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	<title>Blog da Identidade Musical &#187; Chico Buarque</title>
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		<title>O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música</title>
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		<pubDate>Mon, 15 Mar 2010 13:21:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
				<category><![CDATA[Cena e Mercado]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Buarque]]></category>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2010/03/15/showguns/' addthis:title='O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Confesso: eu era fã dos Guns n&#8217; Roses no fim dos anos 80 e início dos 90. Não que gostasse das palhaçadas do Axl Rose, que sempre me soaram estrelismos de um inseguro com o rei na barriga. Mas achava que o Appetite for Destruction era um álbum de primeira qualidade, que deveria figurar nas [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2010/03/15/showguns/' addthis:title='O show que não aconteceu, e o público que quer ouvir música' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/03/guns-n-roses-03.jpg"><img class="alignleft size-full wp-image-2398" style="margin-left: 10px; margin-right: 10px;" title="guns-n-roses-03" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2010/03/guns-n-roses-03.jpg" alt="" width="180" height="145" /></a>Confesso: eu era fã dos Guns n&#8217; Roses no fim dos anos 80 e início dos 90. Não que gostasse das palhaçadas do Axl Rose, que sempre me soaram estrelismos de um inseguro com o rei na barriga. Mas achava que o <em>Appetite for Destruction</em> era um álbum de primeira qualidade, que deveria figurar nas listas de melhores discos do século. O tempo passou, é claro, e minha tietagem pelo Guns também: aquele som é divertido, mas não era pra tanto. Fui ouvindo cada vez mais outras coisas, e Axl e seus asseclas foram ficando cada vez mais para trás. Ouvir Guns, para mim, hoje, é desfrutar daqueles momentos de nostalgia, em que eu beijava a namorada ao som de &#8220;Patience&#8221; ou &#8220;Don&#8217;t Cry&#8221;. Numa viagem com amigos do colegial, colocar &#8220;Paradise City&#8221;, num churrasco pode ser uma boa pra animar, as pessoas se lembram dos tempos de escola, etc. O show do Guns em 92, no Anhembi, em que chovia torrencialmente, foi inesquecível: no dia seguinte, sem gripe, sem sono e sem ressaca, fiz recuperação de Física e passei de ano. Bons tempos em que eu estudava por apenas uma tarde, ia a um show à noite, tomava cerveja e chuva a noite toda e no dia seguinte não tinha ressaca e passava de ano &#8211; e a trilha sonora de tudo isso era Guns n&#8217; Roses. Mas não dá mais pra levar o Guns a sério. Hoje, pra uma noite de cervejada, tenho dois dias de ressaca. Se vou estudar para uma prova, preparar aula ou apresentar algum trabalho acadêmico, não bebo nada e durmo bem, pra ficar inteiro no dia seguinte.</p>
<p>O engraçado é que, hoje, as coisas deveriam ter mudado. Não fui ao último show do Metallica, mas os amigos do <a href="http://www.myspace.com/madamesaatan" target="_blank">Madame Saatan</a> foram e me contaram que a banda foi extremamente simpática com o público. Inacreditável, se lembrarmos que o Metallica, na minha mesma época de colegial, fazia shows protocolares, com o som baixo, tentando sabotar o Sepultura. Parece que até megastars como eles estão sentido na carne que a relação com o público é fundamental para uma carreira longeva. Dar uma de celebridade, socando a cara de jornalistas, jogando cadeiras pelos ares (lembram dessa que o Axl aprontou?), ofendendo a tudo e a todos, atrasando a entrada no palco em mais de uma hora &#8211; tudo isso parece soar como amadorismo e estrelismo. Até às maiores celebridades se pede que cumpram o horário e que evitem conflitos com a imprensa e o público. Amy Winehouse ainda existe e faz das suas, mas o estilo junkie parece um pouco fora do tempo e do espaço.</p>
<p>Aliás, desde a palhaçada de mais de <a href="http://www.estadao.com.br/arquivo/arteelazer/2006/not20060117p3618.htm" target="_blank">doze horas de fila para não conseguir ingresso para o show do U2</a>, não frequento megashows. Quem não se lembra das filas nas portas dos Pães de Açúcar pela cidade, com fãs espertinhos, no mais legítimo &#8220;brazilian way of life&#8221; (leia-se &#8220;jeitinho brasileiro&#8221;, mas em inglês, porque gostamos de ser importantes), levando parentes idosos ou crianças de colo para furar a fila? E o Pão de Açúcar pedindo desculpas publicamente pela desorganização, enquanto todo mundo sabia que havia privilegiados (além dos espertinhos que burlavam as filas) que conseguiram ingressos sem problemas? E as <a href="http://euelaocoeoaffairredivivo.blogspot.com/2009/03/radiohead-e-vida-de-gado.html" target="_blank">reclamações das pessoas que foram ao show do Radiohead, levando mais de duas horas para conseguir sair da Chácara do Jóquei</a>? E, pra acabar, os preços absurdos cobrados para ficar num local pouco privilegiado no estádio, depois de pegar trânsito para chegar, enfrentar filas, ter de urinar em banheiros químicos imundos? Tudo isso me encheu o saco e decidi: é trabalho demais, pra show de menos, de quem quer que seja. Nem Axl, nem Bono, nem ninguém vale o esforço.</p>
