Em viagem a Rio Claro, topei por acaso com a banda Unidade Imaginária, do Rio de Janeiro
Ontem pegamos a estrada para apresentar umas palestras no Festival Rock Feminino, em Rio Claro. Confesso que, depois do Mais Massa de quinta-feira, com shows de Volver e Anacrônica, eu estava precisando de uma longa noite de sono - o que, evidentemente não aconteceu. O ritmo foi acelerado: acordamos, acertamos algumas burocracias e tomamos rumo. Largamos as coisas e fomos falar na Sala de Cinema do Centro Cultural de São Paulo. Foi legal a repercussão que as palestras tiveram aqui na mídia local. Este texto aqui saiu no Jornal Cidade.
Depois de um longo debate de mais de três horas, o mais razoável era ir dormir, já que os Nosotros tocarão no Festival Rock Feminino, e Barizon e eu vamos dar o apoio a eles. Mas há horas em que é preciso deixar o razoável de lado: fui ao Reppertorio Bar, na cidade vizinha de Santa Gertrudes, conhecer a banda Unidade Imaginária, que me impressionou muito positivamente. Pena que não tive como pegar o show completo da banda Vulca, de Rio Claro, porque cheguei um pouco tarde ao local. Logo na entrada, fotos com rostos conhecidos, principalmente o do Mestre Clemente Nascimento, que está em todas, há muito tempo. Soou como uma boa recepção.
Já fazia tempo que ouvia dizer que a cena independente no Rio de Janeiro é fértil, mas que o pessoal de lá tem mais problemas do que nós de São Paulo, porque o público da cidade tradicionalmente consome menos rock: tudo confirmado por Leo Vilhena, guitarrista da Unidade Imaginária, que viajou do Rio de Janeiro a Rio Claro de carro, ontem mesmo. E hoje, quando acordei tarde, eles já tinham partido fazia tempo. Coisas da cena. Mas esse trajeto todo não complicou a apresentação da banda, que foi impecável.
Não costumo analisar nada de um dia para o outro, mas gostei demais de uma canção que me pareceu demonstrar serem verdadeiros os rumores positivos a respeito da cena independente do Rio: minha primeira impressão de "Avenida" já no show foi a de que a canção celebra o carnaval, sem aludir gratuitamente a ele, mas utilizando-se de imagens como a da avenida do título e o amanhecer "em flores e cores pra gente passar". Tudo isso sem perder a pegada rock que caracteriza a Unidade Imaginária - foi o que confirmei já no quarto do hotel, ouvindo insistentemente o CD promocional da banda.
O rock carioca talvez seja mais festivo do que os outros porque uma cidade linda daquelas só pode amenizar por meio de seus compositores as contradições da vida concreta do Brasil. Talvez todas as praias e toda a história da canção brasileira correndo pelas ruas - apesar de todos os problemas que vemos nos jornais e que o cinema brasileiro insiste em explorar - façam que o rock carioca ganhe um lirismo quase utópico, que Cazuza, Barão Vermelho e Blitz já registraram, e em cuja tradição a Unidade Imaginária se insere. A avenida e o nascer do dia em cores e flores, nos arranjos da Vilhena e Valentina Zanini e nas entoações vocais de Mariana Volker, apontam para aquela perspectiva de futuro que já analisei antes aqui, sintetizada nos versos a seguir, que seguem me emocionando agora, em que me apresso para sair para o festival:
Eu sei não vai haver
Um dia pra fazer
Nascer tristeza ou solidão
Pois quero te fazer
Feliz em renascer
Haver-te em mim então
A análise completa fica para outro dia.
Perto do fim do show, a banda mandou "Dê um Rolê", de Morais Moreira e Galvão, mas para mim eternizada na voz de Gal Costa, no Gal Fatal a todo vapor, disco furioso que me lembra o amigo distante Rodrigo Tembiú, hoje agitador cultural na utópica Fortaleza, uma das próximas paradas da Identidade Musical em 2010. Desconsiderem as imagens e curtam o som:
Mas o dia já amanheceu faz tempo e já furei o almoço com o Barizon. Festival Rock Feminino começa em dez minutos. Transmissão na TV Cidade Livre.



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