Os Desengonçalves, da esquerda para a direita: André Abujamra, Odayr Baptista (atrás), Guilhermoso Wild Chicken, Mano Bap e Loco Sosa
Todos sabemos que Dj Pardal não descansa: numa mesma noite, ele vai a três festas, em diferentes lugares de São Paulo, entrevista músicos que encontra na Augusta, fotografa pessoas que encontra na Barra Funda, toma uma cerveja já cedo, em algum botequim, com os últimos boêmios, donos de casas noturnas e o pessoal que ruma aos after-hours das casas da cidade. No último sábado, conseguimos uma proeza: Pardal fez a cobertura completa, em foto e vídeo, das Noites do Bem, com a banda Desengonçalves. Pardal ficou conosco naquela noite toda, e registrou a passagem de som – que soava como um convite da Identidade Musical a ele: fique conosco esta noite!
Pardal é daqueles que gostam de trabalhar: enquanto a banda passava o som, fizemos uma reunião, traçando metas para as atividades da Identidade Musical nos próximos meses. Já estávamos com a ideia, há algum tempo, de criar a “Anti-Coluna Social”: não acreditamos em cultura de celebridades nem em fuçar a vida alheia. Gostamos mesmo é de analisar as obras, de fomentar as mais diferentes e autênticas manifestações musicais. Pardal tem história na cena independente nacional há bastante tempo, a ponto de ser chamado de “o bandeirante independente”, porque desbravou festivais por todo o Brasil, antes de muita gente de São Paulo saber que isso existia. Muitos amigos estavam por lá, para experimentar os sucessos de Nélson Gonçalves em versão roqueira:
Zeca Viana, baterista do Volver, e sua namorada, a artista plástica Bruna; Sammliz e Ed Guerreiro, do Madame Saatan; o professor universitário Rafael Araújo, que abriu espaço para a Identidade Musical na Escola de Sociologia e Política, na semana passada; Saulo Duarte (só dá para ouvir a voz dele, na frase inconfundível “e aí, irmão?!”); Daniel Groove, dO Sonso – e outras tantas pessoas que lá estavam, na expectativa dos minutos que antecederam o show do Desengonçalves, que pode ser visto subindo no palco. Em branco-e-preto, “A Volta do Boêmio”:
Ao assistir ao espetáculo, não dá pra não pensar no seguinte: talvez o Desengonçalves seja uma manifestação das mais autênticas da nova música brasileira. Nélson Gonçalves iniciou a carreira nos tempos áureos do rádio brasileiro, em que a potência vocal era essencial, primeiramente por dificuldades tecnológicas de gravação, depois pela cultura que se criou ao redor dos grandes cantores. O homem experimentou o sucesso, a decadência, o vício em cocaína, a retomada da carreira e o reconhecimento – além de passar por todas as gerações da canção brasileira, da era do rádio ao rock nacional da década de 80, passando pela bossa-nova, pela canção de protesto e pela tropicália, gravando sucessos de todas elas. A permeabilidade e o talento de Nelson Gonçalves talvez tenham motivado André Abujamra, Guilhermoso Wild Chicken, Loco Sosa, Mano Bap e Odayr Baptista a homenagear o boêmio. A releitura em rock não só dialoga com a carreira e a história de cada um dos cinco músicos, mas também potencializa elementos que talvez estivessem adormecidos nas interpretações de Nelson Gonçalves:
No vídeo acima, lá pelo primeiro minuto e quinze segundos, a voz do boêmio ocupa espaço no arranjo, numa espécie de assombração boa – e os músicos e o público passeiam no tempo e no espaço mágico da canção brasileira, do samba-canção ao rock and roll, num átimo de segundo. Não havia celebridades nem estrelas vaidosas na Livraria da Esquina no último sábado: havia música brasileira, artistas e o público, vagando pelo espaço lendário da canção.
Para assistir a mais vídeos das Noites do Bem com Desengonçalves clicando aqui.

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