<p>Escrevo essa introdução enorme para me divertir um pouco às custas da última de Axl Rose, que não deu as caras num show fechado que foi motivo de notícia na net na semana passada. <a href="http://ilustradanopop.folha.blog.uol.com.br/" target="_blank">No blog do Guia da Folha</a>, lia-se o seguinte:</p>
<p style="text-align: right;"><em>Estava tudo preparado para o show secreto e intimista do Guns n&#8217; Roses no clube Disco, quinta à noite, em SP.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Palquinho montado com bateria, teclado e percussão; setlist com 17 músicas (com &#8220;Paradise City&#8221; encerrando); vários fãs verdadeiros da banda no local (Marcos Mion, Ana Beatriz Barros, Daniella Cicarelli, Isabelli Fontana etc.); produtores do grupo à espera.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Aí, por volta da 0h30, alguém diz: &#8220;O Axl vai deixar o hotel [Hyatt] à 1h&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>À 1h, outro alguém avisa: &#8220;O Axl vai deixar o hotel às 2h&#8221;.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Aí às 2h30 surge o rumor: Axl estaria com dor de garganta e teria sido levado a um hospital. Pouco depois, os equipamentos começam a ser desmontados.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Lá dentro, brigas. Endinheirados revoltados se socando; uma modelo tentando bater na outra com uma garrafa de champanhe&#8230; Do lado de fora, mais confusão, correria, xingamentos. Uma equipe do Pânico foi agredida; dois seguranças da casa pularam uma cerca e foram atrás de um rapaz.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>Segundo o próprio Marcos Mion, um dos sócios da casa, outro dos donos da Disco, Marcos Maria, brigou com os seguranças da banda, que estavam levando os instrumentos que o clube havia locado. Que beleza.</em></p>
<p style="text-align: right;"><em>E assim foi o &#8220;show secreto&#8221; do Guns na Disco.</em></p>
<p style="text-align: left;">&#8220;Show<em> </em>secreto&#8221;: nada me soa mais &#8220;brazilian way of life&#8221; do que isso. Algo como &#8220;o povão curtirá apertado, fedendo a suor, a cerveja e a maconha ruim, o show do Guns; nós aqui teremos Axl fazendo um show intimista&#8221;. Perfeito para uma pauta na revista Caras, perfeito para dizer em alguma balada ou restaurante caro, com ar blasé &#8220;estive no show secreto do Guns e&#8230;&#8221;. A cultura do privilégio correndo solta, com garrafas de champanhe à vontade e celebridades correndo rumo aos flashes. Em suma: os escolhidos, os que não se misturam fazendo tudo que os pobres mortais não fazem.</p>
<p style="text-align: left;">Mas veja que curioso: celebridade também é gente. Não é só nas casas noturnas das classes médias ou baixas que rolam brigas: endinheirados também se socam. A diferença é que as meninas, em vez de puxarem os cabelos ou de se arranharem, ameaçam-se com garrafas de champanhe.</p>
<p style="text-align: left;">Escrevo este texto não só para me divertir às custas dos célebres e ricos (ou daqueles que querem estar entre eles), cuja pretensa &#8220;educação&#8221; é exatamente o que os faz evitar o contato com as pessoas comuns. Ora, leitores: ir ao show secreto, além de render status nas colunas sociais, também é uma forma de mostrar-se acima do público comum, para além dele.</p>
<p style="text-align: left;">Mas também escrevo este texto para apontar algo curioso: existe uma necessidade &#8211; e esta me parece real, genuína &#8211; de assistir a um show num ambiente menor, em que se possa aproveitá-lo de forma mais autêntica e menos estressante. É quase unânime o seguinte discurso: os shows menores &#8211; para quem vai ao show para poder ouvir a música, bem entendido &#8211; são melhores, porque o artista pode interagir de modo menos pasteurizado com a platéia, que pode concentrar-se exclusivamente na música &#8211; e, em última análise, num show, é ela que interessa.</p>
<p style="text-align: left;">Aliás, deixem-me lembrar aqui de outro show que deveria ser, supostamente, civilizado, e que me soou como ida ao zoológico: o show de Chico Buarque. Ora: trata-se do espetáculo em que não se esperava do público nada mais do que respeito ao artista, dada a unanimidade que é o compositor. Entre uma música e outra, ouviam-se gritos histéricos de &#8220;casa comigo, Chico&#8221;, ou &#8220;Gostoso!&#8221;, ou &#8220;Tesão!&#8221;. Estávamos sentadinhos em mesas elegantes, servidos por garçons, tudo no melhor estilo &#8220;show civilizado&#8221;. Mas, ao nosso lado, ao longo de toda a apresentação, uma pessoa falava insistentemente ao telefone, explicando aos parentes ou amigos que estava no show do Chico, que ele lhe parecia ainda mais bonito do que nas fotos, embora já um pouco velho&#8230;</p>
<p style="text-align: left;">Minha impressão: ir ao show do Chico Buarque, para aquelas pessoas, não era ouvir as canções do Chico, mas poder dizer aos outros (em tempo real, inclusive) que elas estiveram (<em>estava</em>) no show do Chico &#8211; uma réplica da cultura à celebridade que foi por água abaixo no show secreto do Guns. Trata-se de um tipo de público de que quero distância: aquele que lê nos guias de cultura &#8220;o que está pegando&#8221; e que vai pra dizer que foi. Para essas pessoas, a obra de arte ali apresentada é o pretexto, não é a finalidade do evento. Pena.</p>
