Conhecemos pessoas obtusas em nossa vida toda. Me lembro de no colegial e na faculdade ter conhecido muitos professores assim. Claro que vários dos meus colegas também eram. Se duas “entidades” tão distintas quanto alunos e professores tem em suas fileiras pessoas obtusas, logo se tornou claro para mim que seria assim em todo lugar, em todo mercado, com qualquer classe, credo e cor. Eu mesmo me vejo obtuso em algumas ocasiões.
Trabalhando com música encontrei muita gente assim, como era de se esperar. Tem algo em quem trabalha no mercado independente que me incomoda muito. Por ser uma cena muito segmentada, diversas vezes estou conversando com uma banda, com um produtor ou com um jornalista e o sujeito solta algo como “nós temos que fazer algo pela música independente” ou então “é isso que eu vejo acontecendo na cena musical independente”. Pululam artigos falando como tal artista vai salvar a música independente ou então festivais que se denominam grandes vitrines da música independente.
Normalmente ao lermos sobre tais bandas, acompanharmos a programação destes festivais ou conversarmos com essas pessoas o que percebemos é que em sua visão representar a música independente é uma questão altamente segmentada. Ou seja, o festival que se diz de música independente é de ROCK independente, a tal banda é representativa da cena roqueira e o que todos pensam em fazer é pelo rock independente. Não sei se esse problema é sintomático nas cenas de outros estilos, mas são poucos os envolvidos na cadeia produtiva do rock independente que conseguem ver que a MÚSICA independente ainda conta com movimentos como o hip-hop, o jazz, a mpb, o eletrônico, o sertanejo, a música instrumental, a música experimental e por aí em diante. Tem independente fazendo todo tipo de som. Do mais pop ao mais alternativo.
Mesmo ao falar de rock independente muitos dos que podem se julgar mais esclarecidos não colocam no mesmo tacho o metal e o hardcore, por exemplo. E são cenas extremamente organizadas, que movimentam muita gente e geram bons retornos. O pessoal que trabalha com reggae, por exemplo, consegue montar festivais para mais de 5000 pessoas somente com bandas independentes.
Isso não quer dizer que para trabalhar bem então temos que ser ecléticos, aceitar tudo e trabalhar com todos. Não funcionaria assim. Segmentar é bom e para nós é a melhor solução, mas temos que parar de olhar para nossos umbigos e achar que a música independente está circulando ao nosso redor. A visão crítica de outros estilos tem que ser aquela em que o achar ruim ou bom não tem nada a ver com gostar ou não gostar. Por exemplo, eu não gosto de artistas como os axés Ivete Sangalo ou Chiclete com Banana, mas não posso simplesmente falar que eles são ruins. Dentro da proposta de trabalho deles são ótimos músicos e contam com ótimas equipes.
E se houver um extremista que realmente prefira achar tudo o que os outros fazem um grande lixo, o sujeito poderia ao menos se dar o luxo de ver que existem práticas que a gente tem que entender como funcionam e adaptar, saber usar para nosso proveito. Como o famoso caso do Calypso, aliás, a maior banda independente do Brasil, que se auto-pirateava e com isso se tornaram um grande sucesso. Não é que uma banda de hip-hop ou de rock vai ter que fazer o mesmo, mas não é ao menos um caso interessante para analisar?
Ou ainda a cena funkeira. Um ritmo que faz sucesso em comunidades carentes, onde uma porcentagem bem baixa da população tem acesso à internet e atrai milhares de pagantes para cada baile. Será que não é o caso de nos perguntarmos como eles conseguem sem convidar todos seus amigo do Facebook? Ok, esse é um exemplo extremo, comunidades periféricas tem poucas alternativas e o que rola dentro da comunidade acaba se tornando a única opção. Mas por que não pensar em chegar nesse público, tocar para a periferia e “comer pelas beiradas”? E os milhares que vão às raves, muitas delas acontecendo à quilometros de onde moram, em outras cidades? Tem gente que eu conheço que se estiver rolando um show em qualquer outro lugar que não seja na Rua Augusta, aqui em São Paulo, não vai. Problemas de público, obtuso também.
Mais uma vez, repito, não é para espelhar as nossas ações nessas que já foram tomadas por outros produtores, de outros movimentos. Mas se quisermos dar mais alguns passinhos em direção à profissionalização, à organização e a um modelo de mercado que seja sustentável para artistas e demais envolvidos na cena, talvez seja hora de olhar fora da caixa e entender que estamos todos no mesmo barco.


Parabens pelo BLOG…
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