Não tive como me controlar ao ouvir “Por Vir”, do Pappas Palace. Trata-se de composição daquelas que a gente ouve uma vez, não se sente satisfeito, e ouve outra, e mais uma – e, se ainda houvesse cassete, gravaríamos em um lado inteiro da fita, pra sentir a canção. E só.
Talvez seja besteira analisar racionalmente uma composição ao mesmo tão simples e tão intensa: melhor seria deixar que ela ganhasse mundo sem a interferência racional. Mas insisto: talvez tenhamos – talvez eu tenha – mais a aprender com “Por Vir” do que sequer imaginamos.
Pois deixemos o Pappas Palace e “Por Vir” de lado, por um instante. Estive há pouco no Tapas Club, na Augusta, ouvindo Bruno Souto, vocalista do Volver, no projeto Compondo a Cena, idealizado por Daniel Groove, do Sonso.
Ali, não há banda, arranjos, distorções ou efeitos: só o compositor e o violão. O público tem a chance de experimentar canções em versão crua, desnuda, na combinação única que lhe dá identidade: letra e melodia, mais nada, com a verossimilhança da interpretação ao vivo que, muitas vezes, fica obscurecida pela parafernália tecnológica. Canções que fazem pular num show da Volver ganharam ar meditativo, arrisco dizer melancólico, na versão voz-e-violão. Talvez porque toda composição e versão ao violão carregue consigo a densidade do processo criativo, em que o artista abandona um pouco de si – sem rigor acadêmico ou analítico nenhum, que fique claro. Como explicar o matiz que ganharam canções como “Próxima Estação” ou “Tão perto, Tão certo”, na noite de hoje?
Talvez essas canções não tenham ganhado matiz nenhum: talvez já estivesse nelas, em potência, na versão mais simples, toda a intensidade que o público teve a chance de perceber.
“Por Vir” não tem refrão. Uma batida ao fundo e o arranjo ao piano – o melhor instrumento para compor, foi o que me ensinou João Eduardo dos Porongas, ontem no Kabul – são toda a canção, de uma passionalidade tão extensa que me vieram lágrimas aos olhos na primeira vez que a ouvi. Na letra, o equilíbrio e a clareza que toda desesperança carrega consigo orientam o sentido: “Por vir”, ao contrário do que sugere o título, é canção que celebra o presente, no rito do arranjo ao piano – porque a vida é curta pra parar, mas é longa pra seguir. O abrir dos olhos no presente vislumbra um átimo de futuro – é o porvir, que no título já veio rasurado, fragmentário, como é o futuro, se ele não for só uma abstração.
As frases condicionais da segunda parte – “E se fosse só mentira / E se fosse brincadeira / E se fosse covardia” – redundam o périplo da passagem do tempo para todos nós: da infância, em que a mentira e o fazer-de-conta corrigem e atenuam a realidade, passando pela adolescência, em que a brincadeira é a carapaça contra a vida adulta, em que a covardia se transforma em modo de vida. Tudo besteira: a vida e a canção são feitas pra sentir, no aqui e no agora. E só: eis a conclusão simples da terceira parte, que se amarra de modo tão coerente à primeira que dá vontade de ouvir a canção de novo. E de novo: à cata do abrir de olhos, em que o presente ganha sentido na medida em que é feito para ser experimentado, sem que a orientação seja clara, apesar da claridade do que é real (roubando aqui um verso ao Jardim das Horas).
Abrir os olhos talvez seja aprender que o sentido está em experimentar as sensações, maravilhando-se à moda de criança, ainda que sejamos adultos do presente, sem parar e sem correr demais. Conseguiremos experimentar a harmonia se olhos e ouvidos estão abertos – e percebemos que o porvir está equilibrado num malabarismo frágil de letra e melodia? Julli Pop e Tatá Muniz seguem respondendo que sim, porque fico insistindo em “Por Vir”, em que me esqueço de desistir de parar da vida e me comprometo em seguir, sentir e só.


Incrivelmente maravilhoso…choramos nós ao ouvir suas palavras sobre Por Vir…
Você é todo percepção! Que bom que faz parte deste mundo e desta história agora…
Obrigada e Obrigado… O Pappas Palace agradece de todo seu coração!