<p style="text-align: left;">É claro que no show secreto do Guns havia fãs que queriam de fato ouvir as músicas. Mas a descrição feita no blog do Guia da Folha me deu a impressão de que a maioria das pessoas que estava lá apareceu pra poder dizer que&#8230; estava lá: reflexo nítido da cultura às celebridades, que ganha contornos especiais no Brasil, em que o nosso desejo de aparecer mais do que os outros vem carregado do desejo de esmagá-los. Não basta ter o privilégio de assistir a um show fechado do Guns, é preciso também, nessa mesma lógica, poder mostrar aos outros como eles são inferiores por não gozarem de tal privilégio.</p>
<p style="text-align: left;">Tudo isso fica ainda mais patético quando se trata de um show fechado <em>do Guns n&#8217; Roses</em>, banda que convenhamos, nem é tudo isso. Respeito todos os gostos, já disse aqui, mas não posso deixar de dizer que o vexame é maior quando uma confusão como essa acontece por causa de uma banda meia boca, de sucessos requentados e de um disco recente que não fede nem cheira.</p>
<p style="text-align: left;">Ora, se é pra brigar, melhor usarmos a cabeça e explorar cada vez mais espaços pequenos e médios para bandas de qualidade, de modo que possamos formar um público que vai aos lugares para <em>assistir aos shows</em>. Deixemos para lá os espetáculos fechados, para poucos privilegiados ou amigos de privilegiados: trabalhemos para que haja muitos shows pequenos ou médios em espaços para que boas bandas brasileiras possam mostrar seu trabalho; para que esses espaços possam receber adequadamente o público, com facilidade de acesso, com acessibilidade, a preços justos, com banheiros limpos, de preferência. Deixemos para lá a cultura às celebridades e mergulhemos nas canções. Já passou da hora de dar importância ao público que vai aos shows para ouvir música.</p>
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		<title>O rock pode mudar o mundo</title>
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		<pubDate>Wed, 01 Jul 2009 03:00:18 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/07/01/o-rock-pode-mudar-o-mundo/' addthis:title='O rock pode mudar o mundo'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>E foi assim: Bernie Walbenny, da Belrock, me propôs, em dezembro, escrever um texto com o tema “rock e política”. Demorei a responder, em parte porque o desafio é grande. Mas, principalmente, porque mexe com algo em que acredito piamente – e que já tem me dado um trabalho desgraçado: o rock, sobretudo hoje, pode [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/07/01/o-rock-pode-mudar-o-mundo/' addthis:title='O rock pode mudar o mundo' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>E foi assim: <a href="http://mtv.uol.com.br/belem/blog">Bernie Walbenny</a>, da <a href="http://www.belrock.com.br/">Belrock</a>, me propôs, em dezembro, escrever um texto com o tema “rock e política”. Demorei a responder, em parte porque o desafio é grande. Mas, principalmente, porque mexe com algo em que acredito piamente – e que já tem me dado um trabalho desgraçado: o rock, sobretudo hoje, pode mudar o mundo.</p>
<p>Não digo isso sem algum medo. A primeira pergunta que deve ser posta é: toda banda de rock tem a obrigação de, nas letras e na sonoridade, querer mudar o mundo? E, embora possa parecer contraditório, respondo, inicialmente, que não. Vou me explicar.</p>
<p>Vejo o rock como uma forma de arte – da mesma maneira que outros gêneros musicais. E não podemos nos esquecer de que a arte pode servir, apenas, para desfrute estético do público que a degusta. Nem sempre procuramos obras de protesto, cuja finalidade é a sensibilização político-ideológica. Não faltam exemplos entre os grandes: os Beatles da fase “She loves you” são mais diversão do que conscientização; “Smoke on the water” nada mais é do que um relato de um incêndio, mas a música faz todo mundo pular; os Stones de “I can’t get no (satisfaction)” não deixam ninguém parado, e não fazem protesto político nenhum. E por aí vamos.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/l2fDUb57_xk&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/l2fDUb57_xk&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>Acontece que, se examinarmos principalmente o exemplo dos Beatles, nas infinitas biografias da banda e de seus integrantes, se mergulharmos nas análises sobre a indústria cultural da década de 60, verificaremos que as canções da fase iê-iê-iê expressavam, do ponto de vista comportamental, uma ebulição daquele tempo que somente sentiu quem viveu. Não há ali nada de ideológico, claro está, mas certamente aquelas canções expressam um espírito da época que pode ser considerado, em alguma medida, revolucionário – trata-se de um presságio do movimento hippie, da defesa da paz e do amor, do sonho (que ainda não acabou, como pretendo defender mais adiante) de mudar o mundo, da luta pelos direitos dos negros e das mulheres, da tentativa de pensar alternativas de futuro para a humanidade.</p>
