pirataria física e virtual” é do mesmo público. Talvez fosse o caso de perguntar aos senhores diretores se a decisão do público não está, mais uma vez, correta. Na mentalidade corporativa, não se pode lucrar mais com o mercado de Cds nacionais, porque a pirataria impede que sejam alcançadas margens de lucro estratosféricas. Ora, sem chover no molhado: essa mentalidade já é nossa velha conhecida. Mas é lamentável o fato de a reportagem comprar cegamente esse discurso, sem mostrar o outro lado: o mercado independente, com todas as dificuldades que enfrenta, cresce a passos largos e tem revelado talentos em que a indústria fonográfica jamais investiria, com a desculpa de que eles não teriam “viabilidade” ou de que “o investimento não teria retorno”.

Melhor pra nós: o espaço da música independente está aí, pronto para ser explorado mais a fundo, com música de qualidade, com a maioria das bandas disponibilizando o CD para download ou o vendendo na forma física a um preço acessível. Há inúmeros ajustes a fazer, sem dúvida: os músicos independentes ainda precisam de melhor remuneração pelos shows, a cena precisa profissionalizar-se e sair da informalidade, é preciso ainda formar muito mais público, em todos os sentidos. Mas o que interessa é que siga adiante o ideal de fomento e consolidação de um mercado sustentável com música de qualidade.

Devido à extensão do texto, este post foi dividido em três partes, que serão publicadas ao longo da primeira semana de março de 2010.

Posted in Máquina do Tempo.

Tagged with , , , , , , , .


8 Responses

Stay in touch with the conversation, subscribe to the RSS feed for comments on this post.

  1. MdC Suingue says

    A realidade é que com o advento das novas tecnologias, o modelo de negócio anterior se tornou obsoleto e os incompetentes executivos de gravadoras estão mais perdidos do que cego em tiroteio.
    Eles não tem a mínima ideia do que o consumidor deseja.
    Quem quer consumir música agora tem acesso à leque muito maior de opções sem ter que depender da curadoria da máfia dos ‘produtores fonográficos’ e suas comparsas, as rádios jabazeiras.

  2. Carlos Rogério says

    Um salve e um agradecimento ao pessoal do CAS.podomatic.com pela leitura e pelos comentários!

  3. Cardelli says

    Recomendo pra esses dinossauros da indústria, e pros revolucionários de plantão a leitura de livros como “A Cauda Longa”,”Naked Economics” e “Wikinomics”. O fetiche pelo produto-arte está acabando, Andy!

    Loco que pouco depois de ler aqui, achei em algum twit amigo o seguinte artigo sobre séries estrangeiras:

    http://meiobit.com/meio-bit/internet/a-arma-mais-cruelmente-eficiente-contra-downloads-ilegais-bo

    Uma resposta dos Grandes Conglomerados à pirataria. Assustador? É só ler “A Cauda Longa”. Mais vale um site com um milhão de bandas e dois milhões de downloads que um site com dez artistas e sem downloads. A publicidade e os serviços de baixo custo vão monetizar e “encalacrar” de novo os sistemas de produção artística. Mas o lado bom que eu vejo é que aos poucos, você consegue ganhar bits monetários tb. Dinheiro. É assim que você oferece o seu tempo?

  4. MdC Suingue says

    Fala Carlos, é um prazer dar pitaco e beber do conhecimento que você divide aqui no Identidade musical.
    .
    Cardelli, não vejo problema com relação aos conglomerados controlarem a sua produção, Eu simplesmente não me interesso por ela e se eles estiverem produzindo algo que preste, não me incomodo em pagar, se achar que o preço é justo.
    O meu problema é que não se estrangule o acesso ao que NÃO É PRODUZIDO por eles, como acontecia quando eles eram os donos de todos os meios de produção e divulgação.
    Eu me preocupo muito mais com a mentira dos mecanismos de busca, são eles que estão criando estrangulamentos no mercado com a alegação de que estão ‘refinando buscas’. Eles são a nova forma de jabá, escute o que eu digo.
    Abs
    PS – Sim, adoro uma teoria de conspiração e essa é toda minha… :-)

  5. Fred kling says

    Há mais de 10 anos, eu tinha uma banda. Com 300 reais gravamos uma fita vagabunda em um estúdio caseiro. Hoje qualquer moleque com um computador grava um cd bem decente em casa, e ainda bota pra download. Artista nunca ganhou dinheiro com vendagens de discos, a não ser os mais tops dos tops. Artista ganha dinheiro fazendo show. É por isso que a indústria esperneia: a tal pirataria só mexe no bolso dela. Os artistas ficam lá, quietinhos, pois bem sabem que não são os prejudicados nela. Por vezes, muito pelo contrário.

  6. Cardelli says

    Tô contigo Fred!! Cd é cartão de visita!!!! =D

  7. Cardelli says

    MdC, essa dos mecanismos de busca é foda. peor q faz sentido, hehe.

    a discussão toda tá no modelo de negócio. A Sony criou aí essa Day1 Entertainment que agencia shows além dos discos (e fatura em cima), não tem o Myspace q veicula publicidade? E acho q a net foi tão popular no Brasli por causa da falta de opções na rádio. Rádio tinha que saber publicizar melhor. Pra não depender de jabá. Rádio é um serviço público!!!!!!!

Continuing the Discussion

  1. Quem está “com a corda no pescoço”? Mídia, indústria fonográfica e cena independente – Parte III – Blog da Identidade Musical linked to this post on 04/03/2010

    [...] Este post é continuação da análise da reportagem publicada no dia 21 de fevereiro, na Folha de São Paulo, em texto de Bruna Bittencourt. Para ler a primeira parte da análise, clique aqui. Para ler a segunda parte da análise, clique aqui. [...]



Some HTML is OK

or, reply to this post via trackback.