<p>Em poucas palavras: as canções, embora não fossem politizadas, dialogavam, em grande medida, com o mundo em que eram produzidas. Lembremos também que, na fase posterior a <em>Revolver</em>, os Beatles mergulham cada vez mais em propostas sonoras ousadas que colocam em xeque as “demandas” do mercado consumidor. <em>Sgt. Peppers</em> e o Álbum Branco “fundem a cabeça” de boa parte do público – para usar a expressão de Caetano Veloso, enquanto era veementemente vaiado no TUCA, em 1968, ao comentar uma canção de Gilberto Gil já no contexto da Tropicália. No vídeo abaixo, não há as imagens nem essa frase especificamente, mas pode-se ouvir a resposta de Caetano aos apupos do público:</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/mCM2MvnMt3c&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/mCM2MvnMt3c&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>A Tropicália é, aliás, outro movimento cuja proposta estética não era declaradamente engajada, mas que foi injustamente chamado de alienado na época, só porque nela estavam acirrados os ânimos e as diferenças ideológicas.</p>
<p>Os leitores, sobretudo os mais politizados, podem, evidentemente, contra-argumentar: não havia nas canções dos quatro de Liverpool, nem no <em>Tropicália ou Panis et Circenses</em>, nenhum projeto político-ideológico consistente e organizado. Fato, mas não nos esqueçamos de que a arte meramente engajada sempre corre o risco de deixar o terreno da arte para tornar-se mero panfleto. Entendo que não há pecado nenhum aí, apenas um risco: abandono da criação artística em detrimento do discurso político.</p>
<p>A alternativa pode ser, então, a criação de canções que, embora carreguem em si alguma dose (que pode ser alta) de crítica, saibam equilibrá-la com o capricho artístico. Somos roqueiros, mas aprendamos (sempre) com Chico Buarque: <em>Construção</em>, de 1971, certamente é fruto de um dos períodos de maior repressão política no Brasil. Trata-se sem dúvida de um disco engajado, em que Chico protesta contra a ditadura, mas sem restringir as letras e as composições ao contexto político da época, transcendendo-o – vide a atualidade da versão de “Deus lhe pague”, da Pitty, no vídeo abaixo acompanhada de Marcelo Nova e Frejat.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/u-y-Hrw6W18&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/u-y-Hrw6W18&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>Há, além disso, um detalhe que precisa ser levado em conta: até bem pouco tempo atrás, para viver de música era necessário submeter o próprio trabalho às demandas da indústria fonográfica. Em resumo (mas os comentários a seguir merecem, todos, aprofundamento em textos futuros), pode-se dizer que qualquer discurso que fosse considerado “ameaçador” pelas majors poderia ser vetado – e jamais alcançaria o grande público. Da mesma forma, qualquer proposta musical mais ousada que não respondesse às fôrmas preconcebidas pelas grandes empresas do setor musical também poderia ser rejeitada devido à suposta inviabilidade comercial.</p>
<p>Hoje, com os recursos tecnológicos com que contamos, tudo mudou: qualquer proposta musical, por mais esdrúxula que possa parecer, pode ser viabilizada para o mundo via Myspace. Daí, uma hipótese: este é um momento especial para os músicos que têm talento para compor e que têm críticas a fazer. É especial porque muitos deles ficam no “trono de um apartamento, com a boca escancarada, cheia de dentes, esperando a morte chegar” e ficam esperando que o mundo descubra-lhes a genialidade. A estes preguiçosos digo que estão se omitindo: mais do que nunca, há espaço para eles – espaço que devem ocupar, para livrar-nos do lixo da indústria cultural. Mudo, pois, a resposta à pergunta que fiz no começo deste texto: todo músico – sobretudo o roqueiro – que tem uma proposta alternativa, no momento em que vivemos, tem, sim, quase que a obrigação de, nas letras e na sonoridade, querer mudar o mundo. Deixar de ter esse desejo é abandonar uma oportunidade histórica única.</p>
<p>O momento também é especial para aqueles que já lutam por espaço por meio da cena independente: deixemos de lado as bandinhas fúteis e comerciais – é óbvio que elas farão muito sucesso, ganharão muita grana e discursarão no Faustão contra a pirataria, em vez de lutar pelo barateamento do preço dos CDs ou dos downloads legalizados. É esse o papel que elas devem fazer, dada a sua infertilidade criativa e sua adesão à lógica das majors. Já o papel dos independentes é a formação de público: por meio de propostas sonoras inovadoras e de letras ousadas (que podem ser mais ou menos políticas, mas que certamente devem conter tom crítico), os independentes podem e devem formar um público cujo gosto musical seja mais exigente – e, por consequência, menos alienado e mais analítico, pensante.</p>
<p>Note-se bem: não estou fugindo da raia. Bernie me pediu que escrevesse um texto sobre rock e política. O que quis dizer nos parágrafos anteriores é que o termo “política” precisa ser precisado e delimitado, sobretudo quando associado a canções. Seria besteira exigir que todas as canções de rock debatessem o contexto político atual, primeiramente pelo risco de ficarem datadas – vejam o que aconteceu com “Luiz Inácio (300 picaretas)”, dos Paralamas do Sucesso, em que a crítica à política brasileira permanece atual, com a exceção do refrão.</p>
<p><object classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="425" height="344" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="allowFullScreen" value="true" /><param name="allowscriptaccess" value="always" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/DpdX7BwGBIQ&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" /><param name="allowfullscreen" value="true" /><embed type="application/x-shockwave-flash" width="425" height="344" src="http://www.youtube.com/v/DpdX7BwGBIQ&amp;hl=pt-br&amp;fs=1&amp;" allowfullscreen="true" allowscriptaccess="always"></embed></object></p>
<p>Enfim: mesmo uma canção que não contenha letra explicitamente político-ideológica pode ser bastante provocadora e convocar o público à reflexão a respeito da realidade que o cerca – inclusive por meio da sonoridade. É o que fizeram os tropicalistas na década de 70; a Vanguarda Paulistana e o punk na década de oitenta; é o que fez o Manguebit e o Sepultura depois de <em>Chaos AD</em> na de noventa e até hoje, com os trabalhos conceituais associados à literatura; é o que fez o Lobão, ao inovar distribuindo CDs para venda em bancas; é o que fazem várias bandas independentes hoje: no que diz respeito a propostas musicais ousadas, cito apenas duas, sempre com a certeza de que estou deixando de fora muita gente boa: <a href="http://www.myspace.com/aeuterpia">A Euterpia</a> e <a href="http://www.porcasborboletas.com.br/home.asp">Porcas Borboletas</a>. (Sobre a segunda banda, <a href="http://ametricadogrito.blogspot.com/2009/03/porcas-borboletas-e-nossa-tradicao.html">clique aqui para ler uma análise que escrevi na Métrica do Grito</a>).</p>
<p>Para concluir, porque já me alonguei demais: nem tudo é rock nos movimentos e bandas citados acima. Acontece que, em maior ou menor medida, ele sempre é parte integrante de propostas de sensibilização, conscientização e, até, de revolução. Investigar essa relação intrínseca do rock com a vontade de mudar o mundo (embora nem todas as bandas de rock proponham isso) e a afinidade que ele tem com outros gêneros, sobretudo no Brasil, para levar adiante essa vontade serão objeto das discussões por aqui. Que venham os debates.</p>
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		<title>365: tudo igual na quarta de cinzas</title>
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		<pubDate>Wed, 25 Feb 2009 17:59:31 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
				<category><![CDATA[Máquina do Tempo]]></category>
		<category><![CDATA[Banda 365]]></category>
		<category><![CDATA[carnaval]]></category>
		<category><![CDATA[Chico Buarque]]></category>
		<category><![CDATA[Folha de São Paulo]]></category>
		<category><![CDATA[Jânio de Freitas]]></category>
		<category><![CDATA[Sambódromo]]></category>
		<category><![CDATA[Vai Passar]]></category>

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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Discutir se o carnaval é uma festa autenticamente popular ou se, principalmente no Brasil, ele serve de instrumento de alienação e de “pão e circo” pode levar a uma briga de grandes proporções. A coisa pode ficar feia se alguém levantar a lebre de que as classes dominantes se apropriaram do carnaval, roubando-o ao povo. Surgirão argumentos de toda ordem... <div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/25/tudo-igual-na-quarta-de-cinzas/' addthis:title='365: tudo igual na quarta de cinzas' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-56" style="margin-left: 7px; margin-right: 7px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/baianas-imperatriz-20083-150x150.jpg" alt="A ala das baianas da Imperatriz Leopoldinense, em 2008" width="150" height="150" />Discutir se o carnaval é uma festa autenticamente popular ou se, principalmente no Brasil, ele serve de instrumento de alienação e de “pão e circo” pode levar a uma briga de grandes proporções. A coisa pode ficar feia se alguém levantar a lebre de que as classes dominantes se apropriaram do carnaval, roubando-o ao povo. Surgirão argumentos de toda ordem – desde os mais pessoais, como “você já foi a um ensaio de escola de samba e sentiu, de perto, o som da bateria?”, até os mais científicos, com levantamentos a respeito da história do carnaval no Brasil, a origem dos blocos, a comparação entre os carnavais de rua nas diferentes regiões, o “controle” da festa nos sambódromos, enfim: há até quem defenda que o carnaval pode entrar na categoria das coisas que não devem nem podem ser discutidas, como política, futebol e religião. </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;">Em plena quarta de cinzas, lembrei-me, então, de duas canções: a primeira delas é <a href="http://www.youtube.com/watch?v=9A_JrsJF6mM">“Vai Passar”, do Chico Buarque</a>, que <a href="http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/">já comentei por aqui na Identidade Musical</a>. Nesse samba-enredo carioca por excelência, de 1984, ano em que Leonel Brizola inaugurou o sambódromo do Rio de Janeiro, num período carregado de esperanças de redemocratização do Brasil, pode-se vislumbrar um carnaval futuro, em que as injustiças sociais se transformam em alegoria de um Brasil que ainda não chegou – mas que parecia estar, naquela época, prestes a surgir com a “evolução da liberdade”.</span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-61" style="margin-left: 7px; margin-right: 7px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/3651-150x117.jpg" alt="A banda paulistana 365" width="150" height="117" />A segunda é &#8220;Sambódromo&#8221;, da <a href="http://www.myspace.com/banda365">banda paulistana 365</a>, em que a visão é menos otimista</span></span><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;">; é mais paulistana, talvez se possa dizer. Lembremos que São Paulo foi e é chamada de cidade feia por muitos, porque não contém as belezas naturais do Rio de janeiro, além de ser considerada o “túmulo do samba” por <a href="http://www.viniciusdemoraes.com.br/">Vinícius de Morais</a>. Mais do que isso: para <a href="http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2202200904.htm">Jânio de Freitas, na Folha de São Paulo de domingo</a>, o carnaval paulistano é mera imitação do já artificial carnaval carioca. Finho e Ari Baltasar, do 365, parecem concordar: “<span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Na margem que passa junto ao rio inerte / Um templo sem graça faz que se diverte”. A alusão à Marginal do Tietê – rio que talvez esteja inerte porque não tem vida alguma, devido à poluição – é flagrante, da mesma forma que o artificialismo da “folia”, o que se repete em outros versos, como “Vida importada, morte nacional / Farsa anunciada, juízo final”. </span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;"><span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Neles e em vários outros, reafirma-se a ideia de que a tal folia nada mais é do que um espetáculo no “padrão Globo de qualidade” – expressão do mesmo Jânio de Freitas – calculadamente arquitetado para estrangeiros se fascinarem com “a beleza da mulher brasileira” e com “a alegria e a criatividade de nosso povo”, lugares-comuns que podem desviar nossos olhares e os dos gringos para muitos aspectos menos festivos da realidade nacional. Durante os desfiles, todos os anos, os apresentadores da Globo não param de afirmar que a festa é transmitida para mais de cem países; para Jânio de Freitas, a festa é uma farsa, porque exclui o povo: “</span>Se o povão fica à margem, Carnaval não é”.</span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: small;"><span style="font-family: Calibri;">O 365 concorda: “<span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT">Gente apagada brilha pra turista / A massa cansada dança pra estatística / Beija a fantasia e se sente gente / Finge que é sonho, mundo diferente”. Eis aí uma das críticas mais recorrentes à “maior festa popular do planeta” – nos cinco dias do carnaval, fantasia-se um sonho de Brasil diferente, de alternativa de futuro que nunca se realiza, porque na quarta-feira de cinzas tudo volta ao normal. Daí os primeiros versos da canção –<span style="mso-spacerun: yes;">  </span>“Luzes do futuro vão iluminar / Um presente escuro onde eu fui brilhar” – notáveis por vários motivos: as “luzes do futuro” (isto é, as luzes das <em>promessas jamais realizadas</em> de futuro, repetidas todos os anos, em todos os carnavais) vão iluminar “um presente escuro” (este sim real, concreto, cruel, mas abrilhantado e <em>ofuscado</em> pelas tais “luzes do futuro”) onde o eu que canta foi brilhar em primeira pessoa – o que remete à falsa ideia de que todos os que desfilam na avenida são iguais, sejam eles ricos, pobres, celebridades, anônimos, brancos, negros ou mestiços. Mentira, é claro: nos sites e revistas de fofocas, não faltam textos sobre as exigências e excentricidades dos famosos para que desfilem como destaques, <em>ofuscando</em> os anônimos.</span></span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="mso-ansi-language: PT;" lang="PT"><span style="font-size: small; font-family: Calibri;"> </span></span></p>
<p class="MsoNormal" style="margin: 0cm 0cm 0pt;"><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;" lang="PT"><img class="alignleft size-thumbnail wp-image-62" style="margin-left: 10px; margin-right: 10px;" src="http://identidademusical.com.br/blog/wp-content/uploads/2009/02/renato-sorriso-blog-157x300-150x150.jpg" alt="Renato Sorriso, o gari festivo do carnaval do Rio de Janeiro" width="150" height="150" />O carnaval, e os sonhos de um Brasil diferente, entretanto, sempre ganham ponto final na quarta-feira de cinzas: “Quando tudo é cinza / Vassoura na mão / Só ele tem cor / Vai varrer o chão”. <span style="mso-spacerun: yes;"> </span>O mais assustador, contudo, é que até um <a href="http://www.youtube.com/watch?v=Y43Oy4G4xEg">gari carioca, festivo e animado, tenha se tornado celebridade</a>, depois de sambar enquanto varria a avenida: <a href="http://colunistas.ig.com.br/mauriciostycer/2009/02/14/renato-sorriso-%E2%80%9Cminha-vassoura-e-meu-passaporte%E2%80%9D/">Renato Sorriso</a> já gravou comerciais com </span><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT-BR; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;">Gisele Bundchen e Zeca Pagodinho, além de ter participado de uma novela da Globo</span><span style="font-size: 11pt; font-family: &quot;Calibri&quot;,&quot;sans-serif&quot;; mso-ansi-language: PT; mso-fareast-font-family: Calibri; mso-bidi-font-family: 'Times New Roman'; mso-fareast-language: EN-US; mso-bidi-language: AR-SA;" lang="PT">. E repete-se mais uma vez o sonho tão falso e tão brasileiro de que todos que estão na avenida podem tornar-se celebridades.</span></p>
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		<title>Chico Buarque e a alternativa de futuro</title>
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		<pubDate>Thu, 19 Feb 2009 17:59:01 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Rogério</dc:creator>
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		<description><![CDATA[<div class="addthis_toolbox addthis_default_style " addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/' addthis:title='Chico Buarque e a alternativa de futuro'  ><a class="addthis_button_facebook_like" fb:like:layout="button_count"></a><a class="addthis_button_tweet"></a><a class="addthis_counter addthis_pill_style"></a></div>Prometi, na coluna anterior, que ia comentar “Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e não me dei conta da dor de cabeça que arrumei. O problema é o seguinte: o Chico é uma unanimidade. As mulheres o acham sensual, consideram-no um especialista em alma feminina; os homens o admiram pela obra de protesto, [...]<div class="addthis_toolbox addthis_default_style addthis_32x32_style" addthis:url='http://identidademusical.com.br/blog/2009/02/19/uma-alternativa-de-futuro/' addthis:title='Chico Buarque e a alternativa de futuro' ><a class="addthis_button_preferred_1"></a><a class="addthis_button_preferred_2"></a><a class="addthis_button_preferred_3"></a><a class="addthis_button_preferred_4"></a><a class="addthis_button_compact"></a></div>]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Prometi, na coluna anterior, que ia comentar “Vai Passar”, de Chico Buarque e Francis Hime, e não me dei conta da dor de cabeça que arrumei. O problema é o seguinte: o Chico é uma unanimidade. As mulheres o acham sensual, consideram-no um especialista em alma feminina; os homens o admiram pela obra de protesto, por ser filho do Sérgio Buarque de Holanda, autor das célebres <em>Raízes do Brasil</em>, e por ser a encarnação do homem brasileiro que gosta de samba, futebol, feijoada, cachaça e mulher (não necessariamente nessa ordem, pelo amor de deus); a crítica o julga um dos maiores compositores do país; sua obra literária vai do teatro ao romance, sempre com sucesso. Enfim: o homem é uma autoridade quase incontestável.</p>
<p>Partilho de boa parte dos julgamentos acima, mas tenho certeza de que muitos leitores vão me repreender por não incluir, neste texto, os superlativos que se costuma atribuir a Chico Buarque. A intenção, aqui, é clara (e passa longe do descabelamento exagerado ao compositor): observar que “Vai Passar” é obra carregada do momento em que foi escrita – o período de redemocratização do Brasil, em meados da década de oitenta –, mas, principalmente,  apontar que a força dessa canção transcende esse período histórico, por haver nela um projeto de futuro, por meio do qual o país superaria os atrasos do passado.</p>
<p><object width="425" height="344"><param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/9A_JrsJF6mM&#038;hl=pt-br&#038;fs=1"></param><param name="allowFullScreen" value="true"></param><param name="allowscriptaccess" value="always"></param><embed src="http://www.youtube.com/v/9A_JrsJF6mM&#038;hl=pt-br&#038;fs=1" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="425" height="344"></embed></object></p>
<p>“Vai Passar” é um samba-enredo. Num raciocínio bastante simples: anualmente, cada escola de samba elege, digamos, um<em>tema </em>a desenvolver – uma passagem histórica, uma personalidade (o próprio Chico já foi homenageado pela Mangueira), uma região do Brasil, por exemplo. Escolhido o tema, é preciso dar-lhe <em>concretude </em>por um processo a que se pode chamar<em>alegoria</em>: todas as fantasias, todas as alas, todos os carros devem ser, de alguma maneira, materializações daquele tema, que também é desenvolvido no samba-enredo. Pois bem, a hipótese é a seguinte: em “Vai Passar”, o desfile dos “barões famintos”, dos “napoleões retintos” e dos “pigmeus dos boulevards” nada mais é do que a alegoria do que se desejava superar na história do Brasil. Atenção: não se trata, apenas, de acabar com a Ditadura Militar – o que restringiria demais a canção –, mas de vencer quaisquer períodos de nossa história em que a desigualdade social se acentuou e em que houve cerceamento da liberdade.</p>
<p>O carnaval tem sido visto, basicamente, de duas maneiras por nossos intelectuais: como uma festa popular, de origens imemoriais, que representa, de fato, a cultura nacional; ou como um meio de alienação, em que a população, esgarçada pela exploração das classes dominantes, vai às ruas esbaldar-se em samba, suor e cerveja, para esquecer o sofrimento do ano inteiro. Para o antropólogo Roberto da Matta, no livro <em>Carnavais, malandros e heróis</em>, “o carnaval é um momento de<em>communitas</em>, mas que serve – nas condições da organização social da sociedade brasileira, dividida em classes e segmentos – para manter a hierarquia e a posição das classes”; parece-me que, em “Vai Passar”, a proposta é exatamente fazer prevalecer o “samba popular”, original, primordial, anulando o efeito alienante que ele assumiu e fazendo dele meio de superação das desigualdades.</p>
<p>Um professor, colega do cursinho, lembrou-me, recentemente, de que o verso inicial “vai passar” aludia à Emenda Dante de Oliveira, que propunha eleições diretas para presidente, em 1984. A emenda não foi adiante, não “passou” (e, enquanto escrevo este texto, lembro-me, arrepiado, de pessoas que gritavam, nesse dia de derrota, em Brasília, a frase “A luta continua”), mas a canção marcou a época, ou vice-versa. Segundo a letra, na avenida vai passar um “samba popular”, o que leva a crer que estamos, de fato, diante de um texto em que o carnaval não é visto como instrumento de alienação. Pelo contrário, tudo remete à tradição do povo, à sua cultura: os paralelepípedos – forma antiga de calçamento – vão se arrepiar ao lembrar que, por ali, passaram “sambas imortais” e “sambaram nossos ancestrais”.</p>
<p>Há, contudo, um corte: embora alegre, o samba-enredo se torna quase soturno ao se lembrar de um tempo que era “página infeliz da nossa história”, de que as novas gerações já não se lembram. Nesse período, a pátria dormia, “subtraída em tenebrosas transações”; seus filhos “erravam cegos pelos continentes” (imagino, aqui, os retirantes, zanzando daqui para acolá, num país de dimensões continentais, ou os exilados políticos em países distantes) e “levavam pedras feito penitentes” (carregar pedra é trabalho associado a presídios). Mas um dia, “tinham direito a uma alegria <em>fugaz” </em>– isto é, passageira – “uma ofegante <em>epidemia </em>que se chamava carnaval”. Ora, epidemia é termo associado à doença, à miséria, à falta de saneamento básico. Em resumo, é preciso – superando esse passado nefasto e nada sadio – construir um Brasil novo, que guarde elementos populares de sua cultura.</p>
<p>Muitos leitores imaginarão que estou viajando, mas acho que não, porque logo depois entram “em cena”, na canção, desfilando, as alas antitéticas de uma escola de samba, num momento em que aquela página infeliz de nossa história já foi virada: são os barões famintos – o primeiro termo, que remete a proprietários de terra, barões do café, é relativizado pelo adjetivo “famintos” – os napoleões retintos – no mesmo efeito, os imperadores que são negros – e os pigmeus dos boulevards – pequenos-burgueses afrancesados que, literalmente, <em>perderam estatura</em>, apequenaram-se. É a plena alegoria da superação do Brasil atrasado, da desigualdade extrema, que virou festa: no futuro projetado na canção, a injustiça social é representada por aquelas alas exatamente porque ficou no passado, já virou <em>história</em>, “passagem desbotada na memória das novas gerações”. Ficaram no passado as feridas do país, e a passagem das alas se propaga no espaço – toda a cidade está cantando – e no tempo – “até o dia clarear”. O sanatório é o lugar em que se curam as doenças; o “estandarte do sanatório geral” é alegoria da recuperação e da superação das feridas do passado, a bandeira que representa um Brasil cuja doença “vai passar”, isto é, vai ser curada.</p>
<p>Concluindo: as alegorias que desfilam aos olhos do leitor/ouvinte – quase podemos ver o desfile enquanto <em>ouvimos </em>a canção – representam figuras históricas que <em>já terão passado</em> pela história do Brasil quando se alcançar o futuro desejado, isto é, desfilam agora figuras que <em>serão históricas</em> no futuro esboçado pelos autores. Não há classes superiores ou inferiores: barões, elites e burguesia <em>viraram história</em>; o que há é igualdade, por isso resta a Deus – o único que é superior, que paira acima de toda a cidade – assistir ao espetáculo: “Meu Deus, vem olhar / vem ver de perto uma / Cidade a cantar / a evolução da liberdade / até o dia clarear”. De fato, segundo o mesmo Roberto da Matta: “as escolas enquadram sua unidade na possibilidade de criar um espaço que, embora ligado por um cordão umbilical ao ‘morro’, à favela e à pobreza, permite a junção – para o carnaval – de gente rica, branca e bem nascida com os pobres e pretos. As escolas, então, promovem uma sistemática integração dessas classes no seu desfile altamente complexo”.</p>
<p>Na alternativa de futuro que se pode observar em “Vai Passar”, transcende-se a idéia de que a escola de samba promove a integração das classes: há, ali, o ideal de <em>supressão e superação</em> das diferenças sociais, restando apenas a tradição do carnaval, capaz de tornar a “página infeliz da nossa história” uma alegoria. A “evolução da liberdade” pode ser entendida como o <em>desenvolvimento </em>da liberdade – a aniquilação das explorações – e como a combinação entre a base sonora do samba-enredo e a dança das alas, que dançam e cantam, compassadamente, a <em>liberdade</em>, diretamente associada ao <em>samba </em>original, manifestação genuinamente popular e autenticamente brasileira, que superou, na canção, sua versão epidêmica, doente.</p